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EM TEMPOS DE CONSTRUIR: obras de arte e de infraestrutura nas Escolas Vivas

By 5 de maio de 2026No Comments
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EM TEMPOS DE CONSTRUIR:
obras de arte e infraestrutura nas Escolas Vivas

05 de maio de 2026

 

Nos últimos meses, as Escolas Vivas realizaram construções que entrelaçam cuidado, formação e criação tanto para ficar nos seus territórios quanto para circular por outros. Na Escola Viva Huni Kuin, uma nova cozinha coletiva chegou para fortalecer o cotidiano e o trabalho comunitário, e na Escola Viva Baniwa a Casa de Formação Madzerokai está cada vez mais próxima de sua finalização. Ao mesmo tempo, as oficinas para criação de obras para a nova exposição “Viva Viva Escola Viva” no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, fizeram outras construções ganharem forma no campo da arte, como os mastros mîmãnãm, uma criação ritualística e tradicional Maxakali que também estará presente na exposição. As oficinas fazem parte de um movimento que ainda guarda muitas novidades para os próximos meses, com pinturas, esculturas e muito mais. 

Na Escola Viva Guarani, a viagem de intercâmbio à Aldeia Rizoma em Paraty, no Rio de Janeiro, com jovens e crianças seguiu aprofundando o processo coletivo de criação do livro “Tekoypy rã – A origem de nós”, com previsão de lançamento para junho, mergulhando nas narrativas de Carlos Papá sobre o que chamamos de mundo, e Papá explica ser Yvy rupa. Já no Centro de Medicina Indígena Bahserikowi da Escola Viva Tukano-Dessano-Tuyuka, novas partilhas como o evento “Amazônia Transmasc” e o “Encontro de Saberes” vêm construindo outras confluências entre corpos, territórios e movimentos sociais. 

Mastros mîmãnãm maxakali que estarão na exposição das Escolas Vivas.

Evento “Encontro de Saberes” realizado no Bahserikowi.

Articulando ações de fortalecimento comunitário, manutenção de infraestrutura e incentivo às práticas tradicionais, o Instituto Flor da Floresta da Escola Viva Huni Kuin realizou a manutenção da cacimba de captação de água, da rede elétrica, das placas solares e a aquisição de novo inversor para captação de água, mas o grande destaque foi a construção da cozinha coletiva na Aldeia Coração da Floresta ao longo do mês de abril. A estrutura incluiu a instalação de pias e sistema de água encanada, área de lavanderia, chuveiros e um pequeno banheiro seco. A comunidade foi mobilizada, se comprometeu e participou ativamente da construção junto da equipe do Instituto Flor da Floresta que ficou responsável pelo planejamento, aquisição de materiais e articulação com os trabalhadores da obra, incluindo serrador, carpinteiro e técnico em elétrica, além do planejamento de materiais, orçamento e logística.

Construção da cozinha coletiva da Aldeia Coração da Floresta.

O pajé Dua Busë ao lado de Netë, na nova cozinha coletiva.

Essa cozinha nasce não apenas como espaço físico, mas como lugar de encontro, cuidado e bem viver, dando melhores condições de higiene, organização e preparo dos alimentos. Enquanto espaço comum a toda a comunidade, a infraestrutura não apenas melhora o dia a dia de forma objetiva, mas sustenta práticas de convivência, autonomia e cooperação no território. Erguida por muitas mãos, ela é a celebração de uma conquista feita com compromisso e afeto.

A Escola Viva Huni Kuin também contou com atividades de agrofloresta, plantio de mudas medicinais e frutíferas nos últimos meses e realizou a entrega de alimentos e insumos na Aldeia Coração da Floresta, dando prioridade às aquisições com produtores locais, contribuindo tanto para a segurança alimentar quanto para a continuidade dos conhecimentos tradicionais associados ao manejo agroflorestal. 

No campo da cultura, dois “bolos” de fio de algodão natural foram entregues, alimentando a continuidade da tecelagem e incentivando oficinas que mantêm viva essa tradição ancestral, e a preparação para a exposição no Instituto Tomie Ohtake segue em movimento.

Preparo de obras para a exposição no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

A Escola Viva Baniwa Madzerokai também celebra as etapas de finalização da construção da Casa de Formação Madzerokai, um espaço pensado para acolher a cultura do povo Baniwa e Koripako do Rio Içana através de encontros, trocas de saberes e diversas atividades, erguido em tempo recorde graças à dedicação coletiva da comunidade. Feita em menos de um ano, a Casa de Formação é mais do que uma estrutura: é um ponto de confluências entre gerações, onde conhecimentos tradicionais e o protagonismo da juventude se encontram. Para saber mais sobre esse processo, convidamos a acessar a notícia “A Casa de Formação Madzerokai: um novo umbigo do mundo”, que conta com detalhes e em primeira mão a trajetória desta conquista por meio de depoimentos de lideranças da comunidade.

Etapas de finalização da Casa de Formação Madzerokai.

A expressão ancestral “umbigo do mundo” dá título ao livro da artista, antropóloga e coordenadora da Escola Viva Baniwa Madzerokai, Francy Baniwa. Com lançamento em 2023 na própria comunidade e publicado pela Dantes Editora, o livro retrata a mitologia do povo Baniwa através da interlocução de Francy com seu pai Francisco Fontes Baniwa, considerado maadzero (“sábio”, na língua baniwa) pela comunidade. Centro de toda vida baniwa que conecta tempos imemoriais com o presente, entrelaçando mundos e gerações, o “umbigo do mundo” também dá nome a uma das instalações que a Escola Viva está preparando para a exposição no Instituto Tomie Ohtake. Levando para o público a força dos conhecimentos, da cultura e do legado do povo Baniwa, a obra está sendo feita coletivamente e conta com matérias-primas do seu território, técnicas ancestrais de confecção e uma reflexão coletiva sobre a cosmologia e a continuidade do povo Baniwa.

Etapas de construção da obra “Umbigo do mundo”.

Na Escola Viva Guarani, o intercâmbio para a Aldeia Rizoma, em Paraty, com jovens e crianças mergulhou em mais uma etapa da criação do livro “Tekoypy rã – A origem de nós”, com previsão de lançamento para junho. O livro parte de narrativas de Carlos Papá e é dedicado aos saberes e histórias de Nhe’ery, que é como os Guarani nomeiam o território que costuma ser chamado de Mata Atlântica, um lugar sustentado pela água, Y, habitado por ijás, donos dos seres e responsáveis pelas árvores, por animais e por todos os elementos da natureza. 

O intercâmbio deu continuidade ao processo de imersão que acompanha a criação do livro, produzindo as ilustrações, gravando, revisando e transcrevendo as histórias em um processo cuidadoso e coletivo. Anna Dantes, editora do livro, esteve presente na ocasião, escutando, acompanhando e participando deste processo.

Vivências na Aldeia Rizoma, em Paraty.

Com a nova exposição “Viva Viva Escola Viva” se aproximando, a Escola Viva Guarani também finalizou as telas que estarão em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake, abrindo novos caminhos para que memórias e territórios continuem brotando.  

Pinturas Guarani para a nova exposição “Viva Viva Escola Viva”.

Ao longo do mês de março, também aconteceu um mutirão de limpeza no sítio, reunindo crianças e jovens em torno do cuidado com a terra. A limpeza não é só um preparo, mas faz parte da busca por aperfeiçoar o plantio de alguns alimentos através do sistema agroflorestal. Mesmo com o solo enfrentando dificuldades, ainda muito arenoso e com alta acidez, o cultivo de bananas, mandioca, abacaxi e medicinas continua. A ideia é seguir limpando a roça para abrir caminho para o cultivo de batata doce e de algumas hortaliças.

Entre o brincar e o cuidar, o mutirão de limpeza e plantio de horta tornam-se também aprendizagens partilhadas entre diferentes gerações.

A Escola Viva Guarani também expandiu suas atividades e raízes para fora do território em com o convite para participar do Simpósio Internacional “Atlântico Indígena: Conhecimentos e relações de povos indígenas com o mar”, realizado na USP, na UNIFESP e na Tekoa Mirim. Na ocasião, pensadores e lideranças indígenas caminharam junto a pesquisadores(as) indígenas e não indígenas para refletir sobre as territorialidades, os sentidos e as relações que ligam os povos ao mar ao longo da extensa costa atlântica. A presença dos xeramõi e xejaryi, anciões e guardiões da palavra, trouxe à tona a força viva dos pensamentos Guarani, aproximando a academia das territorialidades que persistem e se recriam no litoral da Mata Atlântica. 

Já no Centro de Medicina Indígena Bahserikowi da Escola Viva Tukano-Dessano-Tuyuka, o mês de março também teceu novos diálogos ao receber eventos no que ampliam o diálogo entre saberes e lutas, como o “Amazônia Transmasc e o “Encontro de Saberes”, além de realizar atendimentos de saúde e promover suas atividades culturais fixas.

Organizado pelo coletivo LGBTQIAPN+, o evento “Amazônia Transmasc” reuniu pessoas indígenas e não indígenas, entre pesquisadores, ativistas e público em geral, em torno de debates sobre diversidade, direitos e inclusão. A participação de lideranças como Carla Wisu e Ivan Tukano reforçou o papel do centro como lugar de escuta e articulação entre diferentes movimentos e perspectivas, onde o centro se configura como território de encontro e construção coletiva em direção a futuros partilhados e plurais.

Evento “Amazônia Transmasc”, realizado no Bahserikowi.

A Escola Viva também esteve conectada a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) por meio do “Encontro dos Saberes”, um projeto de ensino, pesquisa e extensão vinculado ao curso de Ciências Sociais e ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. O kumu Durvalino Kiibe participou das discussões, trazendo reflexões no eixo “Terra no olhar dos povos originários” e o encerramento aconteceu no próprio Centro de Medicina Indígena, reunindo cerca de 70 participantes entre pesquisadores, especialistas indígenas, povos de terreiro e quilombolas, com debates e apresentações de danças organizadas pelo próprio Centro.

“Encontro de Saberes”

No campo da saúde, apenas em março, cerca de 80 pessoas foram atendidas no Centro de Medicina Indígena, sendo a maioria mulheres entre 40 e 80 anos em busca de tratamento, proteção e prevenção através do uso de plantas medicinais, integrando diferentes dimensões do conhecimento tradicional. Além disso,  brincos, colares, pulseiras e outros objetos são confeccionados pelas colaboradoras como atividade permanente, assim como a pintura de grafismos em tecidos que materializam conhecimentos ancestrais dos povos do Alto Rio Negro ligados a sistemas de cura utilizados pelos kumuã. Assim, as pinturas nos tecidos são mais do que uma prática artística, mas uma forma de fortalecer e expressar a identidade cultural.

Apesar de celebrar a realização de tantas atividades, a Escola Viva Tukano-Dessano-Tuyuka enfrenta um desafio persistente: a limitação de seu espaço físico, ainda insuficiente para atender à crescente demanda. Mesmo assim, o coletivo mantém firme o objetivo de conquistar uma sede mais ampla, capaz de fortalecer e expandir suas ações e segue tecendo caminhos onde saúde, cultura e política caminham juntos.

Na Escola Viva Maxakali, a comunidade tem vivido momentos de muita criação e transformação. Entre 30 de março e 4 de abril, foi realizada uma oficina artística no território, co-realizada pela Selvagem e pelo Instituto Tomie Ohtake, com a participação de Cristine Takuá, coordenadora do movimento Escolas Vivas, e Veronica Pinheiro, da equipe Selvagem, além da coordenação de Isael Maxakali e Sueli Maxakali. A oficina aconteceu em preparação para a exposição das Escolas Vivas a ser inaugurada em junho no instituto, e é também um desdobramento da participação da Escola Viva Maxakali na residência Casa Escola Viva.

Oficina de pintura no território maxakali

Foram dias de partilhas, sonhos, arte e criação coletiva, com toda a comunidade engajada na pintura de telas, desenhos e outras obras, como os mastros mîmãnãm, uma criação ritualística e tradicional Maxakali que também estarão presentes também na exposição. Mîmãnãm quer dizer “pau da religião” e representa a conexão entre os Maxakali e seus espíritos, os yãmîyxop. Pintado e ornamentado, ele é fincado em frente à kuxex (casa de religião) para honrar os yãmîy. 

Outros movimentos importantes também estão acontecendo no território Maxakali. Após a aquisição de uma nova terra para a aldeia, em nome do pajé Mamei Maxakali, realizada no início de março, a comunidade está se organizando para a mudança de um núcleo familiar para a nova terra, fortalecendo os espaços de moradia e plantio. Abril foi também um mês em que os Maxakali da Aldeia Escola Floresta colheram muitos alimentos que haviam sido plantados nos últimos meses, como parte do esforço constante de reflorestamento e plantio para subsistência da comunidade. Por exemplo, muitas bananas e outras frutas foram colhidas, e dezenas de novas mudas de frutíferas foram plantadas no território para a alimentação da comunidade.

Bananas do território maxakali

As Escolas Vivas são um movimento de apoio a esses 5 projetos dedicados ao fortalecimento e a transmissão de saberes tradicionais. Para quem deseja contribuir, é possível apoiar financeiramente o movimento através do nosso site.

Selvagem e as Escolas Vivas agradecem!