O SENHOR DO QUINTAL
Veronica Pinheiro
27 de agosto de 2024

Os quintais que conheci eram regidos por senhoras. As senhoras dos quintais. Cresci sem um quintal para chamar de meu. No entanto, imergia semanalmente no quintal de Dona Irene, minha avó. Um quintal cheio de plantas, árvores e água. Planta para comer, para banhar, fazer chá, para benzer e para enfeitar os olhos. Quintais são lugares suspensos, onde se brinca de ser até chegar a hora de ser. Assim como eu, a maioria de meus pequenos companheiros nessa jornada de despertamento de memórias na Favela da Pedreira não tem um quintal em casa.
Andando por quilombos e aldeias fico pensando sobre quintais, terreiros e a ausência de lugares comunitários em espaços urbanos periféricos. A ausência desses espaços de brincar influencia no sentido comunitário, pois, quando os seres brincam, representam o mundo em sua volta e os mundos que carregam nas memórias. Brincando, o passado e o presente são reinventados. Brincar não é uma ação exclusiva da infância: de onde venho, brincam mulheres, homens, astros, plantas, animais. Seres encarnados e encantados também brincam. Era comum olhar pro céu e dizer que o Sol estava se escondendo; dizer que as árvores estavam dançando… que o vento cantava. Era comum também brincar com as entidades em casa.

A Escola Municipal Professor Escragnolle Dória tem um quintal grande e pouco utilizado por questões de segurança. O quintal é o espaço mais vulnerável da escola, exposto ao tempo e à “bala perdida”. Se as crianças da periferia não têm quintal em casa e não têm locais comunitários, onde brincar? Faço da sala de leitura um quintal, um quintal Selvagem com fogueira e luar. Entendemos que os passeios organizados pelo Grupo Aprendizagens junto à escola também precisavam ser momentos para brincadeiras. Ao passear com as crianças pela cidade do Rio de Janeiro, percebemos que, entre elas, acontecem movimentos profundos de ampliação de olhar sobre si e sobre o território; autorregulação das emoções e impulsos; além de aflorar o sentimento comunitário. Organicamente, ao sair da escola, vemos alunos “bagunceiros” se tornarem líderes, assumindo o cuidado dos colegas que necessitam de suporte. Uma criança segura a outra pelas mãos e se disponibiliza a passar o dia todo ao lado do colega que está com medo ou ansioso.
O quintal é o lado de fora, o lugar dos encontros e das construções afetivas, sagradas, comunitárias e festivas. Nossos passeios são um convite para fora. E algumas pessoas muito gentilmente têm colaborado para que possamos sair com segurança e estrutura. Fomos à Quinta da Boa Vista com o apoio financeiro de um ex-aluno da escola. Seu Altair estudou na Escragnolle nos anos 80 e, quando soube que estávamos levando as crianças para encontros com a natureza fora da escola, prontamente se disponibilizou para pagar ônibus e lanche. Seu Altair e sua esposa eram os anfitriões do quintal, igual acontece nas folias nos quilombos. Muitos quintais foram abertos naquela manhã.
Taiana Simões¹ abriu a porta dos Quintais Brincantes, trazendo pra brincadeira Bia Jabor e Rafael Cruz. Bia já faz parte da comunidade Selvagem e Rafael está nos convidando para brincar nos quintais da UNIRIO. A Quinta da Boa Vista seria apenas nossa localização na terra.
Taiana, depois do piquenique e da caminhada, falou:
“Conta a história que há muito, muito tempo, nessa mesma terra, morava um senhor chamado Quintas. O senhor Quintas amava o seu quintal e cuidava com todo carinho de tudo o que naquela terra crescia. Amava tanto e cuidava tanto que o quintal era a coisa mais linda de se ver. E não só de beleza vivia esse quintal. Todos os frutos que cresciam ali tinham algo de muito diferente dos de qualquer outro lugar. Eles eram enormes e muito, mas muito doces mesmo! Eram tão grandes que as laranjas eram do tamanho da cabeça das crianças que corriam por ali, as melancias chegavam a ser do tamanho da roda dos caminhões.
Era tanta fruta, grande e deliciosa que o quintal do senhor Quintas oferecia comida para toda a comunidade em volta. Fosse bicho gente ou bicho passarinho, macaco ou gambá, todos que passavam por ali tinham o que comer e uma boa prosa para trocar com o senhor Quintas.”
Me assustei! Conheço a Quinta desde criança e nunca havia ouvido falar do Senhor Quintas.
Fui acompanhando a narrativa atenta! Onde estava eu, que não conhecia aquele senhor incrível? Me dei conta de que o que Taiana contava era verdade criada, verdade literária que acontece na imaginação.

“A notícia desse quintal encantador, com frutos gigantes e deliciosos correu de boca em boca. E trouxe mais uma série de curiosos que só queriam pegar algo para si. E foi assim que, dia após dia, o quintal inteiro se entristecia, nada era como antes, nada era mais tão vibrante. E, conforme o tempo passou, o senhor Quintas viu seu quintal morrer pouco a pouco, planta por planta. Até que, sem saber mais o que fazer para salvar o seu tão querido quintal, o senhor Quintas começou a sentir uma tristeza tão grande, mas tão grande, que começou a cavar um buraco na terra, bem no meio do seu quintal. Cavou um buraco bem fundo e ali colocou seus dois pés, cobriu o buraco com terra e esperou, esperou, esperou, até que veio a chuva. Com a chegada da chuva na terra, os pés do senhor Quintas começaram a criar raízes, que se aprofundaram cada vez mais na terra. Suas pernas ficaram rígidas, se transformando em um tronco duro e muito firme. Seus braços e cabelos se voltaram para o céu, cresceram e se transformaram em galhos e folhas bem altos e vistosos de se ver. Assim, todas as partes do corpo do senhor Quintas se transformaram em uma grande e bela árvore, exceto uma parte que batia dentro do peito do senhor Quintas, marcando o ritmo de sua nova vida. Se tornou assim o homem Arvoredo, a árvore guardiã desse quintal.”
“Tia, seu Quintas existe?”
Respondi: “acho que sim”. Angélica, de 08 anos, já havia me explicado no início do ano em visita ao Jardim Botânico que a gente era meio árvore.
Percebendo a dúvida nos olhos de quem ouvia, Taiana entregou estetoscópios para as crianças escutarem o coração das árvores. Assim, a dúvida deixou de existir, todas as árvores daquele quintal tinham um coração pulsante. O senhor dos Quintais estava ali.
As crianças, mais atentas que eu, conseguiram ouvir o coração da jaca bebê. “Tem que cuidar das árvores, né, tia? Tá tudo vivo.”

Tudo está vivo. Depois de me dizer isso, Bia sai correndo para os braços de sua avó Lúcia. Até minha chegada à Escola Escragnolle, Lúcia era a professora responsável pela sala de leitura da unidade. Ela se aposentou semanas depois da minha chegada, porém está presente em todos os passeios como voluntária. Lúcia, de alguma forma, está plantada, trazendo vida à escola de outras formas. Durante muito tempo desejei ser vento. No entanto … junto com as crianças, tenho desejado ser árvore plantada.

Fotos das crianças da Escola Municipal Professor Escragnolle Dória
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¹Taiana Simões, educadora antirracista, com o olhar sensível para a natureza e as infâncias. Realiza trabalhos integrando diversas áreas do conhecimento como a alfabetização ecológica, o ensino de ciências, a contação de histórias, o letramento racial e a agroecologia.
História do senhor Quintas, de Henrique Santiago, o criador da Ecobé
