ENCONTROS PROFUNDOS
Cristine Takuá
11 de novembro de 2024
Nos últimos dias estive caminhando por Huaraz, no Peru, a cordilheira tropical mais alta do mundo. Fui convidada a participar de uma conferência sobre Justiça Climática e Epistêmica, organizada pela WikiAcción Peru. Esse encontro reuniu vários jovens e algumas lideranças indígenas de vários povos e países.
Durante a conferência, aconteceu uma roda de diálogos com dois mestres, Carlos Papá e o senhor Grimaldo Rengifo, que é um educador, escritor, pensador e investigador peruano na educação intercultural. Foram momentos de trocas muito profundas e de semear reflexões para transformação na vida.
Amanheci no dia seguinte pensando na complexidade das filosofias indígenas, cujas epistemologias são ocultadas nas universidades. Ao longo da história, a humanidade se distanciou de forma violenta da natureza e a usou a seu próprio benefício, visando apenas o lucro, muito nítido na mensagem “Ordem e Progresso”, estampada em nossa bandeira. Embora a sociedade ocidental tenha seus pilares muito bem estruturados na razão eurocêntrica, hoje todos vivem uma crise sem precedentes, na qual a sobrevivência dos seres pensantes está comprometida. O agronegócio, a mineração e, de certa forma, a monocultura mental – que está presente nas universidades não permitindo que as pessoas conheçam outras filosofias – são possivelmente os responsáveis por essa difícil realidade em que estamos todos vivendo.
Durante a conferência, Carlos Papá falou da importância de nos sentirmos como parte da natureza e de nos reconectarmos com nosso corpo e nossa respiração.
“A pura verdade da vida é que você tem que viver num local, pisar no chão, sentir o cheiro, sentir o Sol, pássaro, vento, chuva, frio, esse corpo. Essa é a verdadeira vida a que você está integrado. A nossa vida tem tudo, tem água, tem ferro, tem vidro, tem olfato, tem água. A gente fala que a natureza é ali e o nosso corpo é aqui. Nosso corpo é a própria natureza. Por que eu falo isso? Na hora que você vai falar, a água vai cantar, gritar, a nossa saliva sai molhada. Nosso cordão, o vocal, toda hora fica afinado para poder falar as mensagens. E toca como se fosse uma flauta, para você tocar a pessoa para ouvir e entender. E essa flauta, quando você fala, esse sopro sai da água quente… Aí vem essa sabedoria de entendimento da vida, a vida é essa, a vida é linda, a vida é maravilhosa a partir do momento que você teve o suporte da vida.”
Dentro das reflexões que fizemos e compartilhamos um com o outro senti fortemente de falar das minhas inquietações e da minha insistência com as crianças e jovens, que eu convido para aprender a dialogar com as plantas, pois elas são grandes mestres, professoras, orientadoras. Elas não só curam, mas elas mostram a direção, o caminho para onde nós temos que ir.
Eu sinto que a nossa humanidade tem falhado muito dentro do princípio do que é o respeito. Existe uma contradição muito profunda dentro dos humanos, de nós todos, e eu acredito que esse é o grande desafio que precisamos aprender a superar, primeiro aprendendo a caminhar mais devagar, a escutar e a falar menos para conseguirmos compreender e escutar o que os espíritos estão falando. Os espíritos de tudo, das montanhas, das pedras, do vento, dos rios, que, às vezes, passam debaixo dos nossos pés nas cidades assaltadas. E muitas pessoas não param para escutar.
Nas profundas trocas que tivemos, a fala do mestre Grimaldo também ficou registrada no meu coração e na minha memória. Ele trouxe questões muito sérias sobre as muitas formas de pensar o uso das tecnologias entre as crianças e jovens e o quanto isso reflete nos processos educativos.
“É raro escutar conceitos como descolonização e justiça epistêmica na criatividade dentro dos sistemas educativos.”
Através de sua longa experiência, o mestre Grimaldo foi tecendo sua fala muito baseada em tudo o que ele já vivenciou, inclusive a vivência com plantas mestras. Ao ouvir Papá e o mestre Grimaldo, fui entendendo que é urgente a necessidade de escutar mais e perceber a relação com todas as formas de vida.

