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Diário Veronica Pinheiro

O SOL HÁ DE BRILHAR MAIS UMA VEZ

By 13 de agosto de 2024novembro 27th, 2025No Comments
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O SOL HÁ DE BRILHAR MAIS UMA VEZ
Veronica Pinheiro

13 de agosto de 2024

 

 

“O único jeito de guardar dados a longo prazo, tipo verdadeiro longo prazo, é em relações intergeracionais, onde dados são guardados em narrativas, narrativas intergeracionais. Podem durar quarenta, cinquenta, sessenta mil anos. Podem durar enquanto houver relações continuadas – aqueles dados durarão. É a única maneira de guardar dados a longo prazo”
Tyson Junkaporta¹

 

Um dia ouvi do mestre Nego Bispo: “Não somos decoloniais, somos contracoloniais. Você não precisa da academia para falar das coisas que sua avó lhe ensinou. Foram as coisas que sua avó lhe ensinou que mantiveram você viva”. Diariamente professores, educadores e estudantes me perguntam sobre referências bibliográficas. Fomos educados para confiar no que dizem os livros. Porém, antes de existirem livros sobre plantas medicinais, raizeiros, pajés, rezadeiras compartilhavam com suas comunidades medicinas e terapias. Os saberes intergeracionais seguem fluindo e confluindo. Não refluem. Os saberes acadêmicos refluem: por exemplo, a eugenia já teve validade científica. Hoje, a eugenia não tem comprovação nem validade para a ciência. Quando não há circularidade, você vai ter que voltar por onde você foi.

As narrativas intergeracionais são circulares: ao mesmo tempo que vai, algo fica; ao mesmo tempo que fica, vai. Uma educação que pensa despertar memórias busca fortalecer as conexões das crianças com o território, fortalecer vínculos, saberes e práticas de vida que lá existem. Na circularidade, o que já se foi, o que é e o que virá estão sensivelmente conectados. A narrativa é o fio que estrutura essa trama de vida. As narrativas guardam a consciência do que somos. As narrativas geracionais não são apenas para o despertamento de uma consciência sociohistórica, elas mantêm pilares que possibilitam uma leitura de si por meio dos seus próprios olhos.

Contamos histórias para pensar mundos possíveis. Mundos onde caibam os diversos, os cosmológicos, os naturais, os orgânicos. No mundo Bakongo, por exemplo, a palavra Ubuntu, não traduzível diretamente, exprime a consciência da relação entre o indivíduo, a comunidade e tudo o que existe. Segundo a filosofia africana Bakongo, quando nasce um ser humano (untu), nasce um sol. E o bem viver é alcançado quando todos os sóis estiverem acesos.

De certa forma, as histórias possibilitam que os sóis continuem brilhando. Quando Kauê Karai Tataendy, uma criança Guarani, me pergunta como eu organizo minhas oficinas e se ele pode levar os materiais para recriar junto com Flávio, seu amigo, os desenhos na aldeia, penso que, de alguma forma, estamos nos animando mais uma vez. O amor de Kauê por Flávio, somado ao desejo de compartilhar com o amigo tudo que aprendeu, mantêm os sóis um do outro acesos. Kauê se move para que o sol de Flávio continue brilhando.

O compartilhamento é a energia que nos move. Enquanto existirem confluências e compartilhamentos, o Sol há de brilhar mais uma vez.

 

Nos animemos mais uma vez. Nós somos filhos do sagrado.

Re existimos diariamente sob o Sol.

 

¹Tradução de Gerrie Schrik – A fala de Tyson Junkaporta pode ser acessada aqui https://emergencemagazine.org/interview/deep-time-diligence/