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Alcance e desdobramentos

“POVO MULHER JIBOIA” CRUZA O ATLÂNTICO

By 6 de outubro de 2026outubro 8th, 2026No Comments
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“POVO MULHER JIBOIA” CRUZA O ATLÂNTICO

06 de outubro de 2026

 

O Caderno Selvagem Yube Nawa Aibu – Povo Mulher Jiboia, de Rita Huni Kuin e Emilia Sanabria, atravessou o Atlântico no último mês para participar do Fórum Mundial da Ayahuasca de 2026, realizado entre os dias 11 e 13 de setembro, em Girona, Espanha. Apresentado pelas autoras junto a Yaka Huni Kuĩ, irmã de Rita e autora dos desenhos que compõem a publicação, o caderno foi distribuído gratuitamente durante o encontro e reverberou em diferentes momentos do Fórum, mobilizando perguntas, conversas e discussões sobre gênero e kene, o papel das mulheres na oralidade e na transmissão da cultura Huni Kuĩ e as relações entre ayahuasca, arte e território. A participação de Rita no Fórum também se desdobrou em uma conversa no podcast Eutopías, de Marta Espurna, em que ela fala mais sobre o processo de criação do Caderno Selvagem, seus sentidos e a liderança de mulheres da floresta.

Apresentação do Caderno Yube Nawa Aibu – Povo Mulher Jiboia no Fórum Mundial da Ayahuasca. 

Rita Huni Kuin, Nedina Yawanawa e Emilia Sanabria com o Caderno Povo Mulher Jiboia.

A circulação de Yube Nawa Aibu – Povo Mulher Jiboia também se estendeu para a Maloca das Artes, espaço aberto pela artista Daiara Tukano, uma das vozes do Fórum, para seis artistas convidados apresentarem seus trabalhos. Rita e Yaka Huni Kuĩ participaram também deste espaço com a obra “Surgimento da ayahuasca, através de Yubé inu e Yubé Shanu”, onde aconteceu uma grande discussão sobre muitos dos temas que atravessam o caderno. A chegada da publicação à Espanha também foi resultado de um cuidadoso processo de tradução pelo Grupo de Traduções Selvagem, contando com traduções para inglês, francês e espanhol.

Surgimento da ayahuasca, através de Yubé Inu e Yubé Shanu na Maloca das Artes.

O Fórum Mundial da Ayahuasca é um encontro que reúne vozes ancestrais, comunidades, pesquisadores, praticantes, artistas e aliados de diferentes partes do mundo para aprofundar o diálogo sobre as medicinas sagradas. Dentre os participantes, também estiveram presentes o pajé Moisés Piyãko, autor do Caderno Selvagem Pawa: o criador Ashaninka, e a liderança Francisco Piyãko, que terão novas publicações Selvagem no mês de outubro no âmbito do Ciclo das Águas. O Fórum contou ainda com o antropólogo Jeremy Narby, colaborador da Associação Selvagem desde 2018 e autor dos livros A serpente cósmica: o DNA e a origem do saber e Plantas mestras: tabaco e ayahuasca, ambos da família de livros Selvagem publicados pela Dantes Editora; além dos Cadernos Selvagem O primeiro ciclo Selvagem, Invisibilidade e onipresença: o caso da COVID-19, Plantas como cérebros e Brasil, guardião do futuro.

Yube Nawa Aibu: Os mundos que as vozes das mulheres Huni Kuin tecem

Durante o Fórum Mundial de Ayahuasca, Yaka Sales Huni Kuĩ, Rita Sales Huni Kuĩ e Emilia Sanabria participaram do painel “Memory, Arts and Oral Traditions” com a fala “Yube Nawa Aibu: Os mundos que as vozes das mulheres Huni Kuĩ tecem”, em que apresentaram o Caderno Selvagem “Povo Mulher Jiboia“, que compartilha uma série de entrevistas realizadas por Rita Huni Kuĩ com mulheres Huni Kuĩ em diferentes aldeias ao longo do rio Jordão. O projeto, desenvolvido em conjunto com Emilia Sanabria, faz parte da pesquisa Encontros de Cura/Healing Encounters. O caderno é fruto da parceria de longa data de Rita e Emilia, sobre a qual Emilia conta no texto de abertura de Yube Nawa Aibu. O caderno foi publicado pela Associação Selvagem em 2025. “Quando sonhamos em publicar a pesquisa, pensamos na Selvagem como primeira opção”, disse Emilia.

Rita Huni Kuĩ, Emilia Sanabria e Yaka Huni Kuĩ.

Emilia conheceu Rita em 2018, quando visitou a aldeia Chico Curumin, no Acre. Em 2019, quando Rita e seu pai, a liderança Ibã Sales Huni Kuin, vieram para a primeira edição do Fórum na Espanha, Emilia pôde reencontrá-la. Agora, em 2026, Rita, Emilia e Yaka estiveram juntas pela primeira vez para apresentar como a pesquisa foi feita e a sua publicação na forma de Caderno Selvagem, além de terem participado de uma mesa sobre mulheres e ayahuasca. De acordo com Emilia, a apresentação contou com grande público e muitas trocas entre os participantes, inclusive, muitas delas sobre o Caderno, que teve mais de 50 cópias impressas em inglês e em português, distribuídas durante a mesa. Rita voltou ao Brasil com inúmeras dessas cópias em português para sua família e outras aldeias, enquanto as outras tiragens em inglês circularam pelo Fórum.

Cadernos Povo Mulher Jiboia impressos.

O processo de tradução do Caderno pelo Grupo de Traduções Selvagem aconteceu para 3 línguas simultaneamente, com a verba mobilizada por Emilia através de sua cátedra. Foram 3 trios do Grupo de Traduções Selvagem trabalhando com o material, que contou com uma revisão cuidadosa de Emilia. Alice Faria, coordenadora do Grupo de Traduções, contou que um dos atravessamentos das traduções foi a escolha por manter muitas das palavras em português, inserindo várias notas de rodapé para deixar transparecer as escolhas dos tradutores. Como a tradução foi um processo paralelo nas 3 línguas, os trios tradutórios se reuniram algumas vezes durante o trabalho para conversar sobre as questões que surgiam e como as soluções para cada uma das línguas acabava influenciando o processo nas demais.

Um encontro de diferentes vozes

Para a pesquisadora Emilia Sanabria, que possui uma longa trajetória em eventos como o Fórum Mundial da Ayahuasca, a presença indígena nesta edição de 2026 foi significativa. Foram mais de 200 participantes indígenas de diferentes partes do mundo, como da Colômbia, do Brasil e do Peru, reunidos no encontro, trazendo conhecimentos sobre bioculturas, as relações com as plantas sagradas e a defesa das mesmas.

Artistas na Maloca das Artes.

“Esta edição foi um marco porque muitos dos eventos sobre ayahuasca fora do Brasil, ou às vezes até mesmo dentro do Brasil, vêm sendo articulados e pautados a partir de uma perspectiva bem psiquiatrizada, da saúde mental, e menos sobre questão do território, de direito, de outras ontologias”, disse Emilia. Para ela, a participação indígena em encontros internacionais como o Fórum Mundial da Ayahuasca reverbera para além do próprio evento: amplia a visibilidade das denúncias e das questões enfrentadas pelos povos indígenas e fortalece esforços de aliança internacional.

Sobre as participantes:

EMILIA GABRIELLA SANABRIA é uma antropóloga franco-colombiana formada no Reino Unido e atualmente baseada no Centre national de la Recherche Scientifique (CNRS) em Paris, onde é Diretora de Pesquisa. Seu primeiro livro, “Bodies: Sex hormones and menstrual suppression” [Corpos: hormônios sexuais e supressão menstrual], publicado em 2016, propôs uma etnografia da menstruação e do uso de contraceptivos hormonais em Salvador da Bahia. “Plastic Bodies” [Corpos plásticos] explorou os mecanismos estratificados de controle aos quais os corpos femininos cíclicos estão sujeitos sob regimes biopolíticos de medicalização e propôs a leitura do corpo como eminentemente plástico. Atualmente, Emilia está experimentando métodos de design de pesquisa especulativa em uma série de coletivos de pesquisa participativa empenhados em promover a justiça curativa, o cuidado radical e futuros alternativos 

RITA HUNI KUĨ é uma artista, ativista e mãe, cujo trabalho apoia o empoderamento das mulheres. Por meio da arte, da pintura e do poder das palavras, ela dá vida ao rico patrimônio do povo Huni Kuĩ e compartilha sua espiritualidade com o mundo. Por meio de palestras, ela quebra estereótipos teimosos sobre os povos indígenas. Seu trabalho é inspirado na mitologia e nas canções do seu povo, que ela transforma em criações artísticas com o objetivo de preservar e compartilhar a riqueza cultural dos Huni Kuĩ. Rita é cofundadora do coletivo de artistas Kayatibu que reúne jovens artistas indígenas residentes na cidade de Jordão para aprofundar o estudo da cultura como forma de empoderamento e memória viva. Ela também é membro do coletivo Mahku, fundado por seu pai, Ibã Sales Huni Kuĩ. Seu trabalho tem sido apresentado em exposições no Brasil e no exterior.

YAKA HUNI KUĨ nasceu na Aldeia Chico Curumim, Terra Indígena Kaxinawa do Rio Jordão, no estado do Acre. É artista visual e aprendiz da floresta. Sua arte traz a cosmovisão, os cantos tradicionais e as mirações com o Nixi Pae (ayahuasca), que são conhecimentos do povo Huni Kuĩ. É co-fundadora do Centro de Cultura Kayatibu e já participou com obras das exposições “Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM); “Les Vivans” na Fundação Cartier, França; e da 35a Bienal de São Paulo “Coreografias do Impossível”.