ONDE ESTÁ A MATA? ESTÁ DENTRO DO PEITO
Veronica Pinheiro
18 de junho de 2024

A sala de leitura da escola se assemelha a uma biblioteca em organização e funcionalidade. Livros em prateleiras, divididos por assunto; mesas grandes e cadeiras. Um espaço planejado e que leva em conta a área de armazenamento, a área de atividade, a área de circulação. Algumas regrinhas gerais são comuns em ambientes de leitura: entrar somente com o material necessário para o estudo; entrar de forma “disciplinada”; manter a voz e os gestos em tom discreto para não atrapalhar os demais leitores.
As primeiras histórias que conheci não estavam em livros guardados em prateleiras. As primeiras narrativas e lições que aprendi saiam da boca de Dona Cassiana, uma anciã, que ficava no final da tarde sentada num banco de madeira, sob o pé de aroeira, lá no morro onde nasci. Para saber o final de uma história, às vezes, tínhamos que esperar o dia seguinte ou ir atrás de Dona Cassiana enquanto ela cuidava das plantas. Ela rezava as crianças e dava colo enquanto rezava. Era uma reza-história, cantada e coreografada com folhas. Lembro de um dia ter procurado por ela e não a ter encontrado. Nunca mais a vi. Pouco depois do sumiço de Dona Cassiana, sumiu o banco e o pé de aroeira. Mas as palavras contadas, cantadas e rezadas me acompanham até hoje.
Hoje, sou a velha que conta quadras para meninos. Essa semana, cheguei à sala de leitura e retirei todas as cadeiras. Retirei também as mesas e apaguei as luzes. E acendi minha fogueira no meio da sala. No chão, colchonetes, 15 exemplares de um mesmo livro e eu sentada tal como a velha Cassiana ficava esperando por mim.

Aprendi com Carlos Papá que o escuro acolhe todos, não fazendo distinção de pessoas. E foi no escuro da sala que nos encontramos com as narrativas de avós e compartilhamos cuidados e gentilezas. “O que é isso?” “Um acampamento, você não está vendo” Eu acompanhei a entrada deles somente com olhos e ouvidos, nada falei. “É um acampamento sim. Olha a fogueira.” “Vamos sentar porque está de noite e frio.” Era 8h da manhã e fazia 31ºC do lado de fora da sala, dentro da sala tempo e lugar deslocavam-se sem convenções.
Eles sentaram em roda. A primeira turma que recebi neste dia tinha 28 crianças presentes, a maioria com 8 anos de idade, e estavam curiosas para saber o que iria acontecer. Na primeira ação, eles formariam duplas de leitores. Pedi para que um aluno que já soubesse ler se unisse a um colega que ainda não soubesse ler. Feitas as duplas, eles precisariam escolher um cantinho na sala de leitura para ler a história. Cada dupla se aninhou e se escondeu da forma que pode e desejou. Montaram cabaninhas e criaram tocas para ler. Disse a eles que a aprendizagem é um processo em que todos colaboram da forma que podem. Eles assumiram o cuidado com seus amigos de turma. Fiquei observando como lentamente quem ouvia ia escorregando pelo colchonete até deitar para ouvir atentamente as palavras lidas pelo amigo. E sem ter intencionado, naquele momento estabelecemos uma outra relação com aquele chão. Todas as vezes em que deitamos no chão da sala de leitura tinha sido para nos proteger do tiroteio. Pela primeira vez, não era o medo que nos levava ao chão. Era a terra nos ensinado a fortalecer vínculos. A professora da turma entra pensando que a sala estava vazia e se surpreende com a cena e os gestos. Sensivelmente, ela se retira sem ser percebida.

Nossa segunda ação era sentar ao redor da fogueira novamente. Agora a história seria lida por mim, e acompanhada por todos, cada um com um exemplar do livro nas mãos. Era uma solenidade, as chamas da fogueira de led aqueciam nossa roda. Comecei assim:
“Sônia Rosa, a autora do livro, dedica este livro aos seus dois sobrinhos-netos: Phelipe de Oliveira Nunes e Vitória Oliveira Silva. Eu, Veronica, dedico esta leitura aos meus alunos presentes sentados ao redor da fogueira comigo.”
Os tesouros de Monifa é a história de uma menina que, no dia de seu aniversário, foi escolhida para ficar com o “tesouro” de sua família. Monifa era o nome da bisavó da avó da menina. Monifa chega ao Brasil num navio negreiro e escreve muitos diários cheios de sonhos, rezas e canções. Minha voz tentou acompanhar a solenidade do momento, mas meus olhos decidiram por si só regar a terra. Não só os meus, mas muitos olhos regaram a terra naquele dia. À medida que líamos, mais perto ficávamos um dos outros. A roda logo se tornou um ninho. Uma mão pequena e macia colhia as lágrimas que me saiam dos olhos para não molhar o livro. Outras mãos me amparam os ombros e as costas. Mais um par de mãos percorriam minhas tranças.
Não me lembro de já ter chorado na frente de uma turma. No começo do ano eu era “a tia que dava colo” para as crianças que choravam na semana de adaptação. No meio do acampamento de leitura, eu era cuidada pelas crianças que entenderam que, no processo de aprendizagens, cada um coopera como pode. Passei então a receber cuidados. Eu li a história, e eles liam os bilhetes de Monifa.
Ao redor da fogueira, sentados no chão nos abraçamos no fim da leitura.
Alguém falou que no nosso acampamento só faltou uma coisa: “marshmallow”. Outro acrescentou que faltaram duas coisas: “marshmallow” e a mata. Antes que eu conseguisse formular resposta, Enzo, que parece nunca estar ouvindo o que falamos, disse: “Faltou só ‘marshmallow’ mesmo, a mata tá dentro da cabeça.”
Monifa significa “eu tenho sorte”. Cheia de mata dentro, ali eu era a pessoa mais sortuda do mundo.

Fotos: Wagner Clayton
