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Notícias e Desdobramentos

CADERNOS, PINGOS E FLECHAS ATRAVESSAM O OCEANO: uma passagem Selvagem pela Itália

By 26 de março de 2026No Comments
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CADERNOS, PINGOS E FLECHAS ATRAVESSAM O OCEANO:
uma passagem Selvagem pela Itália

26 de março de 2026

 

Na cidade de Biella, os artistas Pedro Lago e Maya Dikstein fizeram uma proposta Selvagem durante a residência do programa UNIDEE Residency Programs, sediado na Fondazione Pistoletto, na Itália. Construída sob uma antiga fábrica têxtil, a Fundação Pistoletto, que um dia foi ocupada por máquinas, se transformou em uma jornada do Sol em direção à floresta com a experiência apresentada pelos artistas.


Trechos da animação Pingo 1 – O Sol atravessa tudo


O encontro aconteceu na primeira semana de dezembro do ano passado e integrou o módulo “Language, Please”, conduzido por Lorenzo Sandoval e Zineb Achoubie, que investigam a linguagem a partir de padrões visuais e práticas têxteis.
Foi a partir desse eixo que Pedro e Maya tiveram a ideia de um diálogo entre os motivos das tecelagens marroquinas e berberes em ressonância com os desenhos do povo Huni Kuin chamados de kene kuin (“desenho verdadeiro”). Tecendo aproximações entre os grafismos e os motivos, Pedro partiu dos livros Antes o mundo não existia, que reúne narrativas míticas do povo Desana narradas por Umusï Pãrõkumu e Tõrãmü Këhíri, e também desembrulh0, de Pedro Rocha, para dar início a essa conversa.

Diante do desejo desafiador de fazer uma apresentação breve, mas que condensasse o universo Selvagem, Pedro e Maya exibiram a animação Pingo 1 –  “O Sol atravessa tudo”, cuja multiplicidade de línguas e traduções atendia ao caráter internacional do grupo, formado por cerca de 15 pessoas do mundo todo. Trechos da Flecha 7 – “A Fera e a Esfera” também fizeram parte desse momento, assim como os cadernos Selvagem Flecha 1 – A serpente e a canoa, Flecha 4 – A selva e a seivaA mitologia pictórica dos Desana e Bari: Sol Huni Kui, tanto digitais quanto impressos, os quais foram doados à biblioteca da Fundação.

Diferentes idades e idiomas reunidos na exibição do Pingo 1 – O Sol atravessa tudo


Ao final, os artistas propuseram uma dinâmica prática de escuta de cantos rituais Huni Kuin, momento em que os padrões de imagem e o som viram uma coisa só, uma experiência potencializada pelo som do rio que passava próximo. Essa vivência aproximou corpo, escuta e paisagem e foi muito bem recebida pelo grupo, que disse se sentir mais próximo da natureza após este momento de imersão. 

A atividade se estendeu além do esperado, e se desdobrou em uma ponte com a artista Luccia Veronese e seu trabalho com plantas. Ela se interessou pelo livro Una Isi Kayawa – Livro da Cura do povo Huni Kuin do rio Jordão, organizado por Agostinho Ika Muru e Alexandre Quinet, e publicado pela Dantes Editora (2019), reconhecendo afinidades com suas investigações que combinam tipos de plantas, colagens e pinturas. Além disso, os diálogos com Zineb Achoubie semearam em novas reflexões sobre conexões entre tapeçarias marroquinas e berberes, que representam povos nômades da África Atlântica e Mediterrânea, e os povos amazônicos como os Huni Kuin e os Yawanawa.

Para Pedro, que acompanha a Selvagem desde seus primeiros passos — das publicações com Anna Dantes à circulação da antiga Kombi-livraria, passando pela Nave Dantes, posteriormente, NAVEZONA —, a experiência foi enriquecedora, e também um gesto de pertencimento. O reconhecimento dessa trajetória se reforçou com o aceite de Pedro e Maya para mais uma residência pelo mesmo programa UNIDEE, abrindo novas possibilidades para que continuem a expandir o universo Selvagem em diálogo com culturas e saberes de todo o mundo.

Cadernos Selvagem doados para o acervo da biblioteca da Fundação Pistoletto