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Escolas Vivas

HISTÓRIAS E ESTRELAS MADZEROKAI CHEGAM EM GENEBRA

By 18 de maio de 2026No Comments
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HISTÓRIAS E ESTRELAS MADZEROKAI CHEGAM EM GENEBRA

18 de maio de 2026

Neste mês, uma parte da Madzerokai, a Escola Viva Baniwa, chegou ao Museu Etnográfico de Genebra (Museé d’Ethnographie de Genève), na Suíça. A instalação “Hiwirhi Ipaattoni”, em portguês “Caixa de Estrelas”, começou a ser produzida pela Escola Viva Baniwa durante a residência artística Waphia Warapaka, em julho de 2025, e se desdobrou em uma obra comissionada que agora faz parte da exposição “O que é o futuro?” (“Le futur, c’est quoi?”), inaugurada dia 07 de maio e em cartaz até 10 de janeiro de 2027.

Instalação “Hiwirhi Ipaattoni”/“Caixa de Estrelas” com rede e projeções baniwa na exposição “O que é o futuro?”, em Genebra.

“Hiwirhi Ipaattoni”/“Caixa de Estrelas” é uma vídeo-instalação que configura uma das quatro obras da mostra voltada para uma conversa entre ancestralidade e os arquivos do museu. A “Caixa de Estrelas” se encontra no eixo expositivo “Futuro ancestral” e articula duas projeções, uma na parede e outra no teto. Enquanto a primeira exibe um filme com narrativas de origem baniwa encenadas pela comunidade de Assunção, feito durante a residência em julho do ano passado, no teto estão os desenhos de Frank Baniwa das constelações presentes nas narrativas. Com narração de Francisco Fontes Baniwa, considerado maadzero (“sábio”, na língua baniwa), o filme é uma ficção sobre as três narrativas de origem das constelações Buya Wasu (cobra grande), Tatu e Siusi (sem tradução para o português), onde a maloca virou set e crianças e jovens participaram filmando, gravando som e fazendo os personagens. 

Trecho do filme feito pela Escola Viva Baniwa durante a residência Waphia Warapaka, em julho de 2025.

Na narrativa, o senhor Francisco Fontes faz uma correlação entre os conhecimentos ancestrais sobre as constelações e a crise climática, contando como, antigamente, as estrelas orientavam os ciclos da vida, da pesca ao cultivo da roça, conectando os movimentos do céu às épocas do ano, à presença de determinados peixes e até mesmo ao controle natural das saúvas. Hoje em dia, muitos desses ritmos já não correspondem mais à posição das estrelas no céu, o que mostra como os impactos ambientais afetam equilíbrios entre natureza, tempo e modos de vida.

A residência que deu origem a obra foi uma parceira entre a Escola Viva Baniwa, localizada na comunidade de Assunção do Içana, no Alto Rio Negro, o coletivo Mi Mawai, selo musical transmídia e interdisciplinar artístico, que desde de 2022 vem tecendo conjuntamente um projeto de arquivo musical baniwa chamado “Waphia Warapaka” (em português, “Sopramos nossas danças”) sobre as musicalidades da comunidade, e o L’Abri Genève, um espaço artístico-cultural de Genebra. 

O filme projetado em “Hiwirhi Ipaattoni”/“Caixa de Estrelas” materializa a memória musical e linguística do povo baniwa ao reunir cantos em baniwa, como os benobeno, um gênero musical tradicional do povo, e também cantos de outros povos da região. Além disso, o registro sonoro e visual de instrumentos como as flautas japurutu e kariçu faz com que esses saberes, sons e práticas permaneçam vivos através do filme. 

A instalação também apresenta uma escultura de Frank de Buya Wasu, a cobra grande, produzida durante três semanas em Genebra, no mês de março de 2026, ocasião em que também fez as animações que integram o filme. A “Caixa de Estrelas” conta, ainda, com uma rede para o público assistir às projeções, criada por Nathalia Martins, outra artista da comunidade de Assunção.

Escultura da Buya Wasu, a cobra-grande, por Frank Baniwa.

Para Lucas Canavarro, que acompanhou o projeto desde o início, existe uma sensação de completude ao perceber que, a partir das alianças construídas com a Escola Viva Baniwa, esses cantos, desenhos e saberes agora reverberam dentro de um museu às margens de um outro rio, atravessando novas geografias e imaginários. Falando sobre a presença das sabedorias do grande conhecedor Francisco Fontes na exposição, Lucas conta: “estamos trazendo um ancião baniwa para contar narrativas do seu povo, o que gera uma capacidade de conexão para além do mero objeto. Uma possibilidade de conexão espiritual mesmo”. 

A exposição, voltada especialmente para crianças e adolescentes, aposta em uma dimensão lúdica, mas também evidencia tensões presentes na relação com museus etnográficos europeus, instituições que muitas vezes operam como bancos que guardam tesouros, mantendo uma lógica de preservação distante das relações vivas que constituem esses conhecimentos.

Inserir narrativas indígenas dentro do museu, protagonizadas pelos próprios povos, abre fissuras importantes nesses sistemas, colocando pessoas e pensamentos em diálogo através da arte. O convite para estar no Museu Etnográfico de Genebra é fruto de três anos de intercâmbio entre a Escola Viva Baniwa, o Mi Mawai e o L’Abri, aproximação que também confluiu para a oportunidade de Frank trocar artistas suíços e aproximar criações muito distintas na residência em Genebra que antecedeu a exposição. 

Se, nas cosmologias do Alto Rio Negro, a cobra-grande conduz os percursos que organizaram o mundo e as estrelas aparecem como guias capazes de manter o equilíbrio do tempo e do universo, juntas essas presenças se tornam uma forma de atravessar o cosmos de dentro do museu, onde uma viagem pelo universo começa por dentro de cada espectador.

Instalação “Hiwirhi Ipaattoni”/“Caixa de Estrelas”.

Em junho, a Escola Viva Baniwa participa de uma outra exposição, voltada para o movimento das Escolas Vivas. Com abertura no dia 9 de junho, e em cartaz até o dia 9 de agosto, a nova exposição “Viva Viva Escola Viva” chega ao Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, trazendo mais artistas e obras que entendem arte, vida e educação como sinônimos. Saiba mais em: https://selvagemciclo.org.br/viva-viva-escola-viva-sp/

Frank Baniwa é da etnia Baniwa, de clã Waliperidakenai, nascido na comunidade de Assunção do Içana, filho do senhor Francisco Luis Fontes (Francisco Baniwa) e da dona Lúcia Bitencourt, ambos agricultores e artesãos. Desde criança, sempre gostou de desenhar e pintar, e diz que grande parte do seu talento vem dos seus pais. 

Lucas Canavarro é doutorando em Artes Visuais pela UFBA e atualmente mora em Salvador. Nascido no Rio de Janeiro, é cineasta, editor e curador, atuando com Mi Mawai há 10 anos e trabalhando na coordenação do projeto Guanabara Pyranga há 3 anos.

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