QUANDO O QUINTAL VIRA PALCO, E O PALCO VIRA QUINTAL:
memórias de flor, memórias Selvagem
14 de abril de 2026
Desde pequeno, o dançarino e coreógrafo colombiano Maurício Florez carrega no nome um desejo: ser flor. É contando sobre essa vontade que começa sua peça “Memórias para se transformar em flor”, que, após sua estreia em 2024, vem metamorfoseando diferentes palcos brasileiros, inspirado pela pitangueira de seu quintal, pelas aulas na Escola de Botânica e por conteúdos da Selvagem, que vem acompanhando de perto há muitos anos. A peça começou em São Paulo e, como as plantas, foi se enredando e emaranhando por festivais e espaços culturais, integrando também diferentes circuitos do SESC. Em março de 2026, o espetáculo chegou ao SESC Copacabana, no Rio de Janeiro, propondo uma floresta de memórias pessoais e coletivas, humanas e não humanas.
De alguma maneira, “os cadernos da Selvagem atravessam todas as memórias”, contou. Tudo começou durante a pandemia, na capital paulista, quando Maurício começou a prestar mais atenção à natureza de seu quintal e a participar da Escola de Botânica e dos ciclos de estudos da Selvagem, onde começou como voluntário de Comunicação. Diante do isolamento social e de todas as tragédias ligadas à pandemia da covid-19, foi percebendo o avanço das trepadeiras, a transformação das flores em frutos e o crescimento de cada folha no jardim que veio a ideia de investigar novas formas de participar desse universo. Inspirado pela fala de Vladimir Vernadsky, presente no Caderno Selvagem Biosfera, sobre como conseguimos perceber as formas e as cores, mas que muitas vezes nos faltam mecanismos para sentí-las, Maurício passou a experimentar jeitos de ser do mundo vegetal.
Em “Memórias para se transformar em flor”, estão dispostas no palco 16 memórias das quais Maurício convida o público a evocar entre 7 e 8 na ordem que preferirem. São memórias sobre plantas, mitologias e a ideia de metamorfosear o corpo em flor, partindo de elementos da trajetória do artista para falar sobre as muitas interseções, interações e lições entre humanos e as plantas ao longo da história do mundo, e da sua própria.
Como parte de seu processo criativo, escreveu uma carta para a pitangueira do seu quintal que acabou se transformando no Caderno Selvagem “Dança e o jogo das metamorfoses”, escrito a partir das memórias da oficina de dança Metamorfoses do corpo, que ofereceu para a Comunidade Selvagem em outubro de 2022. A influência de Anderson Santos, da Escola de Botânica, também foi fundamental para que o artista investigasse na prática como a relação com a natureza é capaz de mudar a vida das pessoas.
A desconexão entre seres humanos e outros seres vivos aparece tanto em falas de cientistas quanto de lideranças e pensadores indígenas. Como, então, resgatar esse vínculo? As respostas são muitas, mas as preferidas de Maurício partiam da metamorfose, o tema central de “Memórias para se transformar em flor”. Segundo ele, pela metamorfose se torna possível criar um corpo que não só imagina, mas que se propõe a sentir os processos ricos e refinados que acontecem no interior das plantas. Processos que pedem calma e repouso, ao mesmo tempo que nunca descansam.
Fotos: Danielle Satiko.
O estudo destes processos, através da observação e da experimentação, deu origem às coreografias do espetáculo em que, assim como as flores, Maurício se molda na relação com a luz e com a gravidade. Citando o ciclo Selvagem Regenerantes de Gaia, o artista contou como se inspirou na maneira como as plantas se movimentam em repouso e repousam em movimento, assim como na capacidade das flores de voar enquanto permanecem no chão. Habitando o solo através de suas raízes e o céu por meio de seu caule, as plantas participam de dois mundos: um banhado de luz e outro acalentado pelo escuro.
Compartilhando algumas de suas referências no palco, estão dispostos juntos a um coração em uma cúpula de vidro, uma estatueta ajoelhada sobre grãos de feijão, um rosto de planta e uma caixa que guarda a dança butô, os Cadernos Selvagem “Algumas coisas que aprendi com Lynn Margulis”, “Propiocepção: quando o ambiente se torna corpo”, “Plantas como cérebros”, “Aspectos da inteligência das plantas”, “Pytun Jera: o desabrochar da noite”, junto aos livros “Metamorfoses”, de Emanuele Coccia, “Planeta Simbiótico”, de Lynn Margulis, “Biosfera”, de Vladimir Vernadsky, “Regenerantes de Gaia”, de Fabio Scarano, e “Antes o Mundo Não Existia”, de Umusï Pãrõkumu (Firmiano Arantes Lana) e Tõrãmü Këhíri (Luiz Gomes Lana). Esses livros inspiram não só Maurício, mas os estudos da Selvagem de maneira geral, e participam de uma constelação de publicações pela Dantes Editora que, no palco, passam de mão em mão por aqueles que se deixam atravessar pela curiosidade, mas que também pode ser acessada por aqui.
Criada originalmente sem falas, apenas com dança, a incorporação da oralidade em “Memórias para se transformar em flor” se deu pelo desejo de Maurício de falar sobre as transformações e aprendizagens com as flores antes mesmo que elas se desdobrassem nos movimentos de seu corpo. Para o artista, a proposta da peça está justamente em encontrar uma tradução simples para conteúdos complexos, como fórmulas matemáticas e químicas, transformando-as em sensações que conversem com todas as pessoas. Por meio de memórias que, nas palavras de Maurício, são “capazes de tocar o coração, sem perder o rigor científico”, a peça cria uma narrativa em que vida e ciência se tornam silêncio, lentidão e paciência, assim como histórias sobre a inteligência vegetal que, para muitos públicos, ainda é um tema desconhecido.
Contando sobre outros materiais de referência, o artista citou os Cadernos Selvagem “Biosfera, antropoceno e animismo ameríndio”, “Complementaridade e transformação Yepamahsã”, “O sol e a flor – Flecha 2”, “Uma vida a desenhar árvores”, “Manifesto de uma erva “daninha””, “Memória não queima” e “Teia Cósmica” para aqueles que tiverem interesse em se aprofundar mais nesse universo vegetal.
Mostrando como a natureza vegetal também é encantada, a peça traz a contação de histórias como um convite para perceber como a vida acontece para além do humano, e faz do seu final um manual para cada um de nós encontrar em si mesmo a possibilidade de florescer.
Fazer parte da construção de experiências como essa é uma grande alegria para a Selvagem, e uma satisfação maior ainda é se nutrir de retornos como os de Maurício e de outras pessoas que participam dos ciclos de estudos, se envolvem com os materiais e se tornam multiplicadores dessa rede colaborativa. Se você se interessou em saber mais sobre o espetáculo e a oficina que caminha junto dele, pode entrar em contato com Maurício Florez pelo email infomauricioflorez@gmail.com ou por seu Instagram @mauricio.florez_ .E se você também quer compartilhar sobre alguma atividade que realizou a partir de materiais Selvagem, te convidamos a compartilhar com a gente por este formulário. Além de ser uma grande alegria, esse retorno é muito importante para nós acompanharmos os desdobramentos dos materiais Selvagem pelo mundo.
Que “Memórias para se transformar em flor” esteja só no começo de um lindo caminho e que continue desabrochando em cada vez mais pessoas e florescendo em cada vez mais palcos!
