SELVAGEM NO PRÊMIO “ALDEAR A EDUCAÇÃO BÁSICA”:
um mutirão de amor
05 de maio de 2026
Nos dias 28 e 29 de abril, o Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena, o Instituto Socioambiental e o Instituto Alana premiaram as 11 iniciativas pedagógicas selecionadas pelo Edital Aldear a Educação Básica, durante o evento que levou esse mesmo nome, sediado no SESC 24 de maio, em São Paulo. As coordenadoras do Selvagem Ways of Knowing Group, Cristine Takuá (também coordenadora das Living Schools) e Veronica Pinheiro (também coordenadora do Laboratório de Aprendizagens Selvagem – LAS), integraram o comitê de avaliação do prêmio e foram convidadas para conduzir atividades no segundo dia do encontro. Reunindo professores de todo o Brasil, o evento foi um espaço para fortalecer vínculos, práticas pedagógicas enraizadas nos territórios e a força dos saberes indígenas nas salas de aula.
Cristine Takuá durante sua fala no evento.
Veronica Pinheiro ministrando a oficina “Escolas antirracistas: modos de fazer”.
O primeiro dia foi dedicado a celebrar a criação do edital e o envolvimento dos 11 professores premiados que submeteram seus projetos e foram convidados a partilhar mais sobre suas experiências. Em seguida, aconteceu a aula-espetáculo do professor Gersem Baniwa, uma referência no campo da educação indígena com mais de 40 anos de experiência. Trazendo uma discussão anterior à lei 11.645/2008, determina a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas de ensino fundamental e médio, públicas e privadas, no Brasil, o professor fez uma fala sobre os princípios formativos que diferenciam a educação indígena da educação escolar indígena, o professor destacou a importância da interdisciplinaridade e do diálogo com o território na forma de transmissão de saberes, onde os tempos e os modos de fazer indígenas contrastam com as expectativas da educação formal.
Aula-espetáculo do professor Gersem Baniwa, com mediação de Mariana Soares.
No dia 29, Cristine Takuá, coordenadora das Escolas Vivas, participou de uma mesa com o educador quilombola Luiz Ketu, do Quilombo São Pedro, apresentando experiências pedagógicas territorializadas, onde a vivência também é método e a comunidade atravessa o currículo. Na ocasião, Cristine Takuá apresentou as Escolas Vivas, onde trabalha com a coordenação geral, mas também trouxe o seu percurso junto ao movimento de organização das licenciaturas indígenas. Veronica Pinheiro, coordenadora do Laboratório de Aprendizagens Selvagem (LAS), foi convidada para encerrar o evento com a oficina “Escolas antirracistas: modos de fazer”, que teve a participação especial de Odé, da organização Arte de Piar, e propôs uma experiência pedagógica centrada no corpo, na presença e na oralidade.
Cristine Takuá, Luiz Ketu e Mariana Soares
Veronica Pinheiro durante a oficina “Escolas antirracistas: modos de fazer”
Na oficina, professores e professoras foram convidados a não anotar nada, mas experimentar outras formas de construir e guardar a memória, através de cantos, rimas, movimentos e práticas coletivas. A atividade partiu da provocação de pensar o espaço educativo como um lugar de presença viva em contraste com a lógica de ensino que muitas vezes distancia corpo e atenção. Inspirada em modos de aprendizagem de territórios indígenas, quilombolas e de terreiro, a oficina buscou ativar o corpo como lugar de inscrição de mundos e experiências.
Práticas de escrita expandida e desenho também foram realizadas, resultando em uma cartografia de palavras e gestos do encontro que, somados ao canto e a música trazidos por Veronica e Odé, abordaram o tema da diversidade por meio dos sambas brasileiros, evidenciando os riscos de generalização ao tratar diferentes manifestações culturais como homogêneas, mostrando como cada uma tem suas particularidades, até mesmo dentro de um mesmo gênero.
Inspirada pela música “Mutirão de Amor”, de Jorge Aragão, Veronica sintetizou a experiência como a construção de uma comunidade temporária formada por educadores comprometidos com novos rumos para a educação. “O que eu vi em comum nesses 11 professores foi um mutirão de pessoas que amam pessoas e que constroem, mais do que discutem, futuros possíveis com suas práticas na sala de aula”, contou. “Mais do que dialogar com a lei, são pessoas movidas por uma força de existência maior, um mutirão de amor”.
Veronica Pinheiro, Cristine Takuá, Carlos Papá e Martinha Guajajara
O evento Aldear a Educação Básica também foi marcado pela condução da mestre de cerimônia Chirley Pankará, da rede ANMIGA (Articulação Nacional de Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade) que trouxe leveza e alegria a um campo ainda atravessado por muitos desafios, e pelo pocket show da artista e produtora musical Brisa Flow, com canções como “Fique Viva” que tratam de se manter vivo em suas práticas, mesmo diante das armadilhas de um sistema colonial. As palavras de Auritha Tabajara também estiveram presentes através de “Um cordel para aldear a educação”, cordel feito por ela sobre os caminhos, os afluentes e os desafios de aldear a educação, ilustrado pelas xilogravuras de Lucélia Borges.
Páginas de “Um cordel para aldear a educação”
É uma alegria para a Selvagem caminhar junto a Cristine, a Veronica e a toda a comunidade das Escolas Vivas e do Grupo Aprendizagens, construindo processos educativos que valorizam a diversidade de saberes, a escuta e a troca. Celebramos o Edital Aldear a Educação Básica e todos aqueles e aquelas que dele participaram, assim como todos e todas que se mobilizam por uma educação antirracista e plural.
“Cada um de nós deve saber se impor
E até lutar em prol do bem-estar geral
Afastar da mente todo mal pensar
Saber se respeitar, se unir pra se encontrar
Por isso, eu vim propor um mutirão de amor
Pra que as barreiras se desfaçam na poeira e seja o fim
O fim do mal pela raiz
Nascendo o bem que eu sempre quis
É o que convém pra gente ser feliz”
(Jorge Aragão)

