SONHO DA TERRA VIVA
Cristine Takuá
22 de agosto de 2024
Foto: Cristine Takuá
Essa terra é nossa.
Nũhũ yãgmũ yõg hãm.
Por que essa terra é nossa?
Sem a terra não tem escola diferenciada. Sem a terra não tem saúde diferenciada. Porque nós lutamos para conquistar a terra. Realizamos nosso sonho e hoje vamos criar muitos projetos em cima da terra. Da nossa terra. Por que nós chamamos Aldeia-Escola-Floresta? Porque onde tem aldeia, tudo é “sala de aula”. Onde tem árvore e sombra é “sala de aula”. As crianças vão cantar o nosso ritual. Imitam. Na beira do rio, elas vão brincar, cantar e escrever na areia. Tudo é “sala de aula” dentro da aldeia. Todos os homens vão para dentro do mato e vão cantando dentro do mato. Vão tirando madeira e vão cantando. Por isso, colocamos o nome Aldeia-Escola-Floresta, porque toda a aldeia é escola. Onde tem sombra, as mulheres vão se juntar e fazer os artesanatos. As crianças vão chegando, escutando do lado e aprendendo também. A aldeia inteira é escola. Onde tem casa de ritual é escola verdadeira, muito importante. Vai ter canto, história, cultura, comida tradicional. Nós, comunidade da Aldeia-Escola-Floresta, queremos terra para Yãmĩyxop, para crianças, para o futuro. Porque nós nascemos todos junto com a floresta, nascemos todos juntos com a caça. Essa terra é nossa mãe porque ela alimenta todos nós. Os nossos cantos registram todas as caças. Alguns bichos que perdemos, o canto registra. E os desenhos também representam os animais. Tem bichos grandes que perdemos, mas registramos os seus nomes. Nosso canto fala seus nomes. Nós, Maxakali, somos sofredores, mas nosso Yãmĩy nos acompanham. Todos os dias os Yãmĩy saem comigo, com todos os Maxakali.
Fotos: Carlos Papá
Por que eu falo Aldeia-Escola-Floresta?
Se eu sair daqui, se eu for para o mato, o meu Yãmĩy está me acompanhando, eu vou cantando dentro do mato. Se eu brincar no rio, outro Yãmĩy vai me acompanhar. Eu vou imitar qualquer bicho: peixe, jacaré, andorinha, vou fazer seus cantos. Por isso é que chamamos Aldeia-Escola-Floresta. Aqui, a minha casa é escola, porque estamos passando o nosso conhecimento para os jovens que estão aprendendo agora.
Nós somos professores. Nós estamos falando. Eles estão escutando as falas. Pegamos a palavra boa para esperar a nossa memória, para não cair. Tem que crescer. Ter o conhecimento diferente, pegar o outro conhecimento para crescer a Aldeia-Escola-Floresta.
Nosso sonho é pegar a terra e recuperar. Porque ela precisa ser curada, precisa de tratamento. Porque a terra é viva. Terra fala, terra olha a gente e terra grita. Mas o fazendeiro não escuta que a terra está gritando e precisa de socorro. Por isso que nós queremos reflorestar, e fazer a Aldeia-Escola-Floresta.
Palavras-sonho de Isael Maxakali
Artes: Marcos Maxakali
Foto: Cristine Takuá
No início de agosto, fomos visitar a Escola Viva Maxakali na Aldeia-Escola-Floresta. Foi um encontro muito emocionante, onde conseguimos dialogar, ouvir os cantos dos espíritos, desenhar com as crianças, os jovens, os pajés e as mulheres anciãs.
A arte é um portal muito poderoso para os Maxakali, pois eles transformam a memória dos cantos em desenho com uma habilidade e concentração muito encantadora.
Com o apoio do Selvagem e do Instituto Tomie Ohtake, realizamos uma oficina de três dias e dialogamos sobre o território, sobre os animais espíritos de cada ritual, sobre os alimentos tradicionais e todos os seres que habitam o território.
Da esquerda para a direita, artes de Marineide Maxakali, Juan Maxakali e Jurema Maxakali.
Mesmo a floresta tendo sido quase que totalmente devastada, os Maxakali guardam a memória de todos os animais e vegetais nos cantos, dezenas de espécies de abelhas e de plantas.
Um sonho que venho semeando em meu coração e em meus pensamentos é de conectar o Hãmhī, Terra Viva, um projeto maravilhoso de reflorestamento e implementação de quintais agroflorestais nas aldeias Maxakali, com as ações da Escola Viva e com a cura do corpo e do espírito. São muitos os desafios que as comunidades enfrentam hoje, como o lixo, a tristeza da perda da floresta, a falta de caça, o preconceito dos não indígenas, que vivem nos entornos das aldeias e na cidade. Todos esses desafios acabam levando ao alcoolismo e à tristeza. São muitos os problemas que exigem uma força de resistência e de ampliação da consciência para a transformação na ação da micropolítica do dia a dia, do próprio terreiro que nos rodeia.
Foto: Carlos Maxakali
As palavras-sonho de Isael Maxakali são profundas intenções que são sopradas em palavras por muitos Maxakali, homens e mulheres que anseiam ver a floresta viva, as crianças felizes e o suspiro tranquilo do Bem Viver em seus territórios.
Na caminhada que fizemos chegando na Aldeia-Escola-Floresta, tivemos a sensível possibilidade de perceber a força e beleza da resistência das mulheres que, com suas cores e risos, transformam os desafios em poesias a cada novo amanhecer.
Resistir para Existir
Sonhar para não deixar de Acreditar
Que é possível metamorfosear as relações
E fazer brotar uma realidade de mais encantos
Viva viva as Escolas Vivas!
Foto: Cristine Takuá
Foto: Carlos Papá
