ENTRE O CÉU E A TERRA, AS ESCOLAS VIVAS SEGUEM SONHANDO
06 de outubro de 2026
“A Escola Viva é a nossa sabedoria, o nosso entendimento. É para manter o que estávamos perdendo. Assim que eu sonhei. Estou agradecendo com meu coração. A Escola Viva continua."
Dua Busë, pajé e coordenador da Escola Viva Huni Kuï
The Living Schools movement são um movimento de apoio ao fortalecimento e à transmissão de saberes tradicionais em 5 territórios indígenas: Guarani, Maxakali, Huni Kuin, Baniwa e Tukano-Desana-Tuyuka. Convidamos a conhecer e apoiar o movimento através da página em nosso site.
Nos últimos meses, as 5 Living Schools movement têm construído novos projetos e parcerias, fortalecendo relações que atravessam diferentes territórios e saberes.
Alguns dos destaques foram os intercâmbios na Guarani Living School, Arandu Porã, a sua participação na matéria “O Valor das Tradições Indígenas”, da TV Cultura, e em trocas internacionais no Rio de Janeiro, na China e na França.
Na Tukano-Desana-Tuyuka Living School, o Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, as novidades foram as novas visitas à Escola Viva e os encontros com territórios do Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, além da participação no lançamento oficial dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) das Terras Indígenas Uneiuxi e Paraná do Boa Boa e no Seminário Internacional Perspectiva dos Pássaros, parceria da Associação Selvagem com o Goethe Institut.
Na Escola Viva Huni Kuĩ, Shubu Hiwea, as aulas sobre medicinas e as atividades com artes e plantio continuam e, na Baniwa Living School, a Madzerokai, a liderança Maria Bidoca trouxe seu relato sobre o andamento da construção da Casa de Formação Madzerokai. Na Maxakali Living School, a Aldeia Escola Floresta, os meses foram marcados por muitos rituais de fortalecimento da comunidade e pelas celebrações dos 3 anos do projeto Hãmhi Terra Viva, que contou com uma grande festa em setembro.
GUARANI LIVING SCHOOL
Nos últimos meses, a Guarani Living School contou com visitas da Escola Invisível de Barra do Una, do município de São Sebastião, da Tekoa Biguaçu, de Santa Catarina, e até mesmo de uma jiboia, que foi levada para a “sala de aula floresta”, onde segue como guardiã da Escola Viva.
Em julho, o intercâmbio com a Tekoa Biguaçu contou com Roseli Takuá e sua família para dias de trocas sobre medicinas da floresta, e o período também aproximou a Escola Viva Guarani da nova Tekoa Ka’aguy Mirim, em Barra do Una, através de uma visita para apoiar as famílias que estão no processo de demarcação. No mesmo mês, a Escola Viva Guarani participou da gravação da matéria “O Valor das Tradições Indígenas”, da TV Cultura, com Cristine Takuá, coordenadora do movimento das Escolas Vivas, e contou com um mutirão com as crianças, a reforma da casa de reza e as aulas de cestaria em taquara com Clementina Ara, buscando animar os jovens a acompanhar os ensinamentos, sentimentos e visões da filosofia Guarani Mbya.
Em agosto, aconteceu o encontro da Escola Viva Guarani com crianças da Escola Municipal Nhembo’e a Porã, da comunidade da Terra Indígena Ribeirão Silveira. As crianças vieram ao território dialogar sobre o Nhandereko, o modo de ser Guarani, e sobre as plantas medicinais.
“Foram momentos muito bonitos de trocas e aprendizados. Os professores não indígenas que atuam na Escola Municipal também estiveram presentes e puderam aprender e tirar dúvidas, acessar esses antigos conhecimentos”, contou Cristine Takuá.
Atividades com as crianças da Escola Municipal Nhembo’e a Porã.
Entre agosto e setembro, a Escola Viva também participou de trocas internacionais, como a fala do integrante da Escola Viva Guarani Léo Wera no Prêmio de Tradução da Embaixada da França no Brasil, a participação do coordenador da Escola Viva Guarani Carlos Papá na conversa “Waters of Nhe’ẽry” [Águas da Nhe’ẽry], e o intercâmbio com educadores do FORMABIAP, de Iquitos, no Peru. As trocas com os educadores também integraram a programação de encerramento da 2ª edição da exposição Long Live the Living School exhibition e incluiu atividades na cidade de São Paulo, como o plantio de mudas no Parque Bixiga e a roda Nosotras: a conversation on intercultural education.
No último mês, Carlos Papá também esteve com Cristine Takuá e seus filhos, Djeguaká e Kauê, no Sopro dos Dragões, na França, uma continuidade do trabalho de pesquisa da cátedra Earth's Habitability and Just Transitions, da Sorbonne, com a coordenação da antropóloga e pensadora Nastassja Martin. Entre os dias 9 e 18 de setembro, Papá e Cristine realizaram falas e participaram de uma residência internacional de pesquisa e criação junto a seus filhos, Anna Dantes, diretora da Associação Selvagem, e convidados do mundo todo.
Também segue em cartaz até dezembro a exposição Ayvu Porã – As Belas Palavras, no Museu das Culturas Indígenas, em São Paulo, que reúne obras de jovens Guarani da Escola Viva Guarani, da Terra Indígena do Jaraguá e do Vale da Ribeira.
TUKANO-DESANA-TUYUKA LIVING SCHOOL
Em Manaus, a Tukano-Desana-Tuyuka Living School, no Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, recebeu estudantes de pós-graduação da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), que conheceram a história do Bahserikowi e conversaram sobre a produção e a circulação dos conhecimentos indígenas no contexto urbano. Em julho, os coordenadores da Escola Viva Tukano-Desana-Tuyuka, Ivan Tukano e Carla Wisu, também foram convidados para participar do lançamento oficial dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) das Terras Indígenas Uneiuxi e Paraná do Boa Boa, contribuindo nas discussões sobre saúde e educação.
A circulação entre Manaus e outros territórios também permanece fundamental para a continuidade dos conhecimentos vividos no Bahserikowi. Em agosto, Carla Wisu esteve em São Gabriel da Cachoeira, onde reencontrou seu pai, que é kumu (especialista em conhecimentos tradicionais como o bahsese), e sua mãe, grande especialista nos conhecimentos das mulheres e no uso das plantas.
“Estar junto deles possibilita vivenciar novamente práticas, escutar ensinamentos, observar os modos de fazer e continuar aprendendo conhecimentos que são transmitidos pela convivência e pela oralidade”, disse Carla.
Judite Tukano, mãe de Carla Wisu, ensinando sobre plantas medicinais e cuidados com o corpo.
Em São Gabriel da Cachoeira, Carla também participou do FESTRIBAL, grande manifestação cultural do município, que reúne povos da região do Alto Rio Negro para apresentarem suas danças, expressões culturais e modos próprios de celebrar e fortalecer suas identidades.
“Participar desse momento significa também viver a diversidade dos povos do Alto Rio Negro e reconhecer que a cultura, a memória e os conhecimentos circulam entre as pessoas e os territórios. Assim, viajar para São Gabriel da Cachoeira é também uma maneira de retornar às fontes dos conhecimentos que orientam o trabalho desenvolvido em Manaus”, contou.
Em agosto, a Escola Viva participou junto à equipe da Associação Selvagem do Seminário Internacional Perspectiva dos Pássaros, realizado no Centro de Medicina Indígena Bahserikowi e em diferentes espaços de Manaus, como no Museu da Amazônia (MUSA) e no Instituto Juruá. João Paulo Tukano, Ivan Tukano e Carla Wisu, coordenadores da Escola Viva, participaram como palestrantes, apresentando formas de conhecimento dos povos do Alto Rio Negro e as experiências com o Bahserikowi, ao lado de Veronica Pinheiro e Tania Grillo, da Associação Selvagem. O seminário integra um projeto construído em parceria entre a Associação Selvagem e o Goethe Institut que prevê a elaboração de um kit pedagógico a ser distribuído em escolas e espaços culturais.
HUNI KUÏ LIVING SCHOOL
The Escola Viva Huni Kuĩ segue com suas atividades de educação, de construção da soberania alimentar e de práticas manuais como o artesanato, com as mulheres à frente da produção de colares e pulseiras de miçanga. Durante o mês de julho, período amazônico da “colocação dos roçados”, a comunidade foi animada a produzir obras de arte com tintas, pincéis e telas levados ao território pelo Instituto Flor da Floresta. No mês de agosto, essas atividades continuaram, assim como os plantios e as aulas sobre as medicinas sagradas com o pajé e coordenador da Escola Viva Huni Kuĩ, Dua Buse. Para os próximos meses, estão previstas mais oficinas com a comunidade e a continuidade da transmissão de saberes pelo pajé.
BANIWA LIVING SCHOOL
Na Baniwa Living School, a Madzerokai, o sonho da Casa de Formação está cada vez mais próximo. A construção da nova sede da Escola Viva conta com a mobilização de diferentes gerações para criar este centro de encontros e troca de saberes dos povos Baniwa e Koripako. Maria Bidoca, mestra e liderança da Escola Viva Baniwa, compartilhou um pouco sobre o dia a dia desse trabalho coletivo, que sempre é acompanhado por histórias e muito xibé:
“No dia 20 de julho de 2026, sete horas da manhã, eu e meu esposo Miguel saímos da comunidade Assunção do Içana para Escola Viva, para dar continuidade da atividade de escavação de terras. Passamos a manhã inteira cavando até meio dia. De vez em quando parávamos para descansar e tomávamos o xibé com pimenta. Nesses intervalos meu esposo ficava contando sobre sua história de infância ocorrido no igarapé Uwíwa. Muitos eram engraçados e outros eram tristes. Depois, continuávamos cavando até determinado horário. De lá voltávamos para casa. Nesse dia não registrei nada, o meu celular estava descarregado.
No dia seguinte, fomos novamente para a Escola Viva. Levamos um casal de netos (Emanuelly e Matheus) para nos ajudar cavando e jogando terra. Foi muito divertido, os dois brincaram e trabalharam até onze meia. Depois do trabalho, descemos no porto da Escola Viva, e eles tomaram um belo banho feliz da vida! De lá retornamos para a comunidade.
Dia 28 de julho pela manhã, eu, meu esposo Miguel, Sr Hermes e Robertinho nos deslocamos para a Escola Viva para continuarmos o trabalho. Chegando lá começamos a cavar, jogar terra no pé das plantas e assim sucessivamente até meio dia. No decorrer do trabalho fazíamos pequenos intervalos para descansar, tomar xibé e eles contavam piadas, acontecimentos da festa e outras. E eu sempre rindo deles das coisas engraçadas. Depois continuávamos o trabalho cavando até certa hora e voltávamos para casa.
No dia seguinte, dia 29, continuamos o trabalho na Escola Viva fazendo o mesmo processo cavando, plainando terra. Esse dia só nós três estávamos presentes: eu, Hermes e Robertinho. Meu esposo Miguel viajou para São Gabriel. Ficamos só nós três fazendo atividade de escavação, nove e meia descansamos um pouco para tomarmos o xibé com peixinho frito e arroz. Depois demos continuidade de trabalho até às onze e meia. Muito cansados, retornamos para nossas casas.
No dia 30, continuamos o mesmo trabalho fazendo atividade de escavação. Os dias foram muito cansativos, mas conseguimos um bom resultado. Falta pouquíssimo para finalizar.”
Registros do trabalho para a finalização da Casa de Formação Madzerokai
MAXAKALI LIVING SCHOOL
A Escola Viva Maxakali, a Aldeia Escola Floresta, “segue se fortalecendo para muito além de 4 paredes”, disse Sueli Maxakali, coordenadora da Escola Viva. O mês de agosto contou com uma concentração de rituais ao longo de várias noites e dias, momento de transmissão de saberes entre os pajés e os jovens, em que todos se juntam para a contação de histórias. Também foram distribuídas tintas e tecidos na comunidade para dar continuidade às pinturas tradicionais Maxakali.
No final de agosto, foi realizada uma sessão de cinema na Escola Viva para celebrar a trajetória do Projeto Hãmhi Terra Viva, construído junto aos povos Tikmű’ün/Maxakali desde 2023. A exibição faz parte da comemoração dos 3 anos da Aldeia Escola Floresta, que contou com uma grande festa no território em setembro.
Exibição de filme na Escola Viva.
Celebração dos 3 anos do movimento de retomada na Aldeia Escola Floresta.
Fotos: Acervo Selvagem / Escolas Vivas
Foto da exposição “Ayvu Porã”: Acervo MCI – Gabie Pereira



















