NA NATUREZA, NADA VIVE SOZINHO
Veronica Pinheiro
25 de junho de 2024
Foto: Wagner Clayton
Começamos o último texto do semestre com as palavras da professora Miriam. Ela trabalha na Escola Escragnolle Dória em dois turnos, manhã e tarde, atendendo 62 crianças de 5 e seis anos de idade de segunda a sexta.
“Desde a chegada da equipe Selvagens em nossa escola, temos observado e experimentado um novo movimento dentro da escola. Tanto pelo acesso a materiais que não são tão comuns nas salas de aulas de escolas públicas, mas também por ter quem nos conduza a ter um olhar mais minucioso no que temos de mais rico ao nosso redor. Escolas em áreas conflagradas como as nossas, onde as crianças têm os ouvidos treinados para o tiro, fazê-las silenciar para ouvir os pássaros, o barulho do vento ou o que se passa dentro de si e transformar em arte, é quase mágico. Quase, a linha entre o mágico e o real é tão tênue que ora ou outra invadimos a sala de aula da colega para fotografar como uma urgência de querermos parar no tempo.
Vê-los pintar com a tinta que produziram a partir da terra encontrada no chão da escola, revelar fotos das folhas e galhos que caíram do quintal dali, observar a natureza que compõe o nosso território… Observar, criar, produzir. Uma sequência rica de significados que eu, enquanto professora, me dou o luxo e me permito também ser aluna naquele momento. Sento como meus alunos, espero meu pedaço de argila, me junto a eles com inúmeras perguntas, todos tentamos, fazemos o nosso melhor, sorrimos com o resultado, terminamos orgulhosos de nós mesmos pelo o que fomos capazes de criar. Voltamos para sala de aula certos de que todos somos talentosos, desmistificamos que todo professor sabe tudo. Voltamos para aula com um novo olhar sobre nós mesmos. Acho que todos que têm feito parte do projeto têm se sentido dessa forma. Somos levados a ter novas conclusões sobre nós mesmos, temos nos vistos como parte importante da natureza e temos percebido como ela nos impacta tanto quanto nossas ações a impactam.”
Anna Dantes, Madeleine Deschamps e eu tivemos longas conversas em dezembro de 2023 e janeiro de 2024 sobre caminhos de aprendizagens e sobre possibilidades de desdobramentos das oficinas e dos projetos realizados em 2023 com o Grupo Crianças. Falamos sobre criar vínculos com escolas e professores. Quando subitamente precisei retornar ao trabalho na Prefeitura do Rio, conversamos sobre como poderíamos ativar os estudos e pensamentos presentes nos ciclos Selvagem numa sala de aula. Em algum momento pensei em retornar ao trabalho como coordenadora pedagógica, mas aceitei o desafio de voltar como professora de sala de leitura numa escola de crianças. As crianças sempre estiveram presentes na minha vida, mas nunca estive como professora atendendo regularmente os pequenos em sala de aula.
Lembro de ficar feliz em me tornar a “professora da sala de leitura”. Lembro de rir e lembrar de minha avó lendo a borra do café na xícara, as nuvens e os olhos das crianças. Dorvelina, mãe de minha mãe, não sabia ler ou escrever em português, mas lia a vida e interpretava sonhos. Ler e interpretar, lá em casa, era coisa do cotidiano, quase nunca relacionada aos livros. “A gente olhava e lia a terra.” Tudo era texto e tudo poderia virar texto. Os livros chegaram lá em casa recentemente. Achei engraçado isso de ser a mediadora das rodas de leituras de uma escola de crianças. Agradeci em silêncio a gentileza que a vida me fez: estávamos diante da possibilidade de iniciar um percurso de Aprendizagens em diálogo com a vida.
O que é compartilhado nos diários é apenas uma parte do trabalho, pois nosso percurso é trilhado por muitos pés. Oficinas, passeios, organização de propostas e materiais só acontecem porque o Grupo Aprendizagens é formado por uma rede invisível que se expande, interligando cuidados preciosos. Chegamos ao Complexo da Pedreira sonhando despertar memórias e fortalecer as conexões das crianças com o território. Para além das problemáticas que tornam os dias difíceis, fazemos menção ao território ancestral, natural e orgânico. Lembramos às crianças e aos professores que somos natureza, natureza viva e pulsante.
Madá se preocupou com a carga horária semanal que eu teria de cumprir e como isso poderia me sobrecarregar. Juntas acreditamos e sonhamos orçamentos, passeios, oficinas e uma “festa cósmica” para o final do ano com crianças vestidas de estrelas e planetas. Encerramos o semestre felizes. Praticamos o bem viver numa terra que só é conhecida por seus males. O poeta disse que “Fundamental é mesmo o amor/É impossível ser feliz sozinho”. Apesar de todo desafio, tudo foi mais feliz e potente do que imaginávamos. A escola nos respondeu muito mais rápido do que esperávamos. Está sendo fundamental seguir em amor e juntos. Ubuntu, sou porque somos. Tal qual as árvores da floresta que só existem porque estão intimamente ligadas, o percurso Aprendizagens está intimamente ligado a uma teia de seres regenerantes.
Juntos aos relatos que recebemos de professores e grupos de pesquisas, neste semestre, fomos convidados pela Gerência de Relações Étnico-Raciais, da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro, para a IV Jornada da GERER – Caminhos e perspectivas para futuros possíveis¹. Como resposta ao convite, preparamos um Guia de Aprendizagens Selvagem, GAS, para ser compartilhado com 1544 Escolas Públicas de Ensino Fundamental na cidade do Rio de Janeiro. “Cuidado não é troca, é compartilhamento”, já dizia Nego Bispo. Não criamos nada. Quando chegamos ao Complexo da Pedreira, já existiam muitos outros compartilhantes que nos receberam. Desde o algodoeiro na entrada da escola aos pássaros que nos visitam todas as tardes, agradecemos a toda vida e a todos os seres que estiveram conosco neste semestre.
Àwúré
¹Material Complementar da Jornada de Relações Étinico-raciais. https://sites.google.com/view/gerer-sme/jornadas-da-gerer/iv-jornada-da-gerer
