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Veronica Pinheiro's Diary

BORDANDO MEMÓRIAS DA PEDREIRA: Oficina de bordado na Escola Municipal Professor Escragnolle Dória, Rio de Janeiro

By 14 de May de 2026No Comments
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BORDANDO MEMÓRIAS DA PEDREIRA
Oficina de bordado na Escola Municipal Professor Escragnolle Dória, Rio de Janeiro
Veronica Pinheiro

14 de maio de 2026

Foto: Rosemberg Awni

Pedimos licença para chegar. E com a bênção dos mais velhos da Pedreira e a gentileza das crianças que carregam o morro inteiro dentro dos olhos, voltamos à Escola Municipal Professor Escragnolle Dória para realizar a primeira oficina LAS¹ de 2026. Chegamos à escola carregando linhas, bastidores e agulhas de bordar. Antes dos pontos, vieram as histórias. Antes do bordado, vieram as crianças. Antes da técnica, a favela.

 A Pedreira fala alto.

As ruas falam alto. Os fios nos postes falam alto. Os bailes falam alto. Os cachorros latem alto. Os ônibus, as “vans” e as motos atravessam alto. Lá a vida inteira parece gritar para continuar existindo. Mas, naqueles dias, o silêncio entrou na escola. Não um silêncio de ausência. Um silêncio de presença profunda. O mesmo silêncio que antecede o bordado, quando a linha encontra a saliva na boca antes de encontrar o fundo da agulha. O silêncio das mãos pensando. O silêncio das crianças aprendendo a escutar os próprios movimentos.

“Ponto Alinhavo. Ponto Atrás. Ponto Pirulito. Ponto Cheio.”

Photo: Carol Delgado

As crianças começaram a bordar a favela, suas pessoas e suas memórias. Primeiro vieram as pipas. Depois as lajes. Depois os becos. Depois os céus atravessados por fios. Depois apareceram as pessoas que teceram a vida do lugar. Algumas crianças bordavam as próprias casas. Outras bordavam lembranças. Algumas nem sabiam exatamente o que estavam bordando, apenas seguiam puxando linha como quem tenta alcançar alguma memória ainda escondida ou uma memória que ainda virá a ser.

A oficina havia sido pensada como prática de arte têxtil, memória, território e imaginação. Mas as crianças transformaram tudo em outra coisa. Transformaram a atividade em roda de pertencimento. Elas sempre transformam tudo.

Enquanto bordavam, conversavam sobre mães, avós, brincadeiras, tiros, bailes, igrejas, medos e sonhos. As linhas começaram a costurar assuntos que a escola quase nunca consegue tocar. Havia quem tivesse medo da agulha. Havia quem aprendesse o ponto e imediatamente ensinasse ao colega do lado. Havia quem errasse feliz, pois “erro” não havia.

Fotos: Rosemberg Awni

Os bordados não tinham autoria.

Uma criança começava. Outra continuava. Outra inventava um detalhe novo. Uma turma herdava os caminhos da linha deixados pela turma anterior. Como acontece nas ruas da favela. Como acontece nas famílias. Como acontece na vida comunitária. Todo movimento é continuidade. Ninguém vive sozinho. Nenhuma memória nasce sozinha. Tudo é continuidade do que já foi. 

Uma ação como essa mobiliza dimensões muito profundas, porque desloca a criança da lógica individualizada de produção para uma experiência coletiva de construção de sentido. Quando uma criança inicia um bordado e outra o continua, cria-se uma pedagogia da continuidade, na qual o conhecimento deixa de ser entendido como propriedade individual e passa a ser vivido como travessia.

A criança aprende que sua criação não termina nela mesma. Isso diminui a ansiedade do desempenho individual e rompe, ainda que temporariamente, com modelos escolares excessivamente competitivos e meritocráticos. O erro deixa de ser ameaça, porque o trabalho permanece aberto ao gesto do outro. Isso produziu maior segurança afetiva e disponibilidade para experimentar.

Fotos: Carol Delgado e Veronica Pinheiro

Ponto sem nó

Percebemos então que estávamos ensinando pouco sobre bordado. Na verdade, estávamos reaprendendo formas coletivas de existir. Thais Reis², nossa professora de bordado, conduzia as crianças com delicadeza de quem conhece o tempo das mãos. Algumas professoras observavam emocionadas os pequenos corpos concentrados. As voluntárias, Cláudia Daher³ e Eliane Brígida Falcão4, caminhavam entre as mesas ajudando nos nós, desembaraçando linhas, escutando histórias. Observamos tudo tentando compreender em que momento o tecido havia deixado de ser tecido para se tornar caminho. Recebemos fotografias de pessoas da comunidade e essas imagens viraram desenhos. Algumas dessas pessoas apareceram na escola para ver os próprios caminhos bordados. Outras mandaram recados. Outras quiseram contar histórias. De repente, a oficina já não cabia mais na sala de aula. A moradora mais antiga da favela da Pedreira irá nos receber em sua casa.

Foto: Rosemberg Awni

Talvez seja isso uma memória viva.

Uma memória viva porque não se trata de uma lembrança parada no passado, mas algo que continua acontecendo entre as pessoas. Algo que respira. Algo que pede continuidade. Como as linhas que seguem atravessando o tecido mesmo quando a mão que iniciou o bordado já não está mais ali.

Uma professora escreveu, depois da oficina, dizendo que as crianças descobriram que eram capazes. Ficamos pensando nisso durante a volta para casa. Quantas vezes a escola oferece às crianças apenas a experiência da incapacidade? Quantas vezes o erro pesa mais que a invenção? Quantas vezes uma criança periférica escuta mais “não” do que qualquer outra palavra?

Naquele dia, as crianças bordaram sem medo de errar.

Talvez porque o bordado saiba uma coisa que a escola esqueceu: toda linha pode recomeçar noutro lugar.

Ao final do encontro, os tecidos estavam espalhados pelas mesas da escola como pequenos mapas afetivos da favela. Havia céus, escadas, fios, quadras, casas, árvores, nomes, sóis, pipas e caminhos costurados pelas crianças. Um fragmento de Pedreira aparecia bordada sobre pano cru. Talvez juntamos “Cacos de lenda”, como dizia Alemberg Quindins.²

Voltamos para casa com as mãos cansadas e o coração aceso. Ainda falta um dia de oficina. Pensamos nas crianças bordadeiras de memória. Pensamos nas diretoras Daniele Oziene, Genicelle Colchone e Vera Lavatori, que continuam insistindo delicadamente na vida. Pensamos que talvez educar seja auxiliar alguém a perceber que sua existência merece ser inscrita no mundo.

Por aqui seguimos. Entre linhas, agulhas, memórias e crianças. 

Em estado de “Ponto-cheio”.

Foto: Rosemberg Awni

1 Laboratório de Aprendizagens Selvagem.

2 Thaís Reis é geógrafa e artesã, desenvolve um trabalho que articula arte, cultura e práticas coletivas. Aprendeu a crochetar ainda na adolescência, em um grupo de mulheres, experiência que marcou sua relação com o fazer manual como espaço de troca e afeto, e tem como inspiração os bordados produzidos por sua avó, Maria Helena. Atua com a facilitação de oficinas de bordado e outras técnicas artesanais, onde o fazer manual é trabalhado como ferramenta de criação, escuta e expressão, valorizando processos e incentivando cada participante a desenvolver sua própria linguagem.

3 Claudia Daher é aprendiz das linhas e dos traços. Formada em Design Gráfico pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), atualmente é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisa a imagem, a arte e as bordas, acompanhada da percepção de Fernand Deligny e seus encontros com a educação, a antropologia e a clínica.

4 Eliane Brígida Falcão é professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e atua no GT Estado Laico da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

https://www.youtube.com/watch?v=wiNkrbEGH54&t=2s