A FORÇA DAS MONTANHAS
Cristine Takuá
20 de junho de 2024
Foto: Carlos Papá
Avózinha montanha
A força das pedras
Em meio à imersão da Espagiria
Muito profundos os ensinamentos
trazidos de tempos muito antigos
A cura é um delicado diálogo
Com os elementos
Com todos seres
Que nos possibilita a transformação
E tece laços de animação
Para o fortalecimento das crianças
dos Territórios
E o acordamento das memórias
Viva viva as Escolas Vivas
Viva os laboratórios vivos
Das Casas de Essências.
Foto: Ju Nabuco
Caminhando por entre montanhas e vales, chegamos em São Gonçalo do Rio das Pedras em Minas Gerais, terra sagrada de muitas pedras e histórias. Lá, nesse lugar encantado, encontramos uma escola de verdade, uma Escola de Espagiria, coordenada por dois professores muito sensíveis e atentos aos mistérios profundos da natureza.
Durante três dias acompanhei os coordenadores das Escolas Vivas Guarani e Tukano-Desana-Tuyuka, e três jovens que foram junto. Falamos de História, Filosofia, Alquimia e Espagiria (a arte de produzir remédios, separar e unir, extrair e purificar através da sensível arte de conhecer a matéria dos seres).
Dialogamos sobre conhecimentos profundos e, através da troca entre o grupo reunido, sentimos que o conhecimento, quando entra dentro da gente, ele fixa e não sai mais. A partir das disposição em escutar com atenção nos permitimos sentir e perceber o que nos rodeia. Tudo o que desce do céu e sobe da Terra transmuta e nos orienta nessa caminhada de estudos e aprofundamentos na busca do Bem Viver.
Fotos: Ju Nabuco
O sonho das Escolas Vivas é ativar, animar e criar teias de afetos e cuidados, onde possamos caminhar cuidando de quem cuida e incentivar a semeadura dos saberes. Quando plantamos um jardim dentro nós a gente assume a responsabilidade de ser um agente multiplicador e capaz de ultrapassar a barreira do visível e a enxergar e dialogar com os seres invisíveis.
Um grande amante das plantas foi Paracelso, filósofo e médico do século XVI. Ele dizia que os humanos começam a adoecer quando se afastam de Deus, a natureza. Ele dizia que:
“Quem nada conhece, nada ama.
Quem nada pode fazer, nada compreende. Quem nada compreende, nada vale. Mas quem compreende também ama, observa, vê…
Quanto mais conhecimento houver inerente numa coisa,
Tanto maior o amor…
Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como as cerejas, nada sabe a respeito das uvas.”
Assim passamos três dias dialogando, colhendo plantas e preparando remedinhos e, nesses momentos tão sensíveis, aprendemos que a força do céu que está na planta desperta a força que habita em nós. Mas nos processos criativos de transformação da matéria precisamos de atenção e concentração. Pois a dispersão pela fala demasiada e a desatenção provocam o desperdício do tempo.
Foto: Ju Nabuco
Dessa forma pude sentir e compreender a profunda relação com os elementos fogo, terra, água e ar e com os seres elementais: vegetais, animais, minerais e universais. Numa profunda conexão de tempos ancestrais onde filosofias Guarani, Tukano, Maxakali e lá do Egito se cruzaram e dialogaram numa profundeza encantadora.
Os jovens se inspiraram, cantaram, choraram e poetizaram suas percepções e inspirações de seguir caminhando, fortalecendo as Escolas Vivas e o sonho de alcançar a boa e bela forma de ser e estar em seus territórios.
Foto: Ju Nabuco
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Esse encontro foi possível através da articulação de Ju Nabuco com Mestre Índio e Ana, professores da Escola de Espagiria, e das Escolas Vivas junto ao Selvagem, ciclo de estudos sobre a vida.
