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Diário Veronica Pinheiro

QUEM TEM O PODER DE REPRESENTAR TEM O PODER DE DEFINIR E DETERMINAR A IDENTIDADE

By 20 de agosto de 2024novembro 27th, 2025No Comments
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QUEM TEM O PODER DE REPRESENTAR TEM O PODER DE DEFINIR E DETERMINAR A IDENTIDADE
Veronica Pinheiro

20 de agosto de 2024

 

 

— Eu fiz mágica! — disse um menino de sete anos de idade quando conseguiu fotografar seu amigo com uma câmera profissional.

Ele olhou o visor da câmera, parou e quase não respirava. Eu vi seu corpo em silêncio absoluto. Vi o silêncio pela primeira vez. De fato, ele fez mágica. Um pajé sabe quando faz a cura, um professor sabe quando dá aula. E um mágico sabe quando faz mágica. Esse menino escolheu como representar seu amigo. Cuidadosamente escolheu ângulo e momento. Ele se viu no amigo e representou seu amigo como gostaria de ser representado. Talvez ele não saiba, mas quem tem o poder de representar pode determinar identidade. Mesmo sem saber, meu pequeno companheiro percebeu a força daquele ato.

As escolas de ensino regular, em sua maioria, mantêm os alunos o tempo todo em uma sala de aula apertada, com janelas fechadas e com iluminação artificial. Sentados em cadeiras desconfortáveis, passam horas sem olhar seus amigos nos olhos. Em silêncio. O silenciamento imposto, recorrente e institucional é violento, subjuga e aprisiona os sujeitos. Quais são as consequências de passar horas com alguém sem poder olhar nos olhos, sem olhar pra fora? Temos muitas críticas a esse modelo de educação, no entanto não podemos ignorar que, no Brasil, crianças e adolescentes urbanizados, principalmente nas periferias, estão tão vulnerabilizados que a escola pode se tornar um espaço de construções interessantes. Então… se a escola é um lugar de homogeneização e docilização de populações, ela também pode vir a ser um lugar de ruptura e insurgências.

São tantos direitos negados: direito de saber que é natureza; direito de brincar; direito à cidade; de ter acesso às manifestações do mundo natural…

Nesse nosso movimento de acordamento de memórias e fortalecimento dos territórios, compartilhamos o brincar, o caminhar e recebemos as crianças em espaços especiais para o Selvagem. As atividades, até nossa ida à Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro, eram fotografadas por profissionais que fazem parte da Comunidade Selvagem. Erika Hoch é uma dessas profissionais; generosa e amorosa, compartilha conosco seu olhar sobre os encontros através de registros fotográficos. Erika não estaria no Rio no dia da visita à Quinta. Nesse momento, também se uniu ao nosso grupo Carol Delgado. Carol, assim como Erika, traz a felicidade no olhar e nos gestos. O olhar das duas me é muito familiar, olhar de curiosidade, olhar de esperança. Quando olho nos olhos delas vejo as crianças que comigo compartilham essa jornada. A fotografia, além do lugar do registro, pode ser a manifestação do olhar. E o olhar pode ser construído. No texto “A função da Arte”, de Eduardo Galeano, o menino Diego, diante do maravilhamento de ver o mar pela primeira vez, pede: “Me ajuda a olhar.” Erika e Carol me ensinam a olhar.

Na Quinta da Boa Vista, Carol escolhe deixar que as crianças contem o que seus olhos viram. Ela entrega a câmera fotográfica na mão dos pequenos. Ensina a um como operar a câmera. Propõe combinados e acompanha o processo. A próxima criança a fotografar não seria ensinada por Carol, mas pelo colega que o antecedeu na atividade. Eu acompanho os movimentos de Carol e o movimento das crianças. Não dou muitas informações sobre as crianças previamente aos voluntários. Digo apenas que elas são solares e com muita energia. A turma que vivenciou esse passeio em especial é uma turma conhecida na escola por sua agitação. A Quinta era o lugar menos aconselhável para esse grupo, um local muito amplo e sem “atrações”. Decidi chegar ao local duas horas antes das crianças para procurar um lugar especial entre as árvores. Havia entre os professores da escola uma organização específica para conter possíveis situações de brigas entre as crianças.

Diante da amplidão e das muitas árvores, as crianças mais inquietas entraram em estado de contemplação e reflexão profunda de si.

— Você está vendo que eu nem estou fazendo bagunça hoje? — disse a menina de 7 anos — Não bati em ninguém e nem vou bater. Como faz pra voltar aqui?

Era dia de olhar e construir olhar. O lugar do registro é um lugar delicado. Quem tem o poder de representar tem o poder de definir e determinar a identidade. O direito de olhar e ser olhado é algo negado aos corpos dissidentes. Quando eu escrevo sobre as crianças da favela da Pedreira, sou eu representando e construindo olhar sobre o que são crianças da Pedreira.  A herança colonialista diz que alguns humanos podem determinar a identidade de outros, e há quem se sinta confortável nessa função.

“Quem tem o poder de representar tem o poder de definir e de determinar a identidade. […] A pedagogia e o currículo deveriam ser capazes de oferecer oportunidades para que as crianças e os/as jovens desenvolvessem capacidades de crítica e questionamentos dos sistemas das formas dominantes de representação da identidade e da diferença” Tomaz Tadeu da Silva

Temos umas três centenas de fotografias feitas pelas crianças. Confesso que não tenho recursos para compreender a complexidade da narrativa que construíram sobre os passeios fotografados por elas. Ando sabendo muito pouco e sentindo muito ultimamente. A maioria das fotografias são de sorrisos e abraços. Quando eu era criança, sabe como eram representadas as crianças das periferias em fotografias? Os livros didáticos que estudei só colocavam fotografias de pessoas pretas e pardas em situação de vulnerabilidade. Nos livros de ciências, por exemplo, sempre aparecia uma criança racializada nos capítulos que falavam de verminoses. Nos de história, pessoas negras sempre apareciam acorrentadas ou trabalhando em funções socialmente desprezíveis. Assim como um texto escrito, a fotografia é um texto repleto de intencionalidade. Não há neutralidade nas imagens, e as crianças entenderam isso.

Elas escolheram como gostariam de ser representadas e vistas: sorrindo, brincando e correndo. Sorrir, brincar e correr são atos de insubordinação para crianças em contexto de extrema violência. Os registros feitos pelas crianças são insubmissos à dor e à opressão imposta às crianças do Complexo da Pedreira.

Elas determinam como eu devo olhar para elas. Elas são a vida se desdobrando em vida.

A prática da fotografia na mão dos pequenos
aconteceu também em um passeio ao Pão de Açúcar
no dia 03 de julho de 2024.