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Diário Veronica Pinheiro

ESCUTE AS CRIANÇAS

By 15 de novembro de 2024fevereiro 2nd, 2026No Comments
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ESCUTE AS CRIANÇAS
Veronica Pinheiro

15 de novembro de 2024

 

 

Nesse dia 15 de novembro de 2024, o acontecimento não é: 420 crianças de uma escola pública falarem a uma professora sobre seus sonhos para uma escola viva. O acontecimento é: memórias de uma escola viva são despertadas em 420 crianças e em uma professora.

Em fevereiro, umas das coisas que mais me chamavam a atenção era a forma agressiva com que as crianças revidavam às provocações dos colegas de classe, ou como elas simplesmente usavam da força para dizer para a outra criança se manter afastada. Eu nunca tinha presenciado crianças tão pequenas protagonizando cenas com tamanha violência.

Perguntei a uma menina onde ela tinha aprendido a bater daquele jeito. A resposta foi: “Eu apanhava todo dia dos outros, então aprendi a bater. Fazendo igual ao que todo mundo faz.”

“Todo mundo quem?”, essa era uma pergunta que minha mãe sempre me fazia quando eu usava “todo mundo” como sujeito da oração. E, na sequência, minha mãe afirmava que todo mundo é muita gente. E que precisamos observar somente as pessoas em quem confiamos.

Assim como essa menina, conheci as muitas formas de violência ainda pequena, ao mesmo tempo em que minha comunidade me preparava para ser livre e feliz. Os mais velhos eram nossos mestres e professores. Os ancestrais, nosso colo e fundamento. O amor e a gentileza eram cultivados diariamente, ao ponto que as violência que subjugavam os corpos não eram capazes de aprisioná-los.

Depois de ouvir a menina que batia nas outras crianças, perguntei a todos os demais, ao longo do ano, por qual motivo eles reagiam de forma tão impetuosa. As respostas eram duas: “não sei” ou “eu preciso me defender”. Na primeira semana de aula, respondi a um menino que queria saber se eu era de “botar moral” na turma. Disse a ele que eu estava aprendendo a pisar suavemente na terra e que eu havia escolhido ser uma pessoa gentil. Ao pisar suavemente na terra, buscamos outras formas de caminhar pelo mundo. E uma delas é caminhar pedindo licença e permissão para entrar e sair de lugares.

Ouvir as crianças é uma forma de pedir licença. Antes de dizer às crianças o que pensamos a respeito da violência que elas reproduzem, deveríamos tentar ouvi-las. Ouvir as crianças foi o melhor que pudemos fazer em 2024. Nós, professores, direção e funcionários da escola, buscamos, ao longo do ano, compartilhar um ambiente com as crianças onde elas não precisariam se defender. Um ambiente onde elas pudessem apenas ser crianças.

A professora Janaína ficou com um dos maiores desafios: ela ficou responsável por uma turma de 32 alunos que não sabia dizer o que sentia ou queria. Foram muitos meses de escutas, exercícios de respiração e compartilhamento de outras formas possíveis de habitar a escola. Encerramos o ano com crianças apaziguadas. O trabalho de Janaína é admirável. A turma hoje consegue brincar sem brigas. Estive com as crianças da turma de Janaína por 2 horas no dia 14 de novembro, me emocionei ao vê-las contando as histórias que elas criaram e depois brinquei com elas das brincadeiras que inventaram na Roda de Leitura.

Quando falo de despertamento de uma escola viva, falo porque vi, em um território que normaliza a violência, crianças vivendo e sorrindo. Elas estão vivendo e podendo ser felizes à medida que as memórias de vida são despertadas. Pela primeira vez, hoje, dia 14 de novembro, nenhuma história escrita na aula de construção de narrativas falou de violência. Todas, absolutamente todas as histórias escritas e contadas pelas crianças no dia de hoje falavam de gentileza, festa e sonho.

Pela primeira vez, saí da escola numa quinta-feira, cansada de tanto brincar e sorrir. E isso só é possível porque a vida contida nas memórias do território e dos corpos territórios tem nos chamado para dançar e viver tempos de gentileza. Espero que a memória despertada continue falando e sendo escutada por meus pequenos companheiros.