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Diário Veronica Pinheiro

PEDRINHAS MIUDINHAS

By 22 de novembro de 2024novembro 27th, 2025No Comments
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PEDRINHAS MIUDINHAS
Veronica Pinheiro

22 de novembro de 2024

 

 

“Pedrinha miudinha de Aruanda ê
Lajedo tão grande
pedrinha de Aruanda ê”

 

Escrever Diários foi uma missão que recebi de Anna Dantes, idealizadora do Selvagem, ciclo de estudos, e, na ocasião, pensei que não teríamos assunto para publicar em 35 textos. A missão se tornou para mim um percurso de aprendizagens e encantamentos. Foram quase 200 dias presenciais com 420 crianças por semana. Foram muitos dias ouvindo e contando histórias. Foram 145 páginas escritas com sorrisos, medos, cantares, desenhos, abraços.

A escola foi a linha que coseu minhas andanças em 2024. Todos os textos escritos descreviam as vivências e experimentações compartilhadas com as crianças. Gostaria, no entanto, nesta penúltima página, de falar do corpo docente que estrutura a Escola Municipal Professor Escragnolle Dória. Da cozinha ao portão, todas as profissionais da escola são docentes, pois ensinam e compartilham ensinamentos diariamente com as crianças. Sem nenhuma novidade, quando o assunto é escola de primeiro segmento, o corpo docente observado é um corpo mulher. Um corpo composto por mulheres mães que limpam, cozinham, ensinam, coordenam e dirigem uma rotina cheia de desafios. Durante todo o percurso de Aprendizagens, também pude observar a Pedreira nos corpos e gestos dessas mulheres-mães-professoras. Todas as 14 turmas têm uma professora como regente; as profissionais da limpeza, cozinha e portão são em sua grande maioria mulheres; a equipe diretiva também é composta por mulheres.

Aqui não falaremos sobre cuidados e os motivos pelos quais a educação é um ambiente feminino cujos expoentes são os homens. Numa terra de Marias, Josés são aplaudidos – os homens aparecem assinando as propostas educacionais e dando nome a métodos. Por ora, falarei do compromisso de vida, ético, social e orgânico que vi nos olhos vigilantes que me observavam diariamente na favela da Pedreira. Lembro-me da desconfiança nas primeiras semanas. Acolhi a todas sabendo que, para uma professora, mais vale alguém que compartilha com ela uma jornada do que manuais com ideias revolucionárias.

Vivemos com adultos e crianças: práticas de desemparedamento, movimentos de ampliação do olhar, tessitura de teias territoriais, aproximação afetiva da natureza, poética de quintais, sintaxes do corpo…

Não falamos com adultos e crianças sobre: práticas de desemparedamento, movimentos de ampliação do olhar, tessitura de teias territoriais, aproximação afetiva da natureza, poética de quintais, sintaxes do corpo…

Tivemos um total de 0 palestras ao longo do ano e 0 formações pedagógicas.

A vida acontece numa teia de relações continuadas. As relações estabelecidas eram para onde nosso cuidado se inclinava. Numa Escola Viva, aprendizagem se vive e se compartilha. Curiosamente, na maioria dos congressos sobre brincar em que fui, ninguém brincava. Assim como os congressos sobre oralidade terminam com textos escritos sobre oralidade. Na reivindicação por uma educação pluriversal e cosmológica, não apresentamos fôrma nem forma.

Aprendi nessa terra de mulheres a comemorar miudezas e a trabalhar em silêncio para deixar que o território fale por si só; tal como o Sol, que nasce em silêncio, sabendo exatamente o que precisa fazer. O Sol não faz nada de novo, ele faz exatamente a mesma coisa todos os dias e aí está sua generosidade. Uma amiga indígena Macuxi me disse que o Sol é uma entidade feminina. Por isso… reverencio, nesse momento, as mulheres-sol da Pedreira que, diariamente, nos ajudaram a completar esse ciclo de Aprendizagens.

Na imensidão complexa do que é a Favela da Pedreira, Daniele, Genicelle e Vera são pedrinhas e, ao mesmo tempo, lajedos imensos. Os lajedos são formações geológicas esculpidas pelo tempo, comuns em lugares áridos e semiáridos, que abrigam poças d’água e diversidade de vida por conta das condições únicas encontradas nessas formações rochosas. Na secura sentida e vivida no território onde está a escola, vi abrigo e vida; uma vida diferente da vida do território, com condições únicas. Uma vida derivada do compromisso e do amor de professores e funcionários. E. M. P. Escragnolle Dória é uma escola-lajedo composta por pedrinhas miudinhas, da qual eu faço parte.

 

Gratidão às mulheres-sol da Pedreira:

Aline Lopes
Analice Lima
Anaquel Albuquerque
Ana Paula Pequeno
Beatriz Ferreira
Conceição Correia
Cristiane Paula
Daniele Oziene Lima
Deise Patrocínio
Denise Lopes
Derli Monteiro
Érika Fraga
Genicelle Colchone
Glória Alencar
Ivone Pacheco
Ivy Passos
Janaína Chaves
Karine Machado
Leidiane de Paula
Lena de Abreu
Lílian Moreira
Lúcia dos Santos
Luciene Justino
Maria José Rodrigues
Michelle Bessa
Miriam Ribeiro
Monique Ribeiro
Rosana Moraes
Sabrina Amarantes
Sandra Helena Santos
Simone Rezende
Sônia Maria Oliveira
Taís Nunes
Thassia Oliveira
Vera Lucia Lavatori

 

Gratidão,

Felipe Rodrigues
Iranildo da Silva
Rober da Silva
José Roberto Oliveira
Wagner Clayton Nascimento