FLECHAS E “DANÇAS TECNOLÓGICAS”:
uma conversa Selvagem com Alice Anderson
17 de abril de 2026
Alice Anderson é uma multi artista francesa que conversa, se inspira e cria com seres não humanos há mais de 20 anos. Sua aproximação com a Selvagem nasceu de uma trajetória marcada por uma escuta atenta aos animais, às plantas, e até mesmo aos mais variados tipos de matéria, afinidades que, segundo Alice, encontraram eco nos conteúdos, práticas e publicações da Selvagem. Entre as muitas travessias e confluências que vem brotando dessa relação, a artista vem apresentando as “FLECHAS SELVAGEM” em diversas exposições que participa, expandindo os diálogos e as reverberações deste encontro conceitual, político e afetivo.
Em sua primeira exposição no Brasil, “CORPOS HUMANOS-NÃO HUMANOS”, que ficou em cartaz entre setembro e novembro de 2025 no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, Alice exibiu a “Flecha 5 – Uma flecha invisível” e a “Flecha 6 – Tempo e amor”, junto de suas pinturas e performances. Em 2026, esse movimento continuou com a incorporação das Flechas na sua exposição individual “DANÇAS TECNOLÓGICAS” (“TECHONOLOGICAL DANCES”), com curadoria de Marc Pottier, no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, que segue em cartaz até o final de maio.
“Desde que vi as primeiras “FLECHAS”, graças à generosidade de Madeleine Deschamps, soube que queria compartilhar o trabalho excepcional que a Selvagem realiza por meio da divulgação e do apoio aos saberes indígenas, de edições extraordinárias que unem arte e ciência, e das Living Schools coordenadas por Cristine Takuá, que, inclusive, veio cantar um poema magnífico na minha exposição no Centro Hélio Oiticica”, contou a artista em conversa com a nossa equipe.
Alice vem tecendo um vínculo profundo e cuidadoso com a Selvagem ao longo dos últimos anos que começou através da leitura dos livros de Ailton Krenak, narrador das Flechas Selvagem, e que se desdobrou no encontro com Anna Dantes, responsável pela direção, texto e pesquisa de imagens destes materiais. Os estudos que Alice vinha fazendo sobre as interseções entre saberes indígenas e física quântica entorno da matéria como algo vivo encontraram eco e inspiração nas Flechas que partem do mundo invisível do microcosmos em direção a mundos afetivos e ancestrais, e que agora compõem espaços expositivos, alcançando cada vez mais pessoas. Hoje, seu trabalho se afirma como um gesto multiplicador dessa teia Selvagem, fazendo circular, em outros contextos, modos de perceber o mundo que resgatam a conexão entre de todo tipo de vida.
A seguir, você confere a conversa com Alice Anderson na íntegra, em que ela se aprofunda sobre sua relação com a Selvagem e sobre os desenvolvimentos de seu trabalho, além de partilhar reflexões importantes sobre como será pela dança e pela natureza, e não pelos algoritmos, que aprenderemos a viver em conexão.
E se você também gostaria de compartilhar sobre alguma atividade ou exibição que conheceu ou realizou a partir de materiais Selvagem, te convidamos a contar para a gente por este formulário. Além de ser uma grande alegria, esse retorno é muito importante para nós acompanharmos os desdobramentos dos materiais Selvagem pelo mundo.
Como começou sua relação com Selvagem?
“Quando criança, eu tinha uma ligação profunda com uma unha, um carvalho, uma pedra e um riacho que encontrei na Floresta de Charnes, em Berry, na França (um lugar que Madeleine Deschamps, a primeira pessoa da Selvagem que tive a oportunidade de conhecer, deve conhecer bem).
Sempre tive uma relação muito forte com a natureza. Na verdade, todo ambiente em que estou fala comigo constantemente. Instintivamente, é como se eu soubesse que a matéria que compõe todas as coisas viesse de uma existência, de um ponto de vista.
Fui marginalizada na minha época porque, no Ocidente, pouquíssimas pessoas me compreendiam. Com o tempo, pude descobrir outras culturas muito mais poderosas e que correspondiam inteiramente à minha visão: onde humanos, animais, plantas, pedras, objetos — têm sua própria maneira de ser e de perceber o mundo, e onde nossas ações fazem parte de um tecido de relações com eles.
Por muitos anos, construí pontes entre os sistemas de saberes indígenas e a física quântica, reconhecendo a matéria como um campo ativo e vibrante que nunca é inerte, por meio de trabalhos como os da física Karen Barad, da filósofa Jane Bennett e do ambientalista Glen Albrecht.
Mais tarde, ao ler “FUTURO ANCESTRAL” e “IDEIAS PARA ADIAR O FIM DO MUNDO”, de Ailton Krenak, ouvi o seu chamado. Compartilhando profundamente seu compromisso com a Terra, quis ir ao seu encontro para conversar sobre a Inteligência Artificial, essa ferramenta que está transformando a Terra, a sociedade e o corpo em uma velocidade exponencial.
Depois, tive a oportunidade de conhecer Anna Dantes, uma pessoa radiante, e as “FLECHAS SELVAGEM”, que são filmes poéticos de imenso poder. Resumindo, todos esses encontros contribuíram para aprofundar minha convicção de que a vida é uma teia de interconexões.”
Como as Flechas se relacionam com o seu trabalho?
“Eu criei “DANÇAS TECNOLÓGICAS” dançando com ferramentas antigas, máquinas modernas, circuitos eletrônicos, elementos arquitetônicos ou meteoritos, a fim de me reconectar com a materialidade animada desses objetos e reparar nas nossas relações com o mundo mais-que-humano.
Eu inicio meus diálogos com seres não humanos por meio de longas sessões de observação; depois de falar com eles, aplico tinta líquida a esses “objetos” para libertá-los de sua funcionalidade primária.
Essas entidades são transformadas durante as “DANÇAS TECNOLÓGICAS” e tornam-se “OBJETOS DESPERTOS”. As marcas criadas pela tinta na tela registram essas comunicações para além do mundo visível durante estados de transe.
Essas “DANÇAS TECNOLÓGICAS” testemunham outra forma possível de inteligência na era da IA: aquela que habita a matéria.
Quanto aos “OBJETOS DESPERTOS”, eles funcionam como locais de resistência e memória. Na era da IA, em que os objetos são cada vez mais otimizados, os “OBJETOS DESPERTOS” atuam como testemunhas, e não como ferramentas. Eles antecipam um futuro próximo moldado pela IGA, no qual a inteligência se torna abundante; a atenção, rara; a presença, política; e a memória, sagrada.”
Como você percebe a recepção do público ao seu trabalho na exposição?
“É um trabalho e uma reflexão compartilhados. Eu diria: NOSSO trabalho. A maioria dos seres que conheço está “trabalhando” pela Terra. A exposição no MON (Museu Oscar Niemeyer) mostra outros caminhos poéticos que despertam a consciência.
Os visitantes se delongam diante das obras; alguns me confidenciam que sentem algo difícil de nomear. Isso me confirma que estamos em um momento crucial.
Quando a IA se tornar generalizada, todos os valores mudarão. A capacidade de estar “presente” fisicamente, emocionalmente, sem mediação. A atenção sincera ao que nos rodeia, aos não-humanos. A qualidade de ouvir, de olhar, do silêncio compartilhado se tornará rara e, portanto, preciosa.
Em um mundo saturado de inteligências, a presença consciente provavelmente será um privilégio. Na verdade, tudo o que envolve o corpo em tempo real terá um imenso valor sensorial. Tudo o que for feito como um gesto “não otimizado”, imperfeito, se tornará sagrado.
É por isso que, há 20 anos, desenvolvi gestos que “memorizam”, por meio da pintura e da escultura, a passagem para esta nova era — como que para dizer: vamos nos lembrar da Natureza, de seu poder e do que fazemos dela.
A IA pode produzir e reproduzir, mas não conhece os desafios existenciais. Ela esqueceu a Natureza e desconhece a morte.
O que importará será o “porquê” por trás da ação. Por que nos reconectarmos com a Natureza? Por que criar? Por que escolher isto em vez daquilo? Por que agora?
A IA generalista tende para o global. O valor residirá no que é local, minoritário, não reproduzível em escala. Talvez em histórias singulares, trajetórias atípicas, vozes dissonantes e, acima de tudo, memórias incorporadas.
É toda a nossa relação com o que é vivo e com o que nos rodeia que deve ser repensada. Repensar o vínculo com o que não fala a nossa língua: por exemplo, com plantas, animais, ciclos, paisagens, arquiteturas, objetos.
Devemos valorizar a inteligência da Natureza. Teremos que aprender a pensar dançando, e não por meio de algoritmos.”
Still Group of the Flecha 5 – Uma flecha invisível
Why do Microbes explode under UV Light?
JAMES WEISS (@JAM_AND_GERMS)

