TRADUÇÕES SELVAGEM NO PRÊMIO DA EMBAIXADA DA FRANÇA NO BRASIL
02 de setembro de 2026
“A diplomacia se constrói a partir do momento que a gente conhece e entende a língua do outro”, disse Leo Werá, tradutor da frente Guarani da Escola Viva Guarani, durante a mesa “Traduções Selvagem: Oralidade, mundos em contato e a experiência de uma malha de traduções” sobre as experiências do Grupo de Traduções Selvagem.
O evento integrou a programação da 5ª edição do Prêmio de Tradução da Embaixada da França no Brasil, em parceria com o Goethe-Institut, na última sexta-feira, 28 de agosto, na Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. A mesa Selvagem reuniu Alice Faria, coordenadora do Grupo de Traduções Selvagem, e os integrantes Leo Werá, tradutor para Guarani, e Antoine de Mena, tradutor de francês, para uma conversa sobre a tradução como um exercício de escuta, escolha e passagem entre mundos.
Assista à gravação na íntegra da mesa “Traduções Selvagem: Oralidade, mundos em contato e a experiência de uma malha de traduções”.
O Grupo de Traduções Selvagem é uma rede colaborativa que nasceu do desejo de ampliar a circulação das conversas e dos materiais produzidos pela Selvagem logo nos primeiros encontros em 2018 e 2019. Hoje, são 140 tradutores trabalhando de forma integrada e 249 traduções publicadas no site, em sua maioria de Cadernos Selvagem, além de mais de 150 legendas do acervo audiovisual da Selvagem; materiais gratuitos que reúnem falas e reflexões de pensadores, artistas e pesquisadores indígenas e não indígenas. Os materiais Selvagem envolvem 14 línguas, sendo 6 delas línguas indígenas. O Grupo Traduções participa de uma constelação ligada aos Ciclos de Estudos Selvagem, ao Laboratório de Aprendizagens Selvagem (LAS) e ao movimento das Escolas Vivas, e, assim como eles, é centrado na oralidade, perspectiva que norteou a participação da mesa Selvagem no Prêmio de Tradução.
A abertura do evento contou com uma fala de Marco Lucchesi, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, destacando a importância das traduções para a construção de uma cultura de paz e comprometida com a alteridade, além de falas de Caroline Vabret, do Consulado da França no Rio de Janeiro, Almerinda Stenzel, diretora da Biblioteca do Goethe-Institut no Rio e de Madeleine Deschamps, produtora da Associação Selvagem.
“Ao mesmo tempo que se tornou uma novidade para mim, se tornou uma possibilidade de trazer diálogos entre mundos”
Leo Werá, tradutor da frente Guarani
A mesa Selvagem começou com a apresentação do Grupo de Traduções pela coordenadora Alice Faria, contando como esta rede é composta por pessoas envolvidas com a trajetória da Associação Selvagem e com as discussões de onde brotam os materiais publicados. Através de uma dinâmica compartilhada, as traduções acontecem de forma coletiva e são assumidas enquanto gestos políticos que buscam respeitar as marcas linguísticas que acompanham cada pessoa, sendo a publicação de vídeos junto aos cadernos Selvagem parte desse esforço de respeito e fidelidade à oralidade.
Em seguida, a mesa contou com a fala de Leo Werá, da frente Guarani, que apresentou a tradução como uma possibilidade de voltar a escutar a própria língua. Leo é aprendiz e integrante da Escola Viva Guarani, graduando em Licenciatura em Educação Intercultural pela UNIFESP, curso voltado para o fortalecimento das línguas indígenas, e fez a tradução para o Guarani do livro “Tekoypy rã – A origem de nós” (Dantes Editora, 2026), de Carlos Papá, coordenador da Escola Viva Guarani. Este processo foi descrito por Leo enquanto oportunidade de um “trabalho de campo com os mais velhos, que são os doutores, os conhecedores da língua”, colocando a tradução como momento de encontro e de reflexões coletivas que abriu novas perguntas e aprendizagens com a comunidade da Escola Viva Guarani.
Para ele, os desafios postos pela busca de confluências, ao invés de equivalências, entre vocabulários e formas de transmissão de conhecimento são capazes de ampliar a circulação das línguas indígenas não só fora dos territórios, mas também dentro das próprias comunidades. Diante da colonização e de toda a violência que fez diversas línguas originárias adormecerem, a tradução foi colocada por ele enquanto possibilidade dos povos indígenas ultrapassarem as fronteiras do silenciamento e criarem seus próprios dispositivos para mantê-las vivas e orgânicas, porque “as línguas indígenas são felizes, são circulares, não têm final”, como o próprio título do livro “Tekoypy rã”, que traz a ideia Guarani de um futuro inacabado, em constante construção e transformação.
A fala de Leo Werá ecoou ao longo de todo o evento e foi mencionada em diferentes momentos como referência para pensar como a tradução atua de diferentes maneiras enquanto ponte entre culturas e fortalecedora de relações.
As dinâmicas de tradução em torno da oralidade também foram destacadas por Antoine de Mena, tradutor para o francês do Grupo de Traduções Selvagem, que pontuou como é preciso prestar atenção ao que escapa ao texto, como as pausas, as frases inacabadas, os ritmos e outras marcas da fala. É nesse ponto que o trabalho com os vídeos se junta aos Cadernos Selvagem como forma de acompanhar o pensamento se desdobrando no corpo e preservar elementos da fala que poderiam desaparecer na passagem para a escrita.
A tradução como gesto e inscrição no corpo também esteve presente na mesa seguinte, “Ressonâncias: Tradução e Performance – Leituras Comentadas”, com Yure Romão, ator e diretor da companhia de teatro Gondwana, Larissa Gonçalves de Miranda, Bruna Lima e Ana Luz, todas integrantes do Laboratório de Poéticas contemporâneas de língua francesa da UFRJ (LAPOFRAN), sobre a experiência de tradução da peça “Ressonâncias” do francês para o português e as sensibilidades trazidas pelas marcas da oralidade.
A última mesa foi uma conversa com Flavia Lago, Marcelo Jacques de Moraes e Laura Campos, membros do júri do Prêmio de Tradução da Embaixada da França, com mediação de Marilou Benzoni. Ao final, aconteceu a cerimônia de entrega do Prêmio de Tradução à Fernanda Murad Machado, reconhecida pela tradução de Njeddo Dewal, mãe da calamidade, de Amadou Hampâté Bâ, publicada pela Editora Hedra. O livro traz uma narrativa tradicional do povo Fula, que habita diversos países na região da África Ocidental, transmitida oralmente de geração em geração, e publicada nesta edição em um trabalho cuidadoso de escuta e tradução por Hampâté Bâ. A premiação desse trabalho foi também um reconhecimento da oralidade e das formas tradicionais de transmissão de conhecimento, ecoando a fala de Léo Wera e o trabalho da Selvagem com saberes e narrativas nascidas na oralidade.
Ao longo de uma manhã de reflexões sobre a tradução como exercício de ética, a programação do Prêmio de Tradução da Embaixada da França proporcionou um encontro importante para o reconhecimento do papel da oralidade junto a uma escrita que escuta a vivacidade das línguas.
O convite para a Associação Selvagem participar do evento se insere em uma trajetória de parcerias com a Embaixada da França e o Instituto Goethe, colaboradores de diferentes iniciativas, como a residência Casa Escola Viva e o projeto “Perspectiva dos pássaros”, voltado ao combate à desinformação sobre as florestas e suas populações.
Agradecemos pela parceria!
Fotos: Embaixada da França no Brasil

