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Diário Cristine Takuá

TERRITÓRIOS DE CONEXÃO, ATIVAÇÃO DE CURAS E MEMÓRIAS

By 18 de novembro de 2024novembro 27th, 2025No Comments
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TERRITÓRIOS DE CONEXÃO, ATIVAÇÃO DE CURAS E MEMÓRIAS
Cristine Takuá

18 de novembro de 2024

 

Foto: Carlos Papá

Caminhando por entre montanhas e lagoas encantadas, senti, vi e vivi sensações muito profundas nesse território antigo de memórias ancestrais. Huaraz, Huascaran, Chavin de Huantar são lugares de conexão, portais de acesso a tempos muitos antigos, onde havia muitas caminhadas de encontros espirituais e trocas de conhecimentos sobre as medicinas, as práticas de cura e bons modos de viver.

Visitando museus e espaços de sítios arqueológicos, me recordei das conversas com João Paulo Tukano sobre o palácio dos mortos, modo como ele e seu povo nomeiam os museus. Há tempos atrás, João Paulo, antropólogo e coordenador da Escola Viva Bahserikowi, escreveu um texto com o nome “Palácio dos Mortos”, em que faz uma profunda reflexão sobre esses espaços para onde os objetos são levados e guardados como pessoas falecidas.

João comenta que “mesmo que os trouxéssemos de volta, eles não teriam mais serventia para nós, pois os conhecimentos que neles residiam se foram com seus donos. Não sabemos de quais povos ou clãs eles vieram, e essas informações são essenciais para realizar os rituais de bahsese adequados para seu uso e preservação. Se um dia os recuperássemos, correríamos o risco de contrair doenças incuráveis. Por isso, é melhor deixá-los onde estão. Aquela casa que chamam de museu, onde guardam os Bahsa busa (diademas) e outros artefatos indígenas, é uma casa de mortos. O museu é um palácio dos mortos.”

Museu de Huaraz
Foto: Carlos Papá

Respeitar esses seres/objetos e entender a dimensão da espiritualidade que permeia as diversas culturas indígenas é um compromisso ético que todos deveriam ter. Observo e pressuponho que situações de emergência climática refletem também sobre esse modo desajustado do ser humano de caminhar pela Terra, desrespeitando a espiritualidade e lugares muito antigos, que guardam memórias de saberes profundos.

Em Chavin de Huantar, escutei uma história de Martin Loarte, guia que nos acompanhou na visita ao sítio arqueológico e nos relatou que, há pouco tempo, arqueólogos descobriram cerâmicas num antigo espaço cerimonial, tiraram e levaram para um museu em Lima. Tinha uma cerâmica no formato de um Condor, ave muito sagrada nos Andes. Dias após essa retirada, um grande morro numa montanha próxima ao sítio arqueológico desabou. Martin foi conversar com um ancião e perguntou por que ele achava que tinha caído daquela forma. O ancião contou que, durante muito tempo, um grande condor sobrevoava aquela região, dava várias voltas e depois sentava lá no alto do morro. E ele acredita que o fato de terem desenterrado aquela cerâmica tinha perturbado o espírito do Condor, o que consequentemente fez com que o morro caísse.

Caminho de Huaraz para Chavin
Foto: Cristine Takuá

Centro cerimonial de Chavin de Huantar
Foto: Cristine Takuá

Parque Huascaran
Foto: Carlos Papá

Essa narrativa me tocou profundamente e me fez refletir sobre as urgências da vida, sobre o saber entrar e o saber sair, sobre o pedir permissão e saber escutar o que nos rodeia.

Há um princípio que rege as nossas existências. Entre as muitas realidades que habitam nesta Terra, qual realidade te norteia? A saúde e a doença são reflexos da nossa caminhada, respeitar os espíritos guardiões de tudo o que existe é a premissa primeira da vida. A primeira lição que deveria ser ensinada nas escolas antes da alfabetização é que devemos saber respeitar os donos/guardiões das montanhas, das águas, das pedras, dos seres todos.

O Centro de Medicinas Bahserikowi vem com uma proposta decolonial de pensar o cuidado com o corpo, a mente e o espírito. Através das práticas tradicionais de cuidado e atenção, os kumuã, especialistas em cura, benzimento e práticas de saúde, vem desenvolvendo um trabalho muito forte no centro de Manaus, a capital da Amazônia.

Nessa conexão entre territórios de despertamentos, caminhamos buscando ativar as curas e as memórias.

Carlos Papa e guia Martin Loarte em Chavin de Huantar
Foto: Cristine Takuá

 

Em Chavin no Sítio Arqueologico junto com a sagrada Wachuma (ao fundo)
Foto: Renata Borges

Foto de João Paulo Tukano