UM SÁBADO SOB O SOL DE NHE’ËRY:
caminhada de aprendizagens Selvagem com Projeto Maravilha
22 de maio de 2026
No sábado passado, dia 16 de maio, aconteceu o 2º Encontro Formativo para Professores, uma parceria entre o Laboratório de Aprendizagens Selvagem (LAS) and Projeto Maravilha. A atividade reuniu 48 participantes, entre professores, pessoas educadoras e artistas, em uma visita pelo Bosque do Pão de Açúcar. Percorrendo as obras de Anna Bella Geiger e de Carlos Vergara, além das árvores, rochas e paisagens da Baía de Guanabara, o encontro propôs uma caminhada de observação, conversa e escuta em diálogo com o caderno Selvagem “Visions of Guanabara” e com materiais que participam do Cycle of Waters.
Conduzido por Veronica Pinheiro, coordenadora do LAS, Beatriz Jabor, curadora pedagógica do Projeto Maravilha, Tania Grillo, da equipe Selvagem, e Lana Fonseca, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e parceira do LAS, o encontro teve como primeira parada a instalação “A Idade da Pedra”, de Carlos Vergara. Através de uma apresentação da obra por Veronica e Beatriz, a professora Lana Fonseca trouxe leituras a partir das ciências da natureza e da agroecologia, articulando conteúdos da Selvagem com a formação geológica da paisagem carioca.
A conversa abordou a formação rochosa da gnaisse facoidal, presente na Baía da Guanabara e em grande parte da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, assim como os mitos de origem e as narrativas ancestrais sobre a região presentes em “Antes o Mundo Não Existia” — livro de Umusi Pārõkumu e Tõrāmữ Kểhíri publicado pela Dantes Editora, e que participa do ciclo de leitura Selvagem de mesmo nome que deu origem aos cadernos “Rio de Janeiro, o Lago do Leite”, de Jaime Diakara, “Complementaridade e transformação Yepamahsã”, de João Paulo Lima Barreto, “Antes dos Këhíripõrã, os desenhos dos sonhos não existiam”, de Denilson Baniwa, e “O mundo está sendo parido o tempo inteiro”, de Ailton Krenak, Álvaro Tukano, Daiara Tukano, Francy Fontes e Idjahure Kadiwel.
Diante de reflexões sobre os cerca de 600 milhões de anos da paisagem geológica da região, a conversa atravessou também o Antropoceno, discutindo como a ação humana tem deixado marcas profundas no planeta. Ainda na obra de Vergara, surgiram diálogos sobre Yebá Buró, conhecida como a “Avó do Mundo” pelo povo Desana, sobre o Lago do Leite, que é como os povos do Alto Rio Negro chamam a Baía de Guanabara, e sua relação com a viagem cósmica da cobra-canoa, também conhecida como canoa de transformação ou canoa de pedra, temas que também compõem o caderno Selvagem “Visions of Guanabara”. Na instalação, a travessia deste ser ancestral inspirou o artista, que incorporou o movimento sinuoso da serpente como corpo que segue atravessando o território.
Veronica Pinheiro com a gnaisse facoidal
Cadernos Selvagem e a gnaisse facoidal circularam entre os participantes
A caminhada também passou pela instalação “Notas Musicais”, refletindo sobre recursos artísticos e poéticos como o canto, a música e o movimento enquanto tecnologias de retenção de informações e transmissão de memória por povos originários. Os participantes foram convidados a pensar nos cantos que atravessam seus próprios territórios e práticas pedagógicas enquanto se deslocavam para a obra “Typus Terra Incognita”, de Anna Bella Geiger, uma escultura comissionada para o Projeto Maravilha em 2026.
Com falas intercaladas, os participantes refletiram coletivamente sobre cartografias, memórias e território, assuntos presentes na obra de Anna Bella Geiger – uma grande gaveta aberta e vazada do mundo, composta por mapas, fotografias e rios amazônicos – e no mapa Selvagem da Baía de Guanabara, que integra o caderno “Visões da Guanabara”. Apresentado por Tania Grillo, que participou da pesquisa e da produção do material e conduziu diversas reflexões através dele, o mapa e o caderno também foram pontos de partida para falar sobre deslocamentos, permanências e múltiplas presenças, entendendo o mapa não como uma narrativa cronológica, mas circular e espiralar. No mapa, encantados e aldeias indígenas anteriores a 1500 convivem com aeroportos e submarinos, mostrando relações contínuas entre diferentes formas de vida, temporalidades e forças políticas.
Veronica Pinheiro e Tania Grillo com o caderno “Visões da Guanabara”
O grupo discutiu também sobre as violências ambientais e os impactos de atividades predatórias sofridas pela Baía de Guanabara que caminham junto de processos históricos que produziram apagamentos das presenças indígenas na região. O que sopraram os anjos representados na obra de Anna Bella? Que histórias mitológicas, econômicas, interculturais e políticas continuam atravessando a Baía de Guanabara? Com essas perguntas, a atividade retornava constantemente à ideia da Guanabara como origem e possibilidade de recomeço.
Entre reflexões sobre o Antropoceno e as notícias sobre pontos de não retorno climáticos, surgiu também a necessidade de pensar caminhos de esperança. O entendimento coletivo foi de que ainda há muito a se conversar, mas principalmente muito a se fazer diante dos saberes que acessamos e das marcas que queremos deixar no mundo por meio de práticas pedagógicas que atravessam a sala de aula, os territórios e as formas de habitar o nosso planeta.
Ao longo de uma manhã de sábado sob o sol de Nhe’ëry, que é como o povo Guarani nomeia o território que costuma ser chamado de Mata Atlântica, o encontro construiu um espaço coletivo de escuta, aprendizado e responsabilidade compartilhada diante da vida, das águas e das futuras gerações, abrindo caminhos para uma travessia que continua para além da caminhada: nas escolas, nas práticas pedagógicas e nas formas de imaginar outros futuros possíveis para a Baía de Guanabara.
Fotos: Fabio Souza

