EDUCADORES DO FORMABIAP NA ESCOLA VIVA GUARANI
21 de agosto de 2026
Do fogo à mata, da mata ao mar, do território à cidade. Estes foram alguns dos caminhos percorridos no mês de agosto durante a Imersão Escola Viva Nhembo’ea Kovea-Guarani, encontro que reuniu educadores do Programa de Formação de Professores Bilíngues da Amazônia Peruana (FORMABIAP), sediado em Iquitos, no Peru, e integrantes da Associação Selvagem para um intercâmbio entre saberes indígenas multiétnicos na Escola Viva Guarani, a Arandu Porã, localizada na Terra Indígena Ribeirão da Silveira. O intercâmbio começou no território da Escola Viva Guarani e se encerrou em São Paulo, junto ao final da exposição VIVA VIVA ESCOLA VIVA, com a participação dos educadores na roda de conversa de encerramento Nosotras: uma conversa sobre educação intercultural.
O FORMABIAP é uma instituição que parte das perspectivas dos movimentos indígenas para formar professores e atender as escolas de Educação Intercultural Bilíngue (EIB), buscando valorizar e fortalecer suas línguas, culturas e relações com os territórios. O trabalho do FORMABIAP também dialoga com as memórias difíceis de Iquitos, onde o programa está sediado, uma cidade marcada pela violência contra os povos indígenas durante o ciclo da borracha entre os séculos XIX e XX. Nesse entrelaçamento entre educação, memória e atuação política, o intercâmbio com a Escola Viva Guarani buscou aproximar experiências de diferentes territórios e ampliar as redes de diálogo entre iniciativas indígenas do Peru, do Brasil e de outros países da América do Sul.
Durante cinco dias, Cristine Takuá, coordenadora do movimento das Escolas Vivas, Carlos Papá, coordenador da Escola Viva Guarani, e Veronica Pinheiro, coordenadora do Laboratório de Aprendizagens Selvagem (LAS), estiveram reunidos com os educadores Carlos Panduro Bartra, Maritza Ramirez Tamani (povo Cocama), Richard Ricopa Yaicate (povo Cocama) e Haydee Rosales Alvarado (povo Quéchua), para trocar experiências de formação desenvolvidas em diferentes territórios, criando um espaço para compartilhar práticas, perguntas e caminhos em torno da educação intercultural indígena, orientada por aprendizagens que se fazem na relação entre pessoas, seres, encantados, lugares, memórias e formas de existência.
Aprender com o fogo, escutar a Nhe’ëry
A programação começou dia 5 de agosto na Opy, Casa de Reza, com o encontro “O que aprendemos com o fogo”, conduzido por Carlos Papá, que deu início à conversa falando de “jeroky”, palavra Guarani que traz sobre como na floresta não se anda reto como na cidade: é preciso dançar para caminhar. “Foi a partir desse movimento, de jeroky, de sentir, perceber e estar com os códigos da floresta que se dá o processo de aprendizagens e ensinamentos que a gente vem semeando na Nhe’ery, na Escola Viva Guarani. Dançar para caminhar”, contou Cristine Takuá.
Em uma roda de apresentação e partilha de trajetórias conduzidas pelo fogo, esse elemento foi tomado como presença, orientação e condição para a escuta, convidando o grupo a olhar o conhecimento a partir de outras posições, tempos e perspectivas. Léo Karaí e Cassiano Maxakali, estudantes de Licenciaturas Indígenas e integrantes das Escolas Vivas Guarani e Maxakali, também participaram da conversa, ampliando o diálogo entre territórios e saberes.
À tarde, a caminhada Nhe’ëry pelo Território Indígena Rio Silveira trouxe o território como parte do processo educativo. No espaço da Tava Escola Viva, a Casa da Transformação, a atividade “Ouvindo o silêncio” propôs aguçar os sentidos para as sonoridades da Mata Atlântica e ampliar o repertório sonoro a partir da escuta da floresta, dos animais, do vento e dos demais seres. O exercício também convidou a acordar memórias pelo som e aprofundar a relação de cada participante com seu lugar de origem.
Caminhada pelo território da Escola Viva Guarani. Fotos: Acervo Selvagem.
Medicinas e marés
No dia seguinte, o grupo compartilhou experiências e percepções sobre os estudos com as medicinas sagradas da noite anterior, abrindo espaço para que as vivências individuais se transformassem em aprendizado coletivo. Em seguida, a atividade Nhe’ëry levou o grupo à Praia de Boraceia, onde as reflexões se voltaram para o mar e para as relações ambientais e ancestrais entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
A programação seguiu com a apresentação institucional da FORMABIAP, que compartilhou sua trajetória, projetos, propostas formativas e modos de atuação na formação intercultural e no diálogo com os povos indígenas do Peru.
Do território à cidade
No dia 7 de agosto, a manhã veio acompanhada pela apresentação institucional da Associação Selvagem, conduzida por Veronica Pinheiro, percorrendo os caminhos construídos entre diferentes conhecimentos, experiências educativas, artes, ciências e saberes ancestrais — princípios também que atravessam e são atravessados por todo o movimento das Escolas Vivas.
No mesmo dia, o grupo seguiu em direção à cidade de São Paulo, onde a imersão continuou no Museu das Culturas Indígenas, em uma visita mediada por Cristine Takuá na nova exposição “Ayvu Porã”, em cartaz até dezembro de 2026, que reúne xilogravuras produzidas por jovens Guarani da Escola Viva Guarani, da aldeia do Jaraguá e do Vale da Ribeira.
No museu, a conversa se ampliou para as produções, memórias e perspectivas dos povos indígenas no presente. Cristine compartilhou com o grupo a história de luta que tornou possível a criação do museu, seu acervo e as perspectivas que orientam esse espaço de memória, conhecimento e encontro. O dia terminou no SESC Pinheiros com o evento Kunhangue Nhemboaty, encontro de mulheres Guarani marcado pela partilha de narrativas.
Visita à “Viva Viva Escola Viva”
O final do intercâmbio aconteceu no dia 9 de agosto, junto ao encerramento da exposição VIVA VIVA ESCOLA VIVA no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Como parte da programação de encerramento, o grupo participou de uma caminhada com as plantas da exposição até o Parque do Rio Bixiga, atividade elaborada por Cristine Takuá, em um mutirão de plantio que celebrou o poder das medicinas, das memórias, dos mais velhos e do Rio Bixiga.
No Instituto Tomie Ohtake, aconteceu a roda de conversa “Nosotras: uma conversa sobre educação intercultural” com os educadores da FORMABIAP, Cristine Takuá, curadora da exposição, e mediação de Veronica Pinheiro, seguida por uma visita mediada com Cristine.
Foram dias de muita troca, aprendizado e convivência, que aproximaram ainda mais os educadores do FORMABIAP e das Escolas Vivas, e que aumentaram o desejo de dar continuidade a essa parceria, ampliando as oportunidades de encontro, colaboração e aprendizado conjunto.
Sobre os educadores da FORMABIAP
CARLOS PANDURO BARTRA é licenciado em Educação e professor comprometido, com mais de 30 anos de experiência na formação de professores bilíngues da Amazônia peruana; consultor do Ministério da Educação e de outras instituições educacionais. Atualmente, atua como formador na área de sociedade do FORMABIAP.
HAYDEE ROSALES ALVARADO é linguista com mais de 30 anos de experiência na formação de professores bilíngues da Amazônia peruana, pesquisadora comprometida com o fortalecimento e a revitalização da língua kichwa (quechua) e consultora do Ministério da Educação e de outras instituições educacionais na elaboração de materiais didáticos relacionados às línguas indígenas. Atualmente, é professora no FORMABIAP.
MARITZA RAMÍREZ TAMANI é uma liderança indígena, ativista e gestora cultural, originária dos povos Kukama-Kukamiria e Kichwa (Quechua), cuja trajetória tem se concentrado na defesa da identidade cultural popular amazônica. É integrante do Comitê Promotor do Carnaval Popular de Iquitos, formada em Educação e com experiência profissional em diversas instituições públicas estaduais. Atualmente, é professora e coordenadora acadêmica da área de Educação Intercultural Bilíngue (EIB) da EESPP-Loreto.
RICHARD RICOPA YAICATE é professor do povo indígena Kukama Kukamiria, com ampla experiência em Educação Intercultural Bilíngue: como professor em sala de aula em seu povoado, formador de professores em educação intercultural bilíngue em programas de educação inicial e continuada, elaboração de materiais didáticos, desenvolvimento curricular, professor de Educação Primária EIB do povo Kukama Kukamiria. Atualmente, atua como professor formador de EIB na área de Prática e Pesquisa no FORMABIAP.










