A VOLTA DO IDJA
Veronica Pinheiro
25 de setembro de 2025
Oficina de Desenho e Pintura com tinta de terra

As crianças do Complexo da Pedreira não são indivíduos, mas “pessoas coletivas” que conseguem, em meio ao caos, pulsar vida e amor. Elas sabem como segurar o céu quando ele está caindo. Elas sabem dançar num compasso tão harmonioso que até a vida para para vê-las se mover. Observá-las é ser cuidado pelo amanhã ainda hoje. Há um tanto de força e beleza naquele pedaço de infância que os diálogos sobre os processos de Aprendizagens vividos na Escola Municipal Professor Escragnolle Dória têm chegado a muitos lugares. Sorte tem quem já viu as crianças da Pedreira sorrir, mais sorte ainda tem quem as viu dançar. Apesar do esforço para descrever e narrar, palavras limitam a compreensão dessa experiência de Aprendizagens. Para compreender minimamente os processos de Aprendizagens na Pedreira é preciso o corpo inteiro somado ao sonho de trazer para os cotidianos a “normalidade da beleza”. Com olho de ver miudeza, como diz Kayque, e olho de ver bonito, elas transmutam espaço e, mesmo confinadas nas salas de aula sem poder ir ao banheiro por conta do tiroteio nos arredores da escola, elas armam paraquedas coloridos diariamente e despencam confiando nas memórias profundas de vida que trazem no corpo.

Enquanto os telejornais do Brasil reportavam ao vivo as dores da Pedreira, revelando ao mundo parte do que só os que vivem lá sabem, as crianças se fortaleciam entre traços de lápis e tintas de terra. Os disparos de arma de fogo e as vozes desencontradas para além dos muros da escola diziam “esses são os tempos do fim”. As crianças, porém, em tecido, com lápis e tinta desenhavam “tempos de começo”. Apenas 27 crianças foram à escola naquele dia. Os motivos que levam uma família a enviar seus filhos em dia de conflito para escola são os mais diversos possíveis, de insegurança alimentar à fuga das áreas de maior vulnerabilidade. Entretanto, seja qual for o motivo, isso revela que as crianças não estão tendo seus direitos garantidos. Como sujeitos de direitos, as crianças da Pedreira, assim como todas as crianças do mundo, têm direito à vida com dignidade.

As crianças da Escola Municipal Escragnolle Dória são capazes de enganar a morte, tal qual os Ibejis foram capazes de deter Ikú. Dentre os diversos itans de Ifá — conjunto de histórias presentes na cosmogonia iorubá — existe um que conta sobre o tempo em que a Morte montou armadilhas para matar as pessoas de um povoado antes do tempo. Quando os homens consultaram o grande Orumilá, ouviram que só os Ibejis, “orixás-crianças”, seriam capazes de deter Ikú, a Morte. E como os Ibejis, as crianças gêmeas, filhos de Oxum, pararam a morte? Com música, dança e brincadeiras. Brincar é tecnologia para manutenção da vida sensível de forma prática. Brincando de ser vamos sendo e recriando mundos.

A oficina Aprendizagens de julho, só aconteceu porque as crianças da escola se mostraram disponíveis para dançar, brincar e construir juntas uma história bonita para ressignificar um dia cheio de dores. “A volta do Idja” foi uma atividade coletiva de 3 dias com um grupo de crianças para construir um painel em tecido em celebração à volta da onça-pintada para as matas do Rio de Janeiro. Depois de 50 anos, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) do Rio de Janeiro identificou uma onça-pintada (Panthera onca) no Parque Estadual da Serra da Concórdia, em Valença, no sul do estado. A onça-pintada voltou à nossa terra. Para os Guarani, ela é um Idja, guardião da vida. E, para celebrar a volta do Idja, as crianças construíram um painel de 3 metros e coloriram a onça com a terra amarela retirada do quintal da escola. Essa atividade contou com a paciência dos pequenos e muitas horas de conversas sobre a NHE’ERY, Mata Atlântica.
A volta do Idja, onça-pintada, ao Rio de Janeiro foi recebida pelos pequenos como um presságio de dias bons. Pedro, 9 anos, enquanto riscava o tecido com lápis exclamou a alegria de saber que “É possível voltar o que um dia foi embora”. Sentimos todos que a exclamação de Pedro não falava só de onças.
“Não acabou, estava escondida em algum lugar muito secreto.” Essa foi a consideração feita por Gabriel, também 9 anos, que fez muito sentido para as crianças.

Com o tecido de algodão cru preso no quadro branco, utilizamos a projeção no tecido como recurso inicial. As crianças riscaram o tecido com lápis de escrever. Depois cobriram os traços com tinta marrom. A atividade foi extremamente desafiadora para Gabriel, o menino tem no peito uma pressa de tirar o fôlego, e finalizado o primeiro dia de atividade, era preciso aguardar o dia seguinte. Aguardar é verbo não conjugado, infinitivo, porém sem neutralidade. Esperar é verbo que nomeia ação e, na Pedreira, esperar está sempre acompanhado de um advérbio de modo. O dia seguinte é esperado com fé e regado a preces. Para Gabriel, esperar é tarefa comprida e ele queria ver O Guardião Pintado no tecido. Conversamos sobre a necessidade do descanso para manter a concentração e a alegria durante todo o processo de construção do painel.
No segundo dia de atividade, calmamente pinta por pinta ganhava cor. Ao ver que os traços começavam a revelar o Idja, Gabriel repetia, todo orgulhoso de si e de seus companheiros: “Não sabia que a gente era capaz de fazer algo tão bonito.” Ele tinha pressa ao mesmo tempo que sabia que tínhamos etapas a seguir. Contando com o final de semana, foram 5 dias no total. Ver Gabriel conversar com sua ansiedade e confiar em seus colegas para finalizar o painel foi aprendizado compartilhado sem palavras, lido nos olhos e nos gestos…

As crianças finalizaram a pintura sem mim.
Terra do quintal da escola colhida e peneirada, elas misturaram água e cola branca ao pó da terra. A minha ausência deu ao grupo a certeza de que estávamos tão alinhados que eles poderiam continuar sem mim, pois nossos acordos estavam fortalecidos nas camadas mais profundas que compõem a cada um de nós. Enviei um recado: “Eu sei que vocês sabem o que fazer!”
Recebi um vídeo com eles dizendo: “Tia, obrigada por confiar em nós. A gente sabe o que fazer.”

Nunca tive dúvidas de que eles poderiam concluir o trabalho sozinhos. Crianças adiam o fim do mundo. Tambores encantados e crianças brincando são capazes de enganar a morte. Tenho certeza de que os Ibejis compartilham ainda hoje com as crianças a sabedoria que desfaz as armadilhas do caminho.
O painel esteve exposto na etapa regional da 5ª Mostra de Multilinguagens da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro no mês de agosto. E, enquanto escrevemos esta página de Diário, recebemos a notícia de que o painel A volta do Idja foi selecionado para a Mostra Municipal de Artes Visuais. É o segundo ano que as crianças vão para a segunda etapa da Mostra. Em 2024, elas voltaram para a escola premiadas na categoria “Lentes do Olhar”.
Enquanto isso… vamos construindo caminho para que a escola se mantenha viva!
Viva Viva Escola Viva
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Descrição da Oficina
Pintura em tecido de algodão 3m x 1,60m
Terra amarela do quintal da escola e tinta de tecido sobre tela
Técnica de muralismo: As crianças riscaram com lápis de escrever no tecido a imagem da onça projetada. Cobriram os contornos e partes escuras com tinta de tecido marrom. Depois preencheram o corpo da onça com tinta de terra, geotinta, preparada pelas crianças.
Para preparar a tinta, passamos a terra numa peneira fina. Depois as crianças adicionaram 2 copos de água para 2 copos de terra e 1 copo de cola branca.
Materiais: projetor, computador, tecido de algodão, terra amarelada, tinta de tecido marrom e verde.
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Referências
Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak
Idjas – CICLO NHE’ERY • AYVU PARÁ https://selvagemciclo.org.br/ciclo-nheery-ayvu-para/
