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Diário Veronica Pinheiro

A AVÓ, AS CRIANÇAS E AS ÁGUAS

By 6 de agosto de 2024novembro 27th, 2025No Comments
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A AVÓ, AS CRIANÇAS E AS ÁGUAS
Veronica Pinheiro

06 de agosto de 2024

 

 

“As águas são como nossas parentes. Antigamente, os meus avós diziam que não se jogava sujeira na água, pois é a mesma coisa que jogar uma sujeira no olho de nossa avó ou da nossa mãe”, kujá Iracema Gah Teh 

 

Foto: Tania Grillo

Uma conversa líquida e circular. Confluências entre uma avó Kaingang, as crianças do Rio e as águas da Baía de Guanabara. Ela, do Rio Grande do Sul. Elas, do Rio de Janeiro, nascidas nas proximidades do Rio Acari. A Baía, um estuário de inúmeros rios, um corpo d’água parcialmente encerrado, formado pelo encontro das águas doces que se misturam com a água salgada do mar. A avó, as crianças e as águas se encontraram na cidade do Rio de Janeiro, no Morro do Pão de Açúcar.   Na agenda escolar das crianças, a atividade consta como passeio escolar; chamo, porém, de Encontro. Um movimento de conexão e ampliação de olhar. Pois, se cada um enxerga com o olho que tem e entende apenas o que os pés reconhecem como caminho, quando seres com olhares diferentes, cujos pés reconhecem outros caminhos, se encontram, novas tramas de vida são estabelecidas. No encontro, os diversos se conectam de forma tão natural que um indivíduo pode começar a desejar outras possibilidades de se relacionar com a vida, com o cosmos e com ele mesmo. O encontro é o evento natural que mantém a vida. É assim na floresta, nas cordilheiras, nos quilombos… nas favelas. 

Esta página de diário é um breve e superficial relato do encontro de uma avó Kaingang com as crianças no alto de um morro rodeado por águas. Em 3 de julho de 2024, recebemos as crianças na escola às 7h30 para o café da manhã. O ônibus rosa já nos esperava. A cada dia, mais pessoas se unem para sonhar junto caminhos de vida para a favela da Pedreira. Até o motorista, que também é dono do ônibus, se tornou um parceiro nas atividades do Grupo Aprendizagens na escola. Seu Jonas disse que a viagem do dia 03 era por conta dele e nada nos cobrou naquele dia. Da escola, levamos uma turma do 5º ano², professores e a querida diretora Daniele Oziene. A rotina de 40h semanais de trabalho somadas às burocracias e às muitas responsabilidades da função de diretor escolar numa escola no Município do Rio de Janeiro tornam momentos como esse muito especiais; Dani estava conosco. Esperavam-nos na Urca, na subida do teleférico, 6 voluntários da Comunidade Selvagem³, Rafael Cruz e Dona Iracema, com sua família Kaingang.  

A quantidade de adultos é pensada para que, durante os deslocamentos a pé, as crianças não andem enfileiradas. É também para que os professores estejam deslocados da função de regente. Em grupos bem pequenos, sem uma voz que, o tempo todo, diz o que o grupo precisa observar, crianças e adultos podem prestar atenção em tudo, num único ponto ou em nada. Não entendo a necessidade ocidental de preencher todas as lacunas o tempo inteiro. Deixar que os olhos encontrem caminho; que os ouvidos encontrem caminho; que a pele encontre caminho é permitir que as memórias adormecidas pelas rotinas e pelo engessamento do processo escolar despertem. A educação ocidental anestesia. A vida, entretanto, é sinestésica. Acordar é reconectar com o que nos mantém vivos. Apesar de urbanizados, somos natureza. Nossa urbanidade é recente, artificial, acessória e imposta. Toda criança tem o direito de saber que é natureza. Quando nos entendemos como natureza, não nos sentimos sozinhos. As cidades são lotadas de gente, e, ainda assim, as pessoas se sentem sozinhas. Estar desconectado faz um indivíduo sentir solidão numa casa cheia de seres. Digo seres, porque a cidade e seus modos de ser e estar, reproduzidos na escola, criam modelos de conexão apenas entre os iguais. Num zoológico, os animais convivem apenas com seus iguais, como se na natureza fosse assim. Num condomínio, também, os iguais que compartilham aquele espaço. É assim também na maioria das escolas.

 

Foto: Carol Delgado

Fomos recebidos no Morro da Urca pelas águas. Uma imensa nuvem atravessava o maciço e nos escondia. Ficamos por alguns minutos dentro da nuvem. Cercados de água que umedecia peles e cabelos sem molhar. Generosamente fomos guardados nas águas dos rios de cima. A cena me lembrou uma casa de rezo cheia de fumaça.

Abraço de água doce. Por alguns minutos pensei que não conseguiríamos contemplar as águas da baía, nem o horizonte, não que isso fosse ruim. A beleza das águas de cima era tão encantadora que aquele abraço já tinha valido a viagem.

Foto: Carol Delgado

O encontro era com a avó, as crianças e as águas – as águas da baía e as águas que se movem dentro dos seres. A avó Iracema é kujá (liderança espiritual) do povo Kaingang, natural da Terra Indígena de Nonoai. Conhecedora das ervas medicinais e dos poderes da mata. É também Cacica da Retomada Gah Reh, que fica localizada no Morro Santana. Sempre há em nosso roteiro de visitação um momento para conversas. Sábia e muito atenta a tudo, Iracema entende que cada um vê com o olho que tem e compreende a partir das próprias perspectivas. Iracema trazia sobre sua cabeça seu cocar de penas, certamente as crianças da Pedreira nunca tinham visto, até aquele momento, alguém de cocar. Iracema, no entanto, partiu do lugar comum, e disse: “Eu sou Iracema, avó Kaingang”. Pronto! Uma avó, toda criança sabe o que é uma avó. Essa informação bastava para nos tornar uma família, ainda que temporária.

Foto: Carol Delgado

Rafael Cruz, ator e pesquisador das infâncias, foi quem começou a conversa. Ele gentilmente aceitou o convite do encontro e apresentou as águas da Baía de Guanabara com dados e palavras encantadas de gentileza. A mim coube provocar o grupo: quem aqui duvida que somos natureza? Das crianças, ouvi reflexões repletas de sabedoria. Enxergando a dúvida no olhar de alguns, perguntei à Cacica Iracema: algum dia a senhora duvidou que era natureza? Ela respondeu trazendo as águas pra conversar de maneira inusitada: nunca duvidei, porque sou água redonda. Paramos todos para ouvir com olhos e ouvidos. Até os visitantes do Parque do Bondinho que passavam e os funcionários do parque pararam para ouvir as águas que fluíam e confluíam da avó Iracema. Uma avó líquida e circular. Ainda me pego pensando sobre isso.

O povo Kaingang concebe dois tipos de água no mundo: Goj tej (água comprida, dos rios) e Goj ror (água redonda, as nascentes, os lagos). Essas águas são complementares, como toda a cosmologia Kaingang. Os irmãos Kame e Kainru são responsáveis pela origem do mundo, conforme os Kaingang. Foram eles quem criaram e atribuíram marcas a todas as plantas, animais e ao povo Kaingang. Tudo que existe na Terra tem uma metade criadora Kame ou Kainru. E cada metade tem poderes e energias diferentes que são opostas e complementares.

Kame – gêmeo ancestral da marca comprida – o Sol e os rios pertencem à metade Kame

Kainru – gêmeo ancestral da marca redonda – a Lua e as nascentes pertencem à metade Kainru 

Foto: Carol Delgado

A conversa transitava entre conselho e cura, história e ciências, sorrisos e olhares. No colo da montanha, nossa avó ancestral, ouvimos a avó cacica falar sobre amar. Ao final de suas palavras, nos abraçamos todos com águas, em águas, sob o Sol. Os currículos pensam em relações étnico-raciais, por aqui, porém, pensamos em relações de vida. Para continuar pensando, deixo aqui transcrito parte do que ouvimos: 

“A água é um sagrado, é uma vida para nós
Através dele, nós vivemos também.
Ele é o nosso sustento, ele faz parte de nós.
Ele faz parte de todo ser vivo, a água.
Jamais a gente vai sobreviver sem,
tanto a água salgada, como a água doce.
A água salgada é bom também para uma doença que dá na pele.
E a água doce, também, é muito bom para o corpo. Para qualquer ser vivo.
Quando eu falo ser vivo, também é a nossa mãe Terra, que sobrevive dela.
A árvore. Nós. Tudo isso que vive na terra.
Tudo que vive na água.
Então ela é muito sagrada.
Porque que a gente, antigamente, não sujava ela?
Eu digo, não sujava ela, a gente não bota coisa suja nela.
A minha vó e o meu vô diziam para mim:
‘Quando tu bota uma sujeira na água, tanto no olho da água, como na água doce, é a mesma coisa que tu estar botando uma sujeira no olho da tua avó, da tua mãe.’
Elas têm marca.
Tem a água que nós chamamos Goj ror, Goj ror.
Para nós, vocês devem saber, né?, que é quando a água nasce.
Esse se chama Goj ror.
A Guaíba, para nós, ele é ti ninó goj mag (o braço da água grande).
Porque que eu digo ti ninó goj mag (o braço da água grande)? Ele é doce ou é salgada?
Ti ninó … como que é o nome?
Ele é ti ninó do mar (o braço do mar)
É doce. É, ele é doce.
Então, de onde que ele vem?
São todos esses goj ror que desce nela.
Então, ele é goj tej.
E também tem o goj ror que desce nele, para complementação.
Então eles têm marca, eles complementam um ao outro. Como nós, Kaingang, tem nossas marcas Kamē e Kainhru
Se não fosse esses goj ror, nós não tinha como sobreviver.
Então são sagrado, faz nossa parte, nós faz parte dela”

Transcrição fala Gah Teh durante espetáculo de dança contemporânea Água redonda e comprida. O mesmo foi compartilhado por Iracema no encontro com as crianças.

 

__________

¹  kujá – pajé e líder indígena Iracema Gah Teh

² nosso desejo é levar todas 3 turmas de 5º ano da escola ao Pão de Açúcar. Até o momento, já levamos duas turmas.

³ Ana Paula Santos, Carol Delgado, Geórgia Macedo, Tania Grillo e Camille Santos

 

Agradecimentos: 

Geórgia Macedo que tornou possível a vinda de Iracema. Geórgia é mestre em Antropologia Social pela UFRGS e bailarina. E atua com produção cultural, na parceria com artistas indígenas  e como educadora de danças na cidade de Porto Alegre.

Rafael Cruz ator e pesquisador das Infâncias, membro do GITAKA, Grupo de pesquisa GITAKA: “Infâncias, Tradições Ancestrais e Cultura Ambiental”

Carol Delgado é antropóloga de formação e curiosa de natureza. Mãe, pesquisadora, escritora e fundadora do Puxadinho, um laboratório em rede de experimentações antropológicas para futuros plurais. 

Família de Iracema Kaingang:
Angélica Kaingang, natural da Terra Indígena do Votouro, é graduada e mestre em serviço Serviço Social e Doutorando em Educação pela UFRGS
Nyane, 13 anos, desde a barriga acompanha sua mãe Angélica Domingos, pelas cidades e territórios indígenas, nas lutas dos povos indígenas.