RECADO
E é ali geografia física e geografia humana que se expressam em recados.
As mensagens não estão ali simplesmente para se completarem quando passam de alguém para outro,
mas estão ali para passar de alguém para outro e outrem e outrem e mais outro.
José Miguel Wisnik, Caderno Selvagem “Na Trilha do Sol“.
O recado é um movimento, é o estado da transmissão de uma mensagem que vem e que vai.
Em 24 de abril de 2024, José Miguel Wisnik trouxe um recado para o Selvagem Ciclo, no Teatro Oficina, através de sua fala que colocou o Recado do Morro, de João Guimarães Rosa, na trilha do Sol.
Assim como um recado, nossos materiais de estudo partem da oralidade, de algo que alguém carrega em si mas, também, que faz parte do todo. É o jeito de a oralidade se escrever no tempo e no espaço. Pode ser também a maneira como os raios cósmicos do Sol atravessam o cosmos e os seres, deixando sua assinatura.
O recado é, portanto, uma forma de comunicação que se vale de uma “recadeira” ou um “recadeiro” para ser passado adiante. É uma canalização da informação.
A partir de agora, em meio aos ciclos e outros materiais Selvagem, lançaremos, também, recados.
Falas com o poder de aderir às várias temáticas que movem o ciclo Selvagem: sonhos, memórias ancestrais, aprendizagens, Escolas Vivas, regeneração de Gaia, Sol e agora nosso Planeta Casa.
São falas de “recadeiras” e “recadeiros” que trazem um aviso, uma visão, uma informação, uma mensagem.
A playlist com todas as falas está disponível no canal Selvagem.
Recebam nossos recados!
- 5 - CRIS TAKUÁ e FRANCY BANIWA
- 4 - ANA SANTOS
- 3 - BÁYÒ AKOMOLAFE
- 2 - BÁYÒ AKOMOLAFE
- 1 - GLICÉRIA TUPINAMBÁ
- ALEMBERG QUINDINS
RECADO 5 – PRÁTICAS COLETIVAS DAS ESCOLAS VIVAS
“Tem pouco espaço para desanimar. Muito mais sonhos e esperança.” – Francy Baniwa
“Eu vejo você caminhando entre os mundos, caminhando pra lá e pra cá, mas inteiramente aqui.” – Cristine Takuá sobre Francy Baniwa
O quinto Recado Selvagem nasceu na comunidade de Assunção do Içana, no Alto Rio Negro, em maio de 2025, durante a inauguração simbólica da Escola Viva Baniwa, MADZEROKAI, coordenada por Francy Baniwa ao lado de Francisco Baniwa. Nesse território, Cristine Takuá, coordenadora do movimento das Escolas Vivas, foi recebida para um encontro de onde emergiu este recado.
Na conversa, Francy e Cristine partilham aprendizados sobre o fortalecimento cultural e a construção dos círculos de afeto, destacando como as Escolas Vivas tecem pontes, animam as almas e lembram que o coletivo existe. Juntas, elas refletem sobre o papel da escuta dos mais velhos, a esperança que sustenta os sonhos e a força das práticas comunais como caminho de resistência e continuidade.
CRISTINE TAKUÁ, do povo Maxakali, é uma pensadora, aprendiz de parteira e educadora. É formada em Filosofia pela Unesp e foi professora por doze anos na Escola Estadual Indígena Txeru Ba’e Kuai’. Atualmente é coordenadora das Escolas Vivas e integra o conselho da Associação Selvagem. Cristine é representante do NEI (Núcleo de Educação Indígena) dentro da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo e membro fundadora do FAPISP (Fórum de articulação dos professores indígenas do Estado de São Paulo). Faz parte do Instituto Maracá, que está fazendo a gestão compartilhada do Museu das Culturas Indígenas em São Paulo. Vive na Terra Indígena Ribeirão Silveira, localizada na divisa dos municípios de Bertioga e São Sebastião, no estado de São Paulo, com seu companheiro, Carlos Papá, e seus filhos Djeguaká e Kauê.
FRANCY BANIWA é mulher indígena, antropóloga, fotógrafa e pesquisadora do povo Baniwa, do clã Waliperedakeenai, nascida na comunidade de Assunção, no Baixo Rio Içana, na Terra Indígena Alto Rio Negro, município de São Gabriel da Cachoeira – AM. Engajada nas organizações e no movimento indígena do Rio Negro há uma década, atua, trabalha e pesquisa nas áreas de etnologia indígena, gênero, organizações indígenas, conhecimento tradicional, memória, narrativa, fotografia e audiovisual. É graduada em Licenciatura em Sociologia (2016) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). É mestra (2019) e doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS-MN/UFRJ). É diretora do documentário Kupixá asui peé itá — A roça e seus caminhos, de 2020. Atualmente coordena o projeto ecológico pioneiro de produção de absorventes de pano Amaronai Itá – Kunhaitá Kitiwara, financiado pelo Fundo Indígena do Rio Negro (FIRN/FOIRN), pelo empoderamento e dignidade menstrual das mulheres do território indígena alto-rio-negrino. É autora do livro “Umbigo do Mundo”, escrito a partir das narrações de seu pai, Francisco Fontes Baniwa, e ilustrado por seu irmão, Frank Fontes Baniwa – lançado pela Dantes Editora em 2023.
CRÉDITOS
Filmagem: Digo Fiães
Edição e finalização: Caleidoskópica Produções
Agradecemos a Djeguaká, Kauê, Carlos Papá, Carla Wisu, Francisco Pontes Baniwa e a toda a comunidade da Escola Viva Baniwa, os sábios e sábias, coordenadoria Nadzoeri e os professores e professoras da aldeia Assunção do Rio Içana.
Realização: Selvagem
RECADO 4 – PRECISAMOS DAR CONTA E ESTAR SEMPRE PRONTA
“E não dá pra morar e plantar? Plantar. Morar. Plantar pelo clima, plantar por soberania, plantar por alimento, plantar por esperança…”
Nesse quarto Recado, Ana Paula da Cruz Santos compartilha memórias da infância e da força das mulheres de sua família, entrelaçando quintais, ervas e afetos ao presente de luta e criação em rede na Serra da Misericórdia, no Rio de Janeiro, especialmente na busca por autonomia alimentar.
ANA SANTOS é mulher preta, feminista, militante e insistente, mestra em cozinha agroecológica e cofundadora do Centro de Integração da Serra da Misericórdia (CEM), no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio. Sua atuação é voltada ao fortalecimento da soberania alimentar feminista, antirracista e emancipatória, construindo caminhos de bem viver na favela. Neta e filha de agricultores, nasceu no Morro do Puri, em Nilópolis, na Baixada Fluminense, onde cresceu entre alimentos e ervas medicinais cultivados pela família. Compreende a agricultura não apenas como subsistência, mas como projeto de trabalho, cura, criação de rede e realização de sonhos.
CRÉDITOS
Direção: Anna Dantes
Produção: Madeleine Deschamps
Filmagem e finalização: Rocca Filmes
Trilha sonora: Grupo Uirapuru – Orquestra de Barro: Tercio Araripe, Bob Pessoa e Macaio Upecor
Agradecimentos: Centro de Integração na Serra da Misericórdia, Rede Carioca de Agricultura Urbana, Coletivo Mulheres em Ação na Serra da Misericórdia, Ana Paula da Cruz Santos, sua mãe Rosangela Maria da Cruz, seus avós Guaraciaba dos Santos e Ivonete Ferreira.
Realização: Selvagem
RECADO 3 – ÌJÀPÁ E A ARANHA: O QUE FAZER QUANDO NÃO SOMOS MAIS BEM-VINDOS?
“Tem coisas que temos que fazer coletivamente, como espécie, sobre as quais a modernidade não sabe nada. Temos que nos perder juntos. O povo Iorubá diz: ‘Para encontrar seu caminho, você precisa perdê-lo’.”
Nesse terceiro Recado, Báyò Akómoláfé traz mais uma narrativa do povo Iorubá sobre a tartaruga Ìjàpá. Dessa vez, em uma época de fome no reino animal, Ìjàpá e a aranha se trapaceiam para não precisar oferecer hospitalidade e alimento uma à outra.
A partir dessa história, Báyò reflete sobre a perda da hospitalidade e dos espaços a habitar no mundo. O pensador também compartilha um aprendizado que teve com seu filho de 7 anos, que é autista, sobre a importância de agir além das convenções da sociedade moderna.
BÁYÒ AKÓMOLÁFÉ, guiado por cosmologias iorubá em um mundo mais que humano, é o pai de Alethea e Kyah e companheiro de vida de Ije. Báyò (PhD) é filósofo, escritor, ativista, professor, pensador pós-humanista e palestrante amplamente celebrado, fundador da The Emergence Network, uma rede de artistas e pensadores que buscam novas aberturas para antigos problemas. É também poeta e autor dos livros These Wilds Beyond our Fences: Letters to My Daughter on Humanity’s Search for Home (North Atlantic Books, 2017) e We Will Tell Our Own Story: The Lions of Africa Speak! (Universal Write Publications LLC, 2017).
CRÉDITOS
Direção: Anna Dantes
Produção: Madeleine Deschamps
Filmagem e finalização: Rocca Filmes
Trilha sonora: Grupo Uirapuru – Orquestra de Barro: Tercio Araripe, Bob Pessoa e Macaio Upecor
Agradecimentos: Ana Clara Cenamo, Eco Universidade, Maria Clara Parente, Projeto Regenerar, Simbiótica Filmes, Spanda Produtora e Thais Pacheco Mantovani
Realização: Selvagem
RECADO 2 – ÌJÀPÁ E A CABAÇA: AINDA HÁ ALGO A FAZER
“Ainda há algo a fazer. E nós podemos, em tempos de urgências, emergências, encontrar novas maneiras de estarmos vivos hoje. O encantamento não está em falta.”
No segundo Recado Selvagem, Báyò Akómoláfé conta uma história do povo Iorubá sobre a tartaruga Ìjàpá. Em uma disputa de conhecimento com os deuses, Ìjàpá sai pelo mundo colhendo para si toda a sabedoria que existe, até se defrontar com um problema que não consegue resolver.
A partir dessa narrativa, Báyò reflete sobre os desafios e narrativas da modernidade e como o encantamento pode nos apontar outros caminhos de relação com o mundo.
BÁYÒ AKÓMOLÁFÉ, guiado por cosmologias iorubá em um mundo mais que humano, é o pai de Alethea e Kyah e companheiro de vida de Ije. Báyò (PhD) é filósofo, escritor, ativista, professor, pensador pós-humanista e palestrante amplamente celebrado, fundador da The Emergence Network, uma rede de artistas e pensadores que buscam novas aberturas para antigos problemas. É também poeta e autor dos livros These Wilds Beyond our Fences: Letters to My Daughter on Humanity’s Search for Home (North Atlantic Books, 2017) e We Will Tell Our Own Story: The Lions of Africa Speak! (Universal Write Publications LLC, 2017).
CRÉDITOS
Direção: Anna Dantes
Produção: Madeleine Deschamps
Filmagem e finalização: Rocca Filmes
Trilha sonora: Grupo Uirapuru – Orquestra de Barro: Tercio Araripe, Bob Pessoa e Macaio Upecor
Agradecimentos: Ana Clara Cenamo, Eco Universidade, Maria Clara Parente, Projeto Regenerar, Simbiótica Filmes, Spanda Produtora e Thais Pacheco Mantovani
Realização: Selvagem
RECADO 1 – ARRUME A CASA QUE EU ESTOU CHEGANDO
“Eu preciso ouvir o que foi que deixaram de recado pra mim.” – Glicéria Tupinambá
O primeiro Recado Selvagem, de Glicéria Tupinambá, foi filmado no dia 23 de outubro de 2024, junto ao manto Tupinambá que atualmente está abrigado na reserva técnica do Museu Nacional / UFRJ.
Glicéria conta sobre o retorno do manto para o Brasil e sua relação com o povo Tupinambá, além de sua própria pesquisa sobre os mantos e os artefatos sagrados de seu povo.
Ela também compartilha seu processo de busca de referências, trazendo mapas, imagens e relatos em que o manto figura; lembra de pessoas e artefatos levados forçosamente à Europa no processo colonial; e reflete sobre o trabalho com a memória e a ocupação do espaço dos museus, a partir de outras referências culturais e espirituais.
CADERNO
ARRUME A CASA QUE EU ESTOU CHEGANDO
Caderno elaborado a partir do recado de Glicéria Tupinambá, filmado em 23 de outubro de 2024. Este caderno também integra os materiais de estudo do Ciclo Planeta Casa.
CRÉDITOS
Direção: Anna Dantes
Produção: Madeleine Deschamps
Filmagem e finalização: Rocca Filmes
Agradecimentos: Emanuele Coccia e Rita Carelli
Agradecemos a toda a equipe do Museu Nacional / UFRJ pelo apoio na realização da filmagem do Manto Tupinambá.
Realização: Selvagem
CATAR CACOS DE LENDA
Anos antes de existir a série Recado Selvagem, esta fala de Alemberg Quindins já existia como um primeiro recado, atravessando por entre os ciclos de estudos Selvagem.
Nesse filme, Alemberg fala sobre encantamento, memórias ancestrais, mitologia e sobre ser criança.
Em 1992, Alemberg e sua companheira Rosiane Limaverde fundaram a Casa Grande – Memorial do Homem Kariri. Localizada em Nova Olinda, Ceará, a edificação pertenceu ao avô de Alemberg e serviu ao ciclo do couro. Foi reformada, pintada de azul e passou a ser um museu muito vivo, animado por crianças que fazem dela uma casa de brincar, aprender e sonhar.
A fundação tem como objetivo proporcionar a crianças, jovens e seus familiares uma formação social e cultural. Também procura valorizar a memória do povo Kariri, realizando atividades que entrelaçam artes, arqueologia, mitologia, comunicação, entre outras. Um caldeirão colorido que abriga diferentes expressões e um museu composto por peças encontradas e também recebidas de presente por Alemberg e Roseane, pesquisadores referência nos estudos da etnomusicolgia que dedicaram suas vidas a cuidar das fontes dos mitos e lendas Kariri.
Cacos de panelas indígenas, utensílios de pedra, cerâmicas e outros objetos eram encontrados nos roçados e nas caminhadas Chapada do Araripe adentro, sítio mitológico reconhecido como um dos berçários da vida na Terra.
CATAR CACOS DE LENDA foi gravado durante a vivência presencial Selvagem “Mulheres, Plantas e Cura”, em Exu-PE, cidade vizinha de Nova Olinda-CE, em setembro de 2022. Alemberg já tinha sido convidado para participar do primeiro Selvagem, em 2018, mas teve que declinar de última hora. Essa fala foi o presente que ele deu para o Selvagem 4 anos depois.
CRÉDITOS
Direção: Anna Dantes
Imagens: Carlos Papá e Elisa Mendes
Edição: Mariana Rotili e Elisa Mendes
Animações: Belle Passos
Realização: Selvagem

