AS ESCOLAS VIVAS SEGUEM EM MOVIMENTO
26 de março de 2026
Fazendo brotar novas atividades e caminhos, as Escolas Vivas seguem em movimento e fortalecimento nesse começo de 2026, com a coordenação geral de Cristine Takuá e uma rede de diálogo e partilhas.
Desde o início do ano, com o aumento do repasse financeiro aos territórios para R$10.000,00 mensais, a capacidade de ação e articulação de cada Escola Viva foi ampliada em vários sentidos. O aumento no repasse se desdobrou em mudanças como equipes maiores e mais fortalecidas, verba para realização de oficinas e mais fôlego para aquisição de equipamentos e realização de reformas.
Fevereiro foi também um mês de muita colaboração entre Selvagem e as Escolas Vivas, no âmbito da publicação e tradução do Pingo 2 – Onde a vida se faz para as línguas Guarani Mbya, Maxakali, Hatxa Kuin, Tukano, Desana e Nheengatu; e também o preparo para a próxima exposição das Escolas Vivas, que será inaugurada em junho, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.
Raios de Sol mergulham no mundo profundo onde a vida se faz
A’ti muhkore Muhipu ahsistepeonukô sa’mi ma’ri kahti nisetisere – Tukano
Kuaray ogueroike ko yvyre vyma jogueroupity vy teko ojeapo ouvy – Guarani Mbya
Bari txashakĩ mai hirabianu hikishũ hanu hiweabu shabawa – Hatxa Kuï
Mãyõn yīm kunut mōyūm hãmxeka ha nõmtu yãhi xoppip – Maxakali
Kurasí umuturisá, uyapumi tipí katú mundo upé, mamé rikuesá uyumunha waá – Nheengatu
Ati ümürirē Abe borery marī ohokariro ãrã – Desana
O Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, a Escola Viva Tukano-Desana-Tuyuka, segue com suas atividades regulares, trazendo artes tradicionais, cultura indígena e o atendimento de saúde à população de Manaus, a partir da medicina tradicional indígena, com os especialistas kumuã.
Ao longo de seus nove anos de funcionamento, o Centro de Medicina Indígena já realizou atendimento a mais de 17 mil pessoas, consolidando-se como um importante espaço de cuidado, acolhimento e valorização dos conhecimentos da medicina indígena. Desde 2025, a equipe do Centro também prepara e disponibiliza remédios naturais, a partir dos saberes medicinais do Alto Rio Negro.
Os especialistas kumuã também realizam vivências com o público que frequenta o Centro. Em fevereiro, aconteceu uma vivência com o kumu Avelino, em formato de roda de conversa e partilha de conhecimentos, com cantos, danças e medicinas tradicionais.
Desde o início do ano, o Bahserikowi também vem realizando oficinas de flauta kariçu, instrumento tradicional que integra um amplo conjunto de conhecimentos cosmológicos. Conduzida atualmente pelo kumu Avelino, a oficina dá continuidade ao trabalho iniciado pelo kumu Kisibi, mantendo vivos toques e melodias entre os frequentadores do espaço.
Mais do que um lugar de atendimento, o Centro de Medicina Indígena segue atuando como espaço de aprendizagens, compartilhamento e continuidade dos conhecimentos tradicionais, reconhecendo o papel dos anciãos e especialistas indígenas como verdadeiras bibliotecas vivas.
A Arandu Porã, Escola Viva Guarani, participou de uma atividade muito especial logo na primeira semana de fevereiro: o Avati Nhemongarai, a cerimônia do milho verdadeiro Guarani. A convite do xamoi Dario Tupã e sua família, foram dias de muitas trocas, rezas, caminhadas, cantos e histórias na Tekoa Arandu, em Itariri (SP).
Nas palavras de Cristine Takuá, “o encontro com avaxi ete, o milho verdadeiro Guarani, é uma experiência viva de aprendizado, onde plantar, colher, rezar e cozinhar são gestos inseparáveis de transmissão de saberes e fazeres do nhandereko, o modo de ser Guarani. Entre a roça, a mata e a cerimônia, o cuidado com o milho aponta para o cuidado com a terra e com o espírito, mesmo com os desafios dos tempos de hoje”.
Mais detalhes dessa experiência também podem ser encontrados no Diário de Aprendizagens de Cris Takuá publicado em março no site Selvagem.
A Escola Viva Guarani também realizou um intercâmbio com jovens e a liderança feminina Ju Kerexu, da tekoa Takuaty, localizada na Terra Indígena Ilha da Cotinga, em Paranaguá (PR) durante o período de Carnaval.
Durante o encontro, foram compartilhadas experiências sobre os processos de memória e aprendizagem que vêm sendo desenvolvidos na Escola Viva Guarani. O intercâmbio também contou com a presença do xeramoi Dario Tupã, rezador da tekoa Arandu, com quem o grupo havia se encontrado dias antes durante o Avati Nhemongarai.
Ao longo dos dias, jovens e lideranças puderam caminhar pela mata, compartilhar histórias sobre o nhandereko, o modo de ser Guarani, e trocar cantos, rezas e mudas de plantas, fortalecendo vínculos entre os territórios e suas tradições em um movimento de fortalecimento cultural e espiritual.
Enquanto isso, o Instituto Flor da Floresta – Ni Hua, colaborador da Escola Viva Huni Kuin, realizou uma visita à Aldeia Coração da Floresta para a entrega de alimentos solicitados pela comunidade da Escola Viva. A ação integrou as atividades de apoio à manutenção do território; desde o começo do ano, também vêm sendo realizadas reformas estruturais na aldeia, como uma reforma necessária na casa do professor Rua Yube, com a substituição de madeiras avariadas, e a manutenção nas instalações elétricas e hidráulicas da aldeia.
Durante esse período, a comunidade segue reunida na aldeia, dedicando-se às atividades cotidianas de cuidado com o roçado, as plantas e o território, enquanto se prepara para os próximos encontros formativos.
Entre as atividades previstas para os próximos meses estão práticas de agrofloresta, programadas para março e abril, além de uma oficina presencial de sete dias, que contará com a participação de membros do Instituto Flor da Floresta. O encontro incluirá registros de atividades, processos de criação e produção de materiais para a exposição das Escolas Vivas prevista para junho, em São Paulo, além de momentos de integração de saberes e estímulo à produção cultural e artística dos participantes da Escola Viva Huni Kuin.
Em fevereiro, a Escola Viva Maxakali colaborou com a Selvagem na criação de um material trazendo a narrativa do Kotxekanix, o caboclo d’água, uma entidade importante na cosmologia dos Maxakali e na história cultural da região do Vale do Mucuri, em Minas Gerais, onde fica a Aldeia Escola Floresta.
Esse material vem sendo preparado desde outubro de 2025, com Mamei e Isael Maxakali, no âmbito da participação da Escola Viva Maxakali na residência artística Casa Escola Viva. Na ocasião, o pajé Mamei Maxakali narrou a história em uma visita à Baía de Guanabara. Em fevereiro, novas filmagens foram realizadas no território Maxakali com o pajé, que trouxe mais elementos à narrativa e começou a tradução de cantos e expressões. A previsão é de publicar um caderno Selvagem com a narrativa em 2026.
No início de março, uma grande conquista chegou para a Escola Viva Maxakali. Depois de um processo que levou anos, foi homologado um decreto que garantiu a aquisição de uma terra em nome do pajé Mamei Maxakali. O novo espaço passa a integrar a comunidade da Aldeia Escola Floresta, a Escola Viva Maxakali, fortalecendo a segurança alimentar, a realização de cerimônias e a existência dos Maxakali dentro de sua cultura.
A comunidade segue também realizando atividades de plantio, reflorestamento, cerimônias espirituais e reformas estruturais no território.
A Madzerokai, Escola Viva Baniwa, segue na reta final da construção de sua nova sede. Durante o mês de fevereiro, os sábios e sábias da Escola Viva organizaram atividades de coleta de tucum e preparo da fibra utilizada em amarrações estruturais nas construções, engajando ainda comunidades vizinhas, que colaboraram com o processo.
Durante o mesmo período, a equipe liderada pelo sábio Francisco Fontes deu continuidade ao reforço estrutural da Casa de Formação Madzerokai, com atividades de troca de caibros, retirada de ripas e fortalecimento da estrutura da construção. Também foi realizada a coleta de arumã pelo sábio Jorge Idalino, planta utilizada tradicionalmente para a confecção de esteiras.
Durante esse período, também ocorreram chuvas intensas na aldeia, o que dificultou algumas atividades externas. Mesmo assim, os sábios continuaram realizando trabalhos em suas próprias casas, mantendo a produção e ensinando os mais jovens da comunidade.
A nova sede da Madzerokai está quase concluída, mas o próprio processo de construção já é a Escola Viva em atividade, acordando, fortalecendo e transmitindo saberes tradicionais do povo Baniwa.
As Escolas Vivas são um movimento de apoio a esses 5 projetos dedicados ao fortalecimento e a transmissão de saberes tradicionais. Para quem deseja contribuir, é possível apoiar financeiramente o movimento através do nosso site.
Selvagem e as Escolas Vivas agradecem!
