Skip to main content
Diário Veronica Pinheiro

EU NÃO SABIA QUE ERA TÃO BONITO

By 11 de junho de 2024novembro 27th, 2025No Comments
Voltar
Início
EU NÃO SABIA QUE ERA TÃO BONITO
Veronica Pinheiro

11 de junho de 2024

 

 

“A GENTE PRECISA APRENDER A SE ENVOLVER COM A TERRA, COM OS NOSSOS RIOS, FLORESTAS E MONTANHAS.
Envolver não significa essa bobagem de interesse privado de ser dono daquele rio.”
Ailton Krenak¹

 

Choveu tanto na tarde e na noite do dia 04 de junho na cidade do Rio de Janeiro que perdi a conta das pessoas que mandaram mensagem perguntando se a visita ao Pão de Açúcar, dia 05 de junho, seria cancelada. Chegamos à segunda imersão do Percurso Aprendizagens: o encontro das crianças com as águas da Baía de Guanabara. Quando confirmado o encontro, não havia previsão de chuvas para o dia do passeio. A previsão mudou, mas optei por confiar nas águas e no Sol. O encontro não foi desmarcado. Saí de casa com muita chuva. Chegamos à escola para encontrar as crianças debaixo de chuva. No entanto, optei por confiar nas águas e no Sol.

Tania e Ericka, companheiras de sonhos e Sol, foram direto para o local de visita. “Veronica, aqui não chove. Muitas nuvens.” “Diga ao Sol que contamos com ele. Diga a ele que as crianças já já sairão da escola”. Café da manhã servido na escola, era hora de embarcar no ônibus rosa e reencontrar nosso gentil motorista.

Um acordo não palavrado ficou firmado na Favela da Pedreira: Se o ônibus rosa está presente, as crianças vão passear; logo é preciso que elas saiam e retornem à favela com tranquilidade. Os caminhos que levam à escola são desobstruídos para que nosso ônibus passe, somos observados do embarque até a saída do complexo. As crianças não percebem que a comunidade de alguma forma também muda sua rotina para que elas vivam dias de alegrias. Me comoveu ver que a comunidade e o poder paralelo se preocupa com o bem-estar das crianças e professores.

Saímos da escola. Não chovia mais. “Vamos subir e ver nuvens; com o tempo nublado não dará pra ver nada.” Ouvi, não respondi, pois confiava nas águas e no Sol. A caminho do Pão de Açúcar, passamos pelo Rio Acari. Nosso rio querido, que corta toda região da escola. Um rio largo que nos ouve. Um rio testemunha da vida e do terror imposto à região. Um rio que ainda guarda seus encantos, jacarés e capivaras. O Rio Acari é um dos maiores cursos de água do Rio de Janeiro, ele é o motivo do nosso passeio². Acari é tão forte que macrobiologicamente resistiu até pouco tempo. Nos despedimos do rio e seguimos viagem. Percorremos 40 km até o Pão de Açúcar. Subimos o Morro da Urca e o Morro do Pão de Açúcar para observar de cima as águas da Baía de Guanabara.

Durante a vivência, as águas e o Sol nos receberam como quem recebe parentes queridos. Não chovia, as nuvens se recolheram num outro lugar para que pudéssemos contemplar tudo quanto se era possível ver das alturas. O Sol nos guardou na subida e descida dos morros, seu brilho refletido nas águas encantou todo grupo. Foi a primeira vez que não vi medo nos olhos das crianças. As crianças se abraçavam e andavam de mão dadas. Sorriam sorrisos largos e duradouros. Tinha hora que eu jurava que via os sorrisos delas refletidos no mar. Algumas choraram. Duas choraram muito e não sabiam dizer exatamente o porquê. Ao contrário dos sorrisos, os choros eram curtos e breves. Tenho certeza de que era só o mar que mora dentro do peito e que não quis se conter.

Éramos 10 adultos no passeio, e lá entendi que não haveria mediação. Cada adulto tinha 4 crianças para acompanhar. Andávamos bem próximos, era dia de festa. Eu pouco falei, a natureza não carece de mediador. As águas, o Sol, as Plantas, os Pássaros, os Micos, o Vento falavam tanto, tanto, que me assustei com tamanha receptividade. Tudo chamava muita atenção das crianças, os aviões que pousavam bem na nossa frente, os turistas falando inglês, as plaquinhas que um amigo lia para o outro que não sabia ler. “Tá escrito que a baleia vai passar aqui até setembro” “Jura! É hoje? Lê direito e veja se tem dia.” A baleia não passou no dia 05 de junho.

Muita coisa foi curada em nós naquele dia. Há quem tenha horror em ouvir que a educação pode curar. Aprendi com os mais velhos quilombolas e indígenas que tudo pode ser cura: cantos, palavras, comidas, abraços, conselhos. Quando estávamos nos encaminhando para descer, um helicóptero pousou no heliponto do Pão de Açúcar.

“Tia, o que o helicóptero quer?”

“Ele não quer nada, meu filho.”

“Tia é tiro?”

“Não. São pessoas passeando, elas entram no helicóptero para passear e ver toda cidade de cima.”

O menino de 11 anos só conhecia o helicóptero no contexto da guerra urbana. A polícia no Rio de Janeiro tem uma frota de helicópteros. As aeronaves blindadas são utilizadas em operações policiais, e os meninos sabem que quando tem helicóptero é que a situação está pior que o habitual. O helicóptero da reportagem eles também conheciam. Mas helicóptero de passeio? De passeio, não. Isso porque a cidade separa. A cidade tem muros rígidos para excluir muitos e guardar alguns. O capitalismo determina os significados que os signos terão dentro de uma mesma cidade: para meu aluno, helicóptero significa perigo; para turistas, diversão.

Mas a minha observação sobre as cidades é que elas funcionam como um verdadeiro sumidouro de energia.” Ailton Krenak

“Tia, então a gente tá na Europa?”

A pergunta me doeu o peito, não pelo desconhecimento geográfico. Mas por esse menino entender que não faz parte daquele Rio de Janeiro. Porém era dia de festas e encontros de vida. Mais uma vez a vida presente na natureza, a mesma vida natureza que sustenta o menino, nos abraçou novamente. Suspensos no ar, dentro do teleférico éramos só gente, ar, montanha, água, pássaros, Sol e água. O mesmo menino chorou abraçado à diretora da escola. Ele me disse que não vai esquecer de cuidar da natureza.“Tia, eu não sabia que era tão bonito.” “Você é natureza, igualzinho a essas montanhas e as águas da baía.”

Esse passeio inaugurou um outro movimento de conversas sobre a vida das pessoas e  sobre a vida dos rios na escola.

Ahh, quando descemos do bondinho, as nuvens recobriram os céus naquele lugar. Pedi a chuva para esperar a gente voltar pra casa. Ela nos ouviu.

Quando foi transferido o sentido da vida para ter coisas, a gente já começou a se afastar da Mãe Terra. Essa mãe maravilhosa que chama a atenção da gente, inclusive para falar: “Ei, vocês estão vivos”. Quando uma mãe dá uma bronca dentro de casa, ela não está só dando uma bronca para a gente não estragar a casa, ela está dando uma bronca para dizer: “Vocês estão vivos”. Pra gente não se alienar do sentido de estar vivo. (Ailton Krenak)

Fotos: Ericka Hoch

 

__________________

¹ “Trocamos nossa humanidade por coisas.” https://revistatrip.uol.com.br/trip-fm/ailton-krenak-trocamos-nossa-humanidade-por-coisas

² “Cadê o rio que estava aqui?” https://selvagemciclo.org.br/diario-de-aprendizagens/#tab-1717677150043-1