ALEGRIA É FORÇA VITAL
Veronica Pinheiro
08 de novembro de 2024
Foto: Carol Delgado
No início do ano letivo de 2024, vivi a dor de ver o medo nos olhos das crianças. Esbarrei com esse sentimento poucas vezes na vida, entretanto o reconheço no ar. Eu olhei o medo nos olhos por instantes eternos. Esse encontro foi descrito neste diário com o título de “Essa semana não recebi bilhetes”. Ali duvidei de minha capacidade de compartilhar cuidados. Mas meu coração prenhe de sonhos acreditava em tempos de dança. A dança, que eu sabia dançar, movimentava corpos e afetos largos, irreverências e gentilezas, reverências e memórias. Meu avô, sanfoneiro e brincante, ensinou para meu pai, angoleiro e brincante, que o medo se espantava com canto. “Canto é reza! Canto cura! Canta e os males se espantam.” O canto era cantado com voz e corpo. Assim, do canto surgia a dança. Cantávamos de corpo inteiro.
Quando não estávamos de corpo inteiro, se dizia que havia má vontade. E de má vontade não aceitávamos nada, nem a comida preferida. Duas coisas indicavam que o sujeito estava de corpo inteiro: o canto e a alegria. O canto-reza-dança curava tanto quanto as plantas do quintal. Esse modo de ser fez com que minha comunidade fosse comprometida com a vida e não com as dores. Longe da ingenuidade e da ignorância, as pessoas daquela comunidade eram conscientes de suas dores. A alegria ali era um posicionamento político, estratégico e ancestral de cura e manutenção de vida.
Na sala de leitura, através das oficinas e da arte, criamos diálogos sensíveis na tentativa de acordar nos seres urbanizados que somos a natureza que também somos. Enquanto a galáxia Escola Municipal Professor Escragnolle Dória se expandia, o Grupo Aprendizagens do Selvagem ciclo foi aglutinando vida. “Enquanto o universo se expande, o amor aglutina.”¹ A alegria tem sido nosso aglutinante mais abundante. Anna Dantes e Madeleine Deschamps, antes que o Grupo Aprendizagens chegasse à escola em fevereiro, apresentaram uma planilha na qual uma festa para as crianças seria a conclusão do Ciclo Aprendizagens 2024. Nego Bispo diz que
“as nossas festas são instrumento de defesa das nossas práticas, pois a festa é mais forte do que a Lei, o Estado não consegue quebrar os modos de vida quando eles estão envolvidos nas festas.”


Fotos: Carol Delgado
Encerramos na escola o Ciclo Brincar Acende o Sol com uma festa que reafirma nossas práticas. Uma festa onde nossos modos de vida baseados na cooperação, na alegria, na abundância e no respeito puderam ser celebrados. Vivemos com as crianças um dia em que a sala de aula mais parecia a laje ou o quintal de uma casa. Cada sala, um mundo cheio de brincadeiras. Um dia em que a alegria foi o objetivo geral e específico do planejamento. Brincando e cantando, demos conta do exercício do dia. Os registros da festa ainda não me chegaram às mãos, foram as crianças que fotografaram e vão contar essa história de acender o Sol. Por hoje, compartilho apenas umas brevidades em palavras escritas por mãos alegres.
Foto: Alice Faria
A alegria é a comunicação original com a vida, capaz de reger afetos e reformular rotas. A alegria pode enganar o medo e a morte. Onde eu vi isso? Eu vi isso nos olhos das crianças. E li também em bilhetinhos escritos por professores.
Foto: Carol Delgado
Terminamos essa página com um bilhetinho vindo de uma professora da escola:
“Preciso parabenizar você por esse movimento na escola. Ainda que o recurso seja externo, ele está lá e você vem viabilizando e oportunizando diferentes movimentos num cantinho de Costa Barros.
Ahhhh e como eu sonhava em ver outros movimentos nesse lugar que é meu ponto de partida.
Parar, respirar, ouvir, tocar… Temos passado anos competindo com o crime. Fazemos festa com brinquedos para que as crianças não tenham apenas eles com parâmetros, levamos algodão doce de graça e a vontade (muitos não tem condições de ganhar e os bandidos dão).
O estudo sempre foi uma forma de confronto.
Mas, dessa vez, um outro movimento está acontecendo e eles não podem roubar isso das crianças.
Um olhar por outra perspectiva.
❤️
Como ex-moradora, como ex-aluna e como colega de trabalho, sou grata por poder vivenciar isso e por presenciar uma utopia possível, visível e palpável.”
Miriam Ribeiro

Professora Miriam Ribeiro está vestindo uma tiara SOL criado pelos Alunos na oficna de Fantasias
Foto: Veronica Pinheiro
Até a próxima página.
NOTA
¹ Caderno Selvagem – Flecha 6, Tempo e amor
https://selvagemciclo.org.br/wp-content/uploads/2023/10/CADERNO49_FLECHA_6.pdf
https://www.youtube.com/watch?v=PeMBCABxXCQ&t=620s&ab_channel=SELVAGEMciclodeestudossobreavida
