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Diário Cristine Takuá

OS CAMINHOS DAS APRENDIZAGENS

By 14 de maio de 2026No Comments
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OS CAMINHOS DAS APRENDIZAGENS
Cristine Takuá

14 de maio de 2026

 

“De onde brotam os cantos?

Os cantos não nascem da boca.

Eles não são inventados pelo pensamento,

Nem aprendidos como quem aprende palavras.

Os cantos brotam de onde a gente não manda.

Brotam do tabaco, do nixi paë levando o pedido

E trazendo de volta a lembrança antiga

Que já estava guardada antes de nós.

Virando passagem para o que vive invisível.

Brotam dos encantados,

Dos donos da mata, das águas, das pedras,

Dos antigos que vivem na sagrada floresta.

O canto vem quando eles querem.

Não é o cantor que chama o canto,

É o canto que escolhe quem pode segurar ele.

Por isso o canto tem força.

Porque não é nosso, é do território, é do sopro dos espíritos, do silêncio da noite,

Do coração que aprende a escutar.

E quando o canto vem,

A gente só empresta a voz…”

(Leo Wera, Escola Viva Guarani)

 

Entre mares, florestas e montanhas, as Escolas Vivas seguem semeando e convidando a todos a repensar os processos, os percursos e os caminhos das aprendizagens e formas de transmissão de saberes. Saber e conhecer são mundos muito complexos quando pensamos nas tecnologias antigas, nos códigos de conhecimentos que habitam nas culturas ancestrais e na linguagem profunda dos seres que habitam a floresta. Por onde caminho, ando dizendo que todo território indígena é escola viva, mas muitos foram deixando de lado a natural e viva prática de transmissão de conhecimento. Porém, algumas mestras seguem encantando os seus territórios, como Liça Pataxoop, mestra conhecedora de Minas Gerais.

“Vou começar explicando o que é um tehêy. É um instrumento de pescaria, uma armadilha pataxoop, tecida com corda de tucum e cipó, e usada para ‘teheyá’ a pesca no rio. Nós temos vários tipos de armadilha para pesca, e o tehêy é mais usado pelas mulheres e crianças pescarem nos rios. É um material para selecionar os peixes, que servem para nos alimentar. Quando você ‘terreia’, a água desce e os peixes ficam para a gente. Aí vem peixe pequeno, peixe grande. No tehêy, que é tipo uma rede, ele fica preso, e dali a gente vai pegar os peixes grandes. Os que pudermos soltar, para que eles fiquem crescendo, a gente solta. O tehêy que uso na escola é um instrumento de pescaria de conhecimento. Ele pesca a cultura de nosso povo, coloco ali as coisas da nossa religião, o nosso modo de viver, nossas histórias de vida, o trabalho, as plantas, os animais, nossa ancestralidade. O tehêy tem muitos saberes, é uma ‘escrita’ que alimenta a criança; isso é diferente da outra escrita. Ele veio dos meus sonhos, depois que cheguei a Muã Mimatxi.”

Tehêys de Liça Pataxoop

Utilizando desenhos como narrativas, dona Liça Pataxoop pratica um método de ensino que alimenta o amor à mãe Terra e reforça a cultura e a trajetória de seu povo. “Minha escrita é o tehêy, resistência e memória da nossa história.” 

Assim como Liça, mestras e mestres vêm resistindo e buscando formas próprias de aproximar crianças e jovens dos saberes antigos que dão sentido à vida e guiam como flechas as direções do bem viver.

Francy Baniwa, coordenadora da Escola Viva Baniwa, sempre fala que o sonho dela está em mostrar para a juventude que a riqueza está na floresta.Poder pescar, fazer roça, é a maior riqueza que temos. A gente está conseguindo abrir os olhos dos jovens para verem que aquele mundo deles é a coisa mais importante que existe. Que eles se orgulhem de ser artesãos, que eles se orgulhem de ser artesãos e estudantes. De ser donos de roça, mas também de ser médicos, antropólogos, biólogos… Ter esses dois mundos [de maneira] muito firme, porque a gente precisa desses dois mundos…”

Casa de Formação Madzerokai
Foto: Acervo Escola Viva Baniwa

Perceber essa riqueza, para Francy Baniwa, é valorizar aqueles em que consiste a sabedoria do território: 

“Eles são a nossa referência, pessoas que ainda estão vivas, que dá para conversar na língua, ouvir, aprender, escrever, aproveitar para fazer perguntas, aprender a cantar e dançar. A maior universidade é o território, são as comunidades, porque os professores são eles, que estão vivos e dispostos a compartilhar […] Esse é o objetivo da Escola Viva. Essa valorização do conhecimento que é vivo. A Escola Viva somos nós, sempre fomos nós, desde acordar até dormir. Esse contato com o rio é escola viva, esse contato com a roça é escola viva, fazer uma casa é uma escola viva. Tudo que a gente faz é uma escola viva”.

Toda essa conexão que mestras e mestres sabedores buscam fortalecer é  um fio condutor que eles vêm há muitos séculos praticando através da ciência da floresta, das tecnologias naturais e das inteligências ancestrais que brotam da terra e pulsam nas mãos, brilham nos olhos e irradiam nos corações das Escolas Vivas.

Francisco Fontes Baniwa e jovens Baniwa
Foto: Acervo Escola Viva Baniwa

Seguimos buscando alcançar a leveza, como nas palavras da avozinha Laura, da Tekoa Jasy Porã de Puerto Iguaçu, em meio à Yvyrupa: 

Tenho tempo para contar as estrelas, tempo para colocar meus sonhos em dia, para dançar com os pássaros sentindo o ar fresco do amanhecer e conversar silenciosamente com os animais, com as plantas, com os espíritos”.

Sueli Maxakali tecendo com fibra de embaúba

Sueli Maxakali tecendo com fibra de embaúba
Fotos: Cristine Takuá e Clara Machado