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Cristine Takuá's Diary

VIVA VIVA ESCOLAS VIVAS: uma ativação de pensamentos ancestrais

By 24 de September de 2026No Comments
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VIVA VIVA ESCOLAS VIVAS
Uma ativação de pensamentos ancestrais
Cristine Takuá

24 de setembro de 2026

Sala central da exposição Viva Viva Escola Viva na noite da abertura
Foto: Filme d’Água

Entre o céu e a terra, entre montanhas e rios, entre o visível e o invisível foram ativadas artes e sopros de pensamentos dos povos que compõem o coletivo do movimento Escolas Vivas, Huni Kuin, Baniwa, Tukano-Desana-Tuyuka, Maxakali e Guarani Mbya, com a exposição Viva Viva Escola Viva no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, junto à Associação Selvagem.

Celebramos a vida, a existência e resistência de cada coletivo que, num emaranhado de fazeres, criaram, produziram e transformaram suas narrativas antigas em artes muito profundas. Foram oficinas nos territórios, visitas, caminhadas, rezos coletivos, cerimônias espirituais, a residência artística Casa Escola Viva no MAM do Rio de Janeiro, tudo isso compôs um lindo processo de feituras que resultaram no encontro mágico de presenças e saberes entre os artistas e os coordenadores de cada Escola Viva.

Roda de abertura da exposição, com a presença das 5 Escolas Vivas.
Foto: Filme d’Água

É difícil colocar em palavras tudo o que a gente viveu, todo o processo de construção, de montagem, de abertura da exposição. Todas as ativações feitas pelo educativo…

A montagem da exposição foi muito forte, pois, junto com todo o grupo de artistas, coordenadores, crianças, a gente pensou coletivamente como seriam colocadas as obras. Todo o processo fez a gente entender que uma floresta inteira vem por trás daquelas telas. Depois que as telas foram colocadas, começamos a pensar nesse fundo, porque, na verdade, esse fundo nada mais é do que os territórios em si, as suas camadas de representatividade, da essência de cada Escola Viva. Foi profundo olhar para aquele fundo, que foi pintado durante a montagem pelos artistas de cada Escola Viva. As pinturas nessas grandes telas foram significativas dentro das cosmologias, dentro do pensamento de cada cultura que as compõem.

Artistas e coordenadores das Escolas Vivas pintando os murais nas paredes do espaço de exposição
Photos: Selvagem Collection

Umbigo do mundo [Navel of the world]

A produção da obra “Umbigo do mundo”, idealizada por Francy Baniwa, sua família e representantes da comunidade de Assunção do Içana, trouxe a força do princípio de tudo. 

Um dia, passeando pela exposição, vi chegar um grupo de crianças de uma escola, e um menino, aparentava uns 9 anos, parou em frente à casinha e começou a se abaixar e reverenciar com os braços. Sorria e falava palavras de encantamento. Fiquei emocionada e percebi o quanto aquela oportunidade que ele estava tendo poderia transformar sua infância e o quanto a nossa exposição tinha essa missão de soprar saberes ancestrais para conectar crianças, adultos e anciãos.

Instalação “Umbigo do mundo”
Photo: Filme d’água.

Bandeiras

As bandeiras de cada Escola Viva também foram uma presença forte, pois deixaram marcados os seus símbolos, as suas imagens, mostraram de onde vem, como são representados os pensamentos, o coração que pulsa em cada Escola Viva. Essas bandeiras tiveram a força de trazer os elementos muito significativos que compõem esse pulsar das Escolas Vivas.

Bandeiras pintadas pelas Escolas Vivas durante a montagem da exposição.
Foto: Estúdio Em Obra

Avózinhos

Para a exposição Long Live the Living School exhibition, convidamos também alguns avózinhos para trazer a força da memória ancestral. Estiveram presentes, através da arte, Ehuana Yanomami, Luiz Lana Desana, Moisés Piyãko e Ailton Krenak. Os Avós são os guardiões das boas e belas mensagens sopradas em palavras, contadas em narrativas antigas ou transformadas em artes que animam o nosso caminhar. Evocar os Avós, escutá-los e ver suas ativações é acessar outros códigos, sentir a ancestralidade que habita em suas antigas mensagens. Quando um avôzinho pega seu Maracá e entoa, através dos cantos, os rezos de cura e proteção, ou quando as avózinhas recebem com seus cantos os nenezinhos que chegam ao mundo, eles estão fazendo pontes entre os mundos, entre o mundo dos humanos e o dos espíritos.

E nesse diálogo entre os avózinhos e os artistas, pensadores e rezadores que equilibram a vida na Terra, pudemos semear e espalhar as mensagens que cultivamos nessa caminhada Selvagem. Muitas crianças, artistas, educadores, famílias, escolas, jovens e anciãos percorreram a exposição e se conectaram com o pulsar das antigas memórias ali projetadas e puderam refletir sobre os conhecimentos que habitam em cada código de saberes.

O tempo das memórias vivas e ativadas se faz presente e cada Escola Viva tem buscado manter animado esse fortalecimento. Essa força desabrochou com a rede de cuidados e trocas que a Associação Selvagem articulou – apoiando e também recebendo – ao possibilitar fazer pontes entre os mundos.

Parede da seção dedicada aos Avós.
Foto: EstudioemObra

Encerramento e plantio no Parque Bixiga

Depois de ficar dois meses no Instituto Tomie Ohtake, o fechamento da exposição Long Live the Living School exhibition também foi emocionante com duas ativações importantes. Recebemos em uma fala aberta, no próprio dia de encerramento da exposição, os educadores do FORMABIAP, que são de Iquito, do Peru, e que trouxeram uma profunda reflexão sobre a educação, sobre a ancestralidade, sobre o trabalho que eles fazem entre a arte e os processos de aprendizagem, nesse curso de formação de professores. 

Na manhã do dia do fechamento, foi muito marcante a gente pegar todas aquelas medicinas (Jagube, Chacrona, Guiné, Tabaco e Ka’a, a erva mate), frutinhas (Jaracatia, Embiruçu, Araucária, Araçá), plantas, que ficaram ali acompanhando os bichinhos de caixeta do Jardim Viva Viva, todas as plantas que permaneceram esses dois meses ativando o espaço da exposição, e levamos para o Parque Bixiga. Teci essa articulação junto com Clara do Teatro Oficina e, no amanhecer, fizemos um grande rezo, um canto, na beira do Rio Bixiga, que está acordando. É um rio que estava adormecido, mas que está acordando, e todo um parque está sendo construído, plantado e semeado em torno do rio. Foi muito lindo poder pegar aquelas plantas, medicinas, e levar para esse espaço. E hoje elas estão lá, junto ao Parque Bixiga, depois de terem ativado a exposição. O jardim foi muito importante para mim, pois ele foi idealizado para ser como uma sala de aula, mostrando que outras formas de educação podem ampliar nossa compreensão sobre o conhecimento e a convivência nos nossos próprios terreiros. Por isso convidei seres animais e seres plantas para compor a exposição em torno do jardim. No mundo de hoje, quem se reúne para conversar com as pacas, as cotias, as lontras, preguiças e jacarés? A ideia foi convidar o público a sentar e refletir sobre como uma educação parte de experiências de aprendizagem enraizadas na relação com a terra. Assim trouxemos os elementos da Nhe’ëry, da Mata Atlântica, e aquilo seguiu semeando em São Paulo. Seguiu chamando o rio, “acorda, Bixiga, acorda!”, para que aquelas águas possam correr livremente e tranquilamente naquele território. O plantio que aconteceu no dia do fechamento foi um legado, uma semente que a exposição Viva Viva deixou para a cidade de São Paulo.

Roda de conversa com educadores do FORMABIAP no encerramento da exposição.
Foto: Acervo Selvagem

Plantio de árvores junto ao Rio Bixiga.
Foto: Acervo Selvagem

A imersão na aldeia de Rio Silveira

Um dos momentos mais bonitos que a exposição desdobrou foi logo após a montagem e abertura, que foi seguida da vinda de todos os coordenadores das Escolas Vivas, artistas, anciãos, crianças aqui para a Escola Viva Guarani, na aldeia do Rio Silveira, onde pudemos, durante quatro dias, trocar muitos pensamentos, ouvir histórias, compartilhar rezos, fortalecer o nosso espírito através da cerimônia espiritual que nós fizemos. Tivemos esse momento muito sagrado, muito importante do intercâmbio, dessa vivência que aconteceu logo após a abertura, onde todos vieram aqui na minha comunidade. 

Ainda é difícil descrever isso em palavras, falar sobre, pois sigo sentindo a potência do que aquilo foi e que ainda pulsa em mim. Foi muito importante o que aconteceu, que deixou semeado dentro do coração de cada um, que pôde compartilhar, que pôde vir até aqui, tomar um banho de rio, comer um peixe assado, participar da cerimônia espiritual, compartilhar os seus rezos, para a gente entender também que a Escola Viva tem esse caminho da cura, da consciência. Tem esse caminho da ampliação das percepções, para a gente chegar a alcançar essa tranquilidade de caminhar junto com as memórias ativadas.

Nessa imersão, a presença de Dua Busë, que já é bem ancião, junto com Nete, para nós foi muito especial, porque foi a segunda vez que ele veio à aldeia de Rio Silveira. A primeira vez foi quando a gente estava ainda no processo de organização da exposição, quando aconteceu a residência Casa Escola Viva, no MAM Rio. Ao fim do processo da residência, todos vieram aqui para a aldeia para uma vivência e, agora, depois da abertura da exposição Viva Viva, eles vieram novamente. 

Nessa segunda estadia, Dua Busë fez o benzimento da Opy, da Casa de Reza, que foi para nós um momento muito significativo de proteção, de exaltação daquele espaço, como uma grande sala de aula, onde a gente se conecta com os espíritos e recebe orientações para caminhar de uma forma verdadeira. O conceito do Una Shubu Hiwea, que Dua Busë sempre traz, é o conceito base que estrutura todo o movimento das Escolas Vivas. Então, esse encontro aconteceu com a proteção dos Yuxibu, de todos Ija Kuery, de todos os Yamiyxop, os Waimahsã, todos estiveram aqui presentes com a gente nesses dias. É tudo isso que eu penso, sobre como esse momento da exposição foi potente na vida de cada um.

Artistas e coordenadores das cinco Escolas Vivas no território da Escola Viva Guarani.
Foto: Elisa Mendes.

As Escolas Vivas são um incentivo a caminhar firme e devagar, saber escutar e entender os sinais que os seres da natureza nos transmitem. As Escolas Vivas são vivas porque seguimos sonhando e buscando praticar esses conhecimentos que nos são passados no profundo da escuridão das noites e na escuta atenta aos avôzinhos e avózinhas. Nas Escolas Vivas não competimos, mas damos as mãos e seguimos juntos, remando a inspiradora canoinha da transformação, que nos motiva e mostra a direção. Nas Escolas Vivas buscamos também tecer caminhos para a cura da Terra e dos nossos corpos, pois memória que adormece machuca e dói lá dentro da gente. Nas Escolas Vivas não carregamos somente lápis e caderno nas mãos, mas também enxada, cachimbo, tintas de muitas cores e cantos que guardam histórias de tempos muito antigos. 

As Escolas Vivas são um portal de ensenhanças para que o ensino-aprendizagem possa ser alegre e suave, colorido e impulsionador de acordamentos de memórias e fortalecimento de nossos territórios e de nossas relações. E, por isso, a exposição Long Live the Living School exhibition foi um convite a parar, sentir e repensar as formas de aprender e contar as muitas histórias que os livros das escolas não vivas não contam. 

VIVA VIVA AS ESCOLAS VIVAS!

Comitiva da Escola Viva Guarani junto às suas obras na exposição
Foto: Acervo Selvagem