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Diário Veronica Pinheiro

A SABEDORIA DOS SÍMBOLOS AFRICANOS

By 23 de setembro de 2024novembro 27th, 2025No Comments
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A SABEDORIA DOS SÍMBOLOS AFRICANOS
Veronica Pinheiro

23 de setembro de 2024

 

Adinkras: oficina de pintura e criação de jogos de cooperação

“Quem sabe de onde veio não se perde no caminho.” Todas as vezes que meu pai me levava à rua repetia esse provérbio. Ele me treinava para reparar no caminho. “Não se distraia no trajeto.” Ao chegar no lugar desejado, eu era perguntada sobre o que tinha visto e se eu saberia voltar. Quando eu falava sobre a cor de um muro ou que tinha visto um pipoqueiro, meu pai falava que eu deveria prestar atenção em coisas permanentes, como uma grande árvore ou um comércio de itens de primeira necessidade. Deveria também prestar atenção no formato do muro, no desenho das grades e não somente nas cores, porque as cores poderiam mudar e o pipoqueiro poderia não estar lá na volta.

Fotos: Veronica Pinheiro

Minha avó nasceu livre, em 1910. Mas a mãe de minha avó nasceu num tempo em que pessoas eram vendidas no Brasil como mercadoria. Nossas histórias eram um quebra-cabeças incompleto. Cada informação era preciosa: rezas, ritos, rodas, receitas. Meu pai sabia que era importante observar as grades, eu e ele achávamos que o motivo era o fato de que quase ninguém mudava as fachadas, porque as ferragens das fachadas eram muito caras. Meu pai e eu perdemos algumas informações importantes ao olhar as grades: elas poderiam conter símbolos africanos com mensagens importantes. Muitos africanos que vieram para o Brasil eram exímios ferreiros. Os africanos escravizados traziam consigo conhecimentos e tecnologias. Dentre os saberes estava o conhecimento da metalurgia do ferro na África Ocidental, conhecimento que influenciou de forma relevante as relações sociais e econômicas dessa população na diáspora. Isso ninguém conta para as crianças!

As tecnologias trazidas no corpo se articulavam com as memórias sagradas de relação com a vida. O ferro, por exemplo, não era um recurso natural, mas um ser guardado por Gu, um ancestral muito antigo. Gu, o deus ferreiro, ensinou os homens a forjar o ferro. Os ensinamentos de Gu expandiram as formas do povo Fon, reino de Daomé, no Benin, a se relacionar com a terra e com a vida. No Brasil, Gu aparece como Ogum – representante da coragem, da tecnologia, do trabalho árduo, da caça, da agricultura, do ferro e, se for preciso, da guerra. Os conhecimentos e a relação com a metalurgia eram orgânicos, sagrados e estruturantes de uma cosmologia. Porém, o eurocolonialismo, que nunca respeitou a vida e a existência dos seres, além de sequestrar e escravizar pessoas africanas, viu nessa relação mais uma forma de enriquecer e ferir a Terra com a extração do ouro.

Rodeia… Rodeia… Rodeia, meu Santo Antônio.

Essa volta é para falar da sabedoria dos símbolos presentes nos Adinkras, comunicação gráfica, trazidos de Gana. Agora que escrevo percebo o quanto rodeio para falar de um assunto. Não sei como isso funciona para as crianças. Mas ainda não aprendi a ser de outra forma.

O território que hoje conhecemos como Gana foi uma região conhecida como Costa da Mina (Togo, Nigéria, Benin e Gana), os africanos escravizados trazidos dessa região pertenciam aos povos Fanti, Ashanti, Ewe, Fon, Egbe, Yourubás e Ibos. Eles ficaram conhecidos no Brasil como “negros de mina”. Homens de sabedoria e conhecimento tão relevantes que se comunicavam com seus parentes através dos símbolos nas fachadas das casas e nas peças criadas com ferro. Até hoje encontramos os símbolos Adinkras nas grades de portas e janelas no Rio de Janeiro. Para além de uma opção estética dos ferreiros, os símbolos comunicavam que ninguém estava sozinho no caminho. “Preste atenção no caminho.”

Fotos: Veronica Pinheiro

Na oficina de pintura e criação de jogos colaborativos, convidei as crianças a prestar atenção nas grades. Elas não podem fotografar o território por questões de segurança. Mas eu fotografei alguns portões da rua onde moro, mostrei para elas e elas me disseram que viram esses símbolos no caminho. Falei para elas que os símbolos comunicam memórias de um povo antigo, que deu origem ao nosso povo. Lemos o livro Quanto de África tem no dia de Alguém. Relemos Os tesouros de Monifa. E as convidei a reparar no tanto de mensagens de vida que nos cercam. A vida se comunica o tempo todo, a gente que desaprendeu a entender. Mas se desaprendemos, podemos reaprender.

Fotos: Veronica Pinheiro

Curiosamente, o Adinkra com que as crianças mais se identificaram é o Sankofa. Curiosamente, Sankofa é o símbolo mais presente nas grades das portas e janelas. O pássaro que olha para trás é também representado graficamente por formas que lembram a representação do coração. Sankofa resume a ideia de futuro ancestral. O provérbio que o acompanha diz: “Nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou atrás”. Sankofa é símbolo da sabedoria de aprender com o passado para construir o futuro. E essa mensagem está no caminho desde que os irmãos ferreiros chegaram ao Brasil.

 

“Preste atenção no caminho. Você precisa saber voltar.”, dizia meu pai.

 

A escola de ensino regular ensina a olhar para frente, para o futuro. Mas o tal futuro da humanidade tem assustado as crianças. Por isso, convido meus pequenos companheiros a olhar para o passado. Não o passado da escravidão. Mas o passado cosmológico, que insiste em se comunicar conosco. O passado da tecnologia das relações de envolvimento com a vida.

Lembrei de Cris Takuá, minha mestra e seus ensinamentos. Acho que estamos acordando memórias por aqui.