Skip to main content
News and Developments

OGUATA PORÃ: BELOS CAMINHOS DAS ESCOLAS VIVAS

By 7 de June de 2024#!28Tue, 10 Feb 2026 15:36:41 -0300-03:004128#28Tue, 10 Feb 2026 15:36:41 -0300-03:00-3America/Sao_Paulo2828America/Sao_Paulo202628 10pm28pm-28Tue, 10 Feb 2026 15:36:41 -0300-03:003America/Sao_Paulo2828America/Sao_Paulo2026282026Tue, 10 Feb 2026 15:36:41 -0300363362pmTuesday=821#!28Tue, 10 Feb 2026 15:36:41 -0300-03:00America/Sao_Paulo2#February 10th, 2026#!28Tue, 10 Feb 2026 15:36:41 -0300-03:004128#/28Tue, 10 Feb 2026 15:36:41 -0300-03:00-3America/Sao_Paulo2828America/Sao_Paulo202628#!28Tue, 10 Feb 2026 15:36:41 -0300-03:00America/Sao_Paulo2#No Comments
Back
Home
ESCOLAS VIVAS: OGUATA PORÃ
Belos caminhos das Escolas Vivas

24 de março de 2025

Texto de Cristine Takuá com colaboração de
Carlos Papá, João Paulo Tukano e Anita Ekman
Fotos de Cristine Takuá

 

Nos dias 30 e 31 de maio, junto aos coordenadores da Escola Viva Guarani, Carlos Papá, e da Escola Viva Tukano-Desana-Tuyuka, João Paulo Barreto, participei do workshop O Corpo-Território da Floresta Tropical: Revisitando as Coleções da Expedição Thayer e Morgan por meio de Cosmovisões e Legados da Escravidão, no Radcliffe Institut na Universidade de Harvard, nos EUA. O convite para a participação veio através da curadora Sandra Benites (Guarani Nhandeva, atualmente diretora de Artes Visuais da Funarte) e a artista, curadora e pesquisadora independente Anita Ekman que conjuntamente com  à Ilisa Barbash ( Museum Curator of Visual Anthropology, Harvard Faculty of Arts and Sciences) idealizaram a criação deste seminário preparativo para a realização de uma futura exposição. 

Dois dias antes do workshop no Radcliffe Institut, visitamos os acervos trazidos por Louis Agassiz e Charles Hartt do Brasil para Harvard, através de duas expedições. A expedição Thayer liderada pelo suíço Louis Agassiz entre anos anos de 1865 e 1866 que passou pelo Rio de Janeiro, Ceará, Manaus, subiu o Rio Negro e percorreu longos caminhos floresta adentro. E a Expedição Morgan organizada posteriormente por Charles Hartt em 1870 e 1871.

The workshop contou com um grupo interdisciplinar de artistas, historiadores de arte, curadores e cientistas brasileiros (indígenas, afro-brasileiros, mestiços) e norte-americanos para revisitar e ressignificar objetos coletados durante as expedições de Thayer e Morgan ao Brasil no século XIX e alojados em diversos arquivos da universidade de Harvard entre eles do Peabody Museum. O objetivo do encontro foi colocar em diálogo e questionamento o imaginário sobre as florestas tropicais brasileiras criado por europeus e americanos, expresso através dessas coleções. Nesse coletivo reunido pudemos contrapor isso a partir de uma perspectiva latino-americana, com as diferentes ontologias das culturas indígenas e da diáspora africana brasileira em relação à região que compartilham com uma extraordinária diversidade de plantas e animais. Este workshop abordou os debates em torno dos territórios da Amazônia e da Mata Atlântica, que abrigam o maior número de espécies vegetais do planeta. Utilizando visões de mundo dos povos da floresta, ficou centralizada a relação corpo-território na Floresta Tropical Brasileira, tanto no sentido do corpo humano e não-humano como território quanto no sentido do território / terra como um corpo vivo que respira. 

Além de destacar as diferentes cosmovisões dos povos da floresta (indígenas, mestiços e afrodescendentes) sobre seu próprio corpo-território, também analisamos, discutimos e  sentimos visualmente como funciona o acervo museológico de fósseis, peixes, cerâmicas arqueológicas, fotografias e espécimes botânicos, e de que forma essa expedição contribuiu para a mercantilização do corpo e do território da Floresta Tropical. Também refletimos como as relações Brasil-Estados Unidos do século XIX e seu legado de escravidão indígena e africana estão intrinsecamente ligados à destruição da Nhe’ëry e Amazônia.


Carlos Papá e Cristine Takuá na coleção de peixes da Universidade

 

Foram muitas as reflexões que surgiram dessas escutas e olhares.  Destaco aqui a pesquisa de Anita Ekman* que contextualiza os eixos de discussões deste workshop:

A origem da palavra Floresta nos mostrou claramente que o imaginário global sobre o que são as florestas e a natureza foi criado por homens europeus. “Floresta”, no português, ou “Forest” em inglês (do latim Forestis), deriva de foris (“fora”), radical comum também à palavra “forasteiro”. Esta noção de uma Mata que não ocupa o centro, que é parte de uma natureza considerada “exterior”, foi enraizada no imaginário global pelos forasteiros europeus e norte-americanos, que, ao conceber a floresta como uma paisagem a ser “desbravada”, uma “Terra Nullis” (terra que não pertence à ninguém), uma “Mata virgem” (intocada pela mão do homem e portanto “improdutiva” e passível de ser “estuprada”), determinaram a colonização deste corpo-território e consequentemente a maneira pela qual ainda hoje este bioma segue sendo percebido e ocupado. Está justamente na raiz desta forma de pensar o que é (e para que serve) a floresta, o principal legado do Mundo Atlântico. Em outras palavras, foi principalmente baseado nas expedições empreendidas por homens europeus e da América do Norte para as florestas brasileiras (Amazônia e Mata Atlântica) no séc. XIX e início do séc. XX que o hemisfério norte forjou a base do pensamento hegemônico global acerca de paradigmas como: natureza/cultura, tecnologia/meio ambiente, natural/artificial, humano/não-humano, vivo/inanimado, constituindo suas próprias teorias para explicar a complexidade da diversidade de formas de vida no planeta.” 

Por isso foi tão importante e impactante para nós visitar os acervos da Expedição Thayer, liderada pelo criacionista (e professor de Harvard) Louis Agassiz em 1865, que formou diversas coleções para Harvard, entre elas a maior coleção de peixes do séc. XIX , coleção de fósseis e a polêmica coleção de daguerreótipos de indígenas, africanos e mestiços, criada na intenção de provar a superioridade caucasiana e que Charles Darwin e sua Teoria da Evolução estavam errados.

Para Anita Ekman:

A visita às florestas brasileiras por Wallace (Amazônia brasileira) e Darwin (Mata Atlântica) contribuiu expressivamente para a formulação da teoria da Evolução das Espécies, que segue sendo, ainda hoje, a maneira como o Ocidente compreende a diversidade da vida no planeta Terra. Darwin, ao contrário de Agassiz, era contrário à escravidão e não acreditava na superioridade racial. No entanto, estava convicto que os homens seriam biologicamente superiores às mulheres.



Pescando entre pedras, Pedra de Itapuca, Itapuca, Brazil, 1865
, de Jacques Burkhardt,
MCZ library, Universidade de Harvard.


Charles Hartt, geólogo canadense naturalizado americano, que foi aluno e sucessor de Agassiz, veio ao Brasil com a expedição Thayer e alguns anos depois coordenou a expedição Morgan, sendo o primeiro a descrever e a levar “objetos” para compor coleções dos museus das universidades dos Estados Unidos (Peabody Museum de Harvard, o qual visitamos, e Universidade de Cornell). Entre eles, o fragmento de cerâmica mais antigo encontrado até o momento nas Américas (no Sambaqui de Taperinha, Pará), datado em 7.600 anos Antes do Presente e armazenado no Peabody Museum de Harvard.

Charles Hartt foi o primeiro a descrever a cerâmica da Ilha do Marajó na Amazônia, criando as primeiras coleções de cerâmica Marajoara para as universidades americanas. Hartt, que antes era criacionista e depois passou a defender a teoria da evolução. Apesar de apontar para o fundamental papel das artistas mulheres indígenas, ele o fez para enfim concluir que as mulheres europeias eram superiores às artistas indígenas, pois eram capazes de representar a natureza com maior perfeição na decoração dos objetos.

O que Charles Hart fora incapaz de perceber, e que os museus que guardam esses artefatos até o momento tampouco puderam reconhecer e promover como deveriam, é que na labiríntica e intrincada poesia visual inscrita na cerâmica Marajoara está plasmada a cosmovisão, o conhecimento dos povos originários desta que é a região mais biodiversa do planeta Terra. O Brasil concentra, principalmente em suas florestas tropicais (Amazônia e Mata Atlântica), a maior diversidade de espécies vegetais da Terra (43% das espécies são endêmicas, ou seja, existem apenas no território brasileiro). E essa imensa riqueza é resultado de um intenso e milenar manejo dos povos indígenas que contribuíram para o enriquecimento da biodiversidade desses biomas. Pois como comprovam os estudos arqueológicos recentes, 60% da Amazônia é antropogênica, ou seja, foi milenarmente manejada por mãos e mentes indígenas.

 


João Paulo Barreto, Carlos Papá e Cristine Takuá junto a foto de Tatanka Iyotanka (“Touro Sentado”),
chefe do povo indígena sioux

É fundamental rever a história dessas coleções arqueológicas dos povos indígenas do Brasil, que encontram-se em diversas instituições dos Estados Unidos como o Peabody Museum em Harvard, trazendo à tona a visão das mulheres indígenas das florestas brasileiras através de obras de arte criadas por artistas indígenas e seus parceiros. Isso permite criar uma reflexão importante: que a História dos Estados Unidos e principalmente a acumulação do capital não estão desvinculados da história de devastação e da constante ameaça de destruição desses territórios e culturas. Reconhecer que a Floresta e os povos indígenas não fazem parte de uma distante realidade do outro lado do continente, e que são na verdade parte fundante da história do capitalismo global como um todo, é um importante passo para construirmos estratégias mais eficazes de colaboração para a preservação desses territórios e dessas culturas – o que significa dizer, na busca pela continuidade da diversidade da vida no planeta, que o útero Terra seja cuidado, que possa continuar a gerar vida.”

 

Durante toda essa troca e compartilhamento de sensações e memórias, Carlos Papá e João Paulo puderam identificar espécies de peixes que não existem mais nas florestas. Também se encontraram com “objetos” de cerâmica, instrumentos musicais e peças cerimoniais que não são mais vistos nas comunidades. A esses “objetos”, senti de chamar de pensamentos, pois cada ser feito de barro, como a cerâmica, o instrumento musical Trukano, feito de madeira, e tantos outros que vimos nessa visita, me fez sentir forte a presença dos muitos pensamentos ancestrais envolvidos em sua criação. Pensamentos que moldam, tecem, esculpem e transformam a natureza em arte. São territórios ancestrais que conectam pensamentos.

Caminhamos e fizemos observações sobre cada um desses seres/pensamentos que visitamos no “palácio dos mortos”, como João Paulo chamou os museus. Ele falou muito emocionado da importância de acordar as memórias e de todo o processo de violência que seu povo passou e que fez muitos saberes serem silenciados, como do Trukano, um tambor cerimonial, feito de tronco de árvore e que hoje não é mais encontrado nas comunidades Tukano. Foram muitos momentos de trocas e falas de Carlos Papá e João Paulo, que nos trouxeram profundas reflexões sobre o fortalecimento do trabalho junto às Escolas Vivas. Eu apresentei o catálogo da exposição Viva Viva Escola Viva para mostrar um pouco dessa construção e aproximar aqueles cientistas de Harvard dos cientistas da floresta. 



João Paulo Barreto ao lado do Trukano, tambor cerimonial do povo Tukano



Nessa profunda caminhada, pudemos compartilhar das nossas inquietações e contribuir para um processo de releitura desses acervos. Atentamos para a urgente necessidade de se repensar a história e ciência ocidentais e aprender a respeitar as epistemologias ancestrais dos povos indígenas.

A articulação para essa viagem se deu por Sandra Benites, que foi convidada em 2021 pelo escritor da biografia de Louis Agassiz Christoph Irmscher junto com Anita Ekman para discutir o capítulo escrito por ele (Chapter 7 – “Mr. Agassiz’s ‘Photographic Saloon.’” ) sobre as fotografias realizadas em Manaus na expedição Thayer.

A discussão foi transmitida através de uma live: Race, Representation, and Agassiz’s Brazilian Fantasy .

Agradeço por essa construção coletiva e pela oportunidade de representarmos as Escolas Vivas e compartilhar saberes e reflexões. Aguyjevete!

 

*  Parte da pesquisa de Anita Ekman escrita em Julho de 2022 para o projeto conceitual de exposição Womb of the Earth idealizado por Sandra Benites e Anita Ekman para o IAIA MOCNA Museum a pedido de Alexandra Mollof.

 

Cristine Takuá é uma escritora, artesã, teórica decolonial, ativista e professora indígena brasileira da etnia Maxakali. É formada em Filosofia pela Unesp e foi professora por doze anos na Escola Estadual Indígena Txeru Ba’e Kuai’. Atualmente é coordenadora das Escolas Vivas e integrante do Selvagem, ciclo de estudos sobre a vida.