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A CASA DE FORMAÇÃO MADZEROKAI: um novo umbigo do mundo

By 30 de April de 2026#!31Tue, 05 May 2026 11:29:39 -0300-03:003931#31Tue, 05 May 2026 11:29:39 -0300-03:00-11America/Sao_Paulo3131America/Sao_Paulo202631 05am31am-31Tue, 05 May 2026 11:29:39 -0300-03:0011America/Sao_Paulo3131America/Sao_Paulo2026312026Tue, 05 May 2026 11:29:39 -03002911295amTuesday=821#!31Tue, 05 May 2026 11:29:39 -0300-03:00America/Sao_Paulo5#May 5th, 2026#!31Tue, 05 May 2026 11:29:39 -0300-03:003931#/31Tue, 05 May 2026 11:29:39 -0300-03:00-11America/Sao_Paulo3131America/Sao_Paulo202631#!31Tue, 05 May 2026 11:29:39 -0300-03:00America/Sao_Paulo5#No Comments
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A CASA DE FORMAÇÃO MADZEROKAI:
um novo umbigo do mundo

30 de abril de 2026

 

Sonhos podem ter muitas formas, vir de muitos lugares e atravessar diferentes tempos. Sonhos não andam sozinhos, mas conectam seres, sentimentos e saberes. Sonhos podem ser imagens, mas também cheiros, texturas e movimentos. Sonhos constroem mundos e podem ser construídos também. 

A Casa de Formação Madzerokai nasceu como um sonho da comunidade Pitsironai, também conhecida como Wanaliana em baniwa, mas também chamada de Assunção do Içana em português. Agora, ela também participa do seu mundo desperto. O espaço foi projetado para ser a nova sede da Escola Viva Baniwa Madzerokai, um centro de convivência e de transmissão da cultura baniwa não só para a comunidade de Assunção, mas para as 96 comunidades do território do povo Baniwa, divididas em microrregiões no Rio Içana, e do povo Koripako, que vive no Alto Rio Içana, também na Terra Indígena Alto do Rio Negro, entre o Brasil e a Colômbia.

Projeto da sede da Madzerokai (casa central), incluindo as casas menores já construídas, feito durante a visita de Cris Takuá e Anna Dantes à Escola Viva Baniwa Madzerokai, em 2025

Francy Baniwa, coordenadora da Escola Viva Madzerokai, com o desenho de projeção da Casa de Formação em maio de 2025

Etapas de finalização da Casa de Formação, março de 2026

Construído por mestres, mestras, parteiras e outros conhecedores dos saberes baniwa, além de jovens da comunidade, a Casa de Formação Madzerokai foi tecida coletivamente, mesmo quando era apenas uma ideia. A escolha do tipo de madeira, a durabilidade dos materiais, o tempo, o tamanho e o local da construção foram pensados e organizados em conjunto, onde por trás de cada decisão havia um significado. As técnicas de retirada e de amarração dos cipós uambé para as ripas e caibros do espaço, o transporte da madeira muruã (que, em baniwa, significa “umbigo”) para ser o suporte central da palhoça, a limpeza ao redor da construção, a coleta de arumã para a confecção de esteiras, e até mesmo os almoços com xibé e farinha com açaí durante o trabalho, foram aulas vivas pois “a construção é uma verdadeira ciência indígena, uma arquitetura ancestral”, contou Francy Baniwa, coordenadora da Escola Viva Baniwa Madzerokai.

Através da força dos trabalhos coletivos, chamados de “ajuri/wayuri” em nheengatu, diferentes gerações estiveram unidas pela vontade comum de fortalecer o território, de valorizar o conhecimento de pais, avós, tias e tios, e de semear esse espaço como legado que reúne o protagonismo da juventude com a sabedoria dos mais velhos. “Acredito que este espaço, para nós, é muito significativo para a nova geração, onde poderemos ensinar, praticar, valorizar, reviver a cultura milenar do povo Baniwa e Koripako”, disse a mestra Maria Bidoca, que esteve na linha de frente da construção. Para o mestre Miguel, que também acompanhou todo o processo, o centro de vivência “vai ser muito importante para nós, porque já sabemos, já olhamos, já pensamos que nesse lugar iremos viver, praticar, ensinar a nossa cultura, a nossa história, a nossa tradição para os nossos alunos, filhos e netos. Servirão muito bem para o povo Baniwa e Koripako, que moram no Rio Içana”. Nas palavras de Francy, “esse espaço representa tudo: o território, a comunidade, os lugares sagrados, outros humanos, nossa cosmologia, nossas narrativas, nosso cotidiano, nossos corpos, nossas roças, nossas técnicas, nosso mundo baniwa. Esse espaço vai nos proporcionar, e já está nos proporcionando, essa teia de conhecimento. Essa teia de formação. Essa rede de conexões entre mundos, entre esse território, entre técnicas, saberes, processos, origem”.

Construção em fevereiro de 2026

Construção em fevereiro de 2026

Depois de todo um período de violências vividas na região por conta da colonização, que, segundo mestre Miguel, “fez com que o povo baniwa não pudesse praticar nem viver sua cultura milenar”, ter um espaço para as danças, para as cerimônias, para a construção de instrumentos tradicionais como as flautas japurutu, para a confecção de artesanatos, para ensinar e conhecer os saberes dos povos Baniwa e Koripako é motivo de muita comemoração. A comunidade Wanaliana/Bitiro Ponta começou um processo de retomada no Rio Içana com a construção da primeira maloca após 40 anos de ocupação missionária, movimento que prosseguiu com a implementação das primeiras aulas e salas de aula do Ensino Médio no Içana, em 2024, sendo “um lugar histórico, muito significativo”, contou Francy. 

Para ela, acompanhar e organizar essa construção junto aos conhecedores da comunidade foi um grande aprendizado enquanto coordenadora da Escola Viva Baniwa Madzerokai. Francy sente muito orgulho de seu pai, Francisco Fontes, considerado “maadzero” (sábio em baniwa) pela comunidade, que, junto de outros conhecedores, esteve na linha de frente da construção, assim como das mulheres e mestras donas de roças que também contribuíram com seus conhecimentos. “Pra mim, os mestres da Escola Viva são, de fato, mestres vivos e isso me deixa muito orgulhosa de poder sempre aprender com meus mestres vivos, que são minhas grandes referências de vida, de estudo, de vivência. Pra mim, esse centro de vivência, ou centro de formação Baniwa Madzerokai, é uma casa viva porque foi feita pelas mãos de grandes mestres, grandes arquitetos, grandes historiadores, antropólogos, biólogos que são os nossos pais”, disse. 

Antes de ser sonho, a ideia de um espaço para guardar e compartilhar os saberes baniwa no Rio Içana parecia muito distante. Mestre Miguel conta que, apesar de terem sido construídas várias malocas e casas de saberes para sediar reuniões, eventos e oficinas, ainda não era o suficiente para se viver a cultura baniwa. Para ele, foi com a chegada da Escola Viva Baniwa Madzerokai que isso mudou. Segundo Francy, foi a partir do movimento das Escolas Vivas que esse sonho foi abraçado e acolhido, que começou a se aproximar, e hoje é motivo de tanta alegria para a comunidade. Nas suas palavras, foi quando Cristine Takuá e Anna Dantes “estiveram na comunidade, em abril de 2025, que a gente viu esse sonho perto. Um sonho que se tornou real aos olhos e ouvidos da comunidade com essa certeza de um ‘vamos fazer’”.

“Acho que esse espaço, de fato, é o nosso museu vivo. Onde vamos viver, sentir, sonhar, degustar, projetar e realizar. E a gente vai continuar sonhando que esse espaço seja referência nos saberes, na cultura e no conhecimento indígena. Acho que esse espaço é nossa vida, nosso umbigo do mundo, nosso coração, nossa alma, nosso espaço sagrado”, completou Francy. Autora do livro “Umbigo do Mundo” (Dantes, 2023) sobre a mitologia baniwa a partir da escuta das narrativas míticas através de seu pai Francisco Fontes, Francy também pegou emprestada essa expressão ancestral para falar da Casa de Formação Madzerokai ao se referir a ela como continuidade da vida baniwa, que começou muito antes do mundo como conhecemos hoje e que permanece no presente entrelaçando gerações e mundos, compondo um legado para a humanidade que fortalece, cultiva e cuida da memória de seu povo.

Desenho da obra “Umbigo do mundo” que participará da exposição das Escolas Vivas no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
Acervo Escola Viva Baniwa Madzerokai

Projetada em abril de 2025 e concluída em março de 2026, a velocidade com que a Casa de Formação Madzerokai ficou pronta reflete todo esse esforço, cuidado e dedicação coletivos da comunidade. Em menos de um ano, o que era um desejo tornou-se um espaço vivo graças ao compromisso de todos aqueles que fazem parte de uma história que só está começando. A casa de vivência está na fase de últimas finalizações, se preparando, mais do que nunca, para acolher plenamente as atividades, os saberes e os encontros que estão por vir.

Etapas de finalização da Casa de Formação, março de 2026

Etapas de finalização da Casa de Formação, março de 2026

A sua inauguração será feita com danças, cantos, adornos, defumação e, claro, muita comida. Francy conta que será feito um grande Podáali (ritual de oferecimento) entre a comunidade local e aqueles que quiserem visitar e conhecer em primeira mão o novo umbigo do mundo.