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SOBRE SER ANCIÃ: Catarina Tupi-Guarani

By 23 de junho de 2026No Comments
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SOBRE SER ANCIÃ: Catarina Tupi-Guarani

23 de junho de 2026

 

Foto: Ju Chalita, 2023

Parteira, conhecedora das plantas, anciã, cacica, professora, artesã, avó de muitos e guardiã da espiritualidade de seu povo, Catarina Tupi-Guarani foi fundamental na história das lutas indígenas, da retomada territorial e da preservação dos saberes ancestrais. Em 2023, Catarina esteve presente na vigília Selvagem que deu origem ao ciclo de estudos Memórias Ancestrais, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, Catarina participou ao lado de Carlos Papá do ciclo Ayvu Pará – Nhe’ery, compartilhando sobre elementos da natureza, da vida cotidiana e dos significados de palavras guarani no território da Nhe’ëry, que nomeia o que costumamos chamar de Mata Atlântica. Sempre guiada por seus sonhos, pela escuta dos mais velhos e pelo compromisso com a continuidade de sua cultura, Catarina Tupi-Guarani deixou muitas sementes.

Nascida na aldeia Bananal, em Peruíbe, no litoral de São Paulo, Catarina cresceu na aldeia até os sete anos de idade, quando passou a viver na cidade. Ainda assim, jamais se afastou da casa de reza e dos rituais de seu povo, que a acompanharam por toda a vida, assim como seu nome em tupi-guarani Nimbopyrua. Em sua fala “Ser anciã”, proferida durante a vigília de onde nasceu o ciclo Memórias Ancestrais, Catarina contou: “A espiritualidade, quando a gente passa a ser chamada de anciã dentro de uma comunidade, a gente não aprende, alguém não ensina a você; você tem que ter já o seu dom de ser e, através das memórias ancestrais, a gente vai aprendendo como ser uma anciã”.

A força dos sonhos também era um dos eixos centrais de sua vida. “Tudo o que acontece na minha vida até hoje foi através dos sonhos. Só que a gente tem que saber definir os sonhos”, contou. Guiada por eles, enfrentou incompreensões e disputas ao longo do caminho, inclusive no ambiente escolar e acadêmico. Um dos sonhos mais marcantes ocorreu quando ela tinha cerca de 20 anos, quando viu seu bisavô buscá-la em uma carruagem e levá-la sobre o mar, enquanto rezava e lhe mostrava a cultura de seus antepassados. Durante essa travessia, ele lhe ensinou um canto, dizendo que, sempre que precisasse, deveria entoá-lo para que ele estivesse com ela. Anos mais tarde, Catarina cantou essa reza na vigília na Quinta da Boa Vista.

Sua relação com a espiritualidade também foi profundamente marcada pelo pai, que era pajé. No momento de sua passagem, em 2000, ele estava em seu colo e lhe deixou o cachimbo, para que ela cuidasse da espiritualidade da família, intrinsecamente ligada ao respeito pela floresta, pela natureza, pelo sagrado e pela vida em comunidade. Pouco tempo depois, Catarina protagonizou a retomada da Terra Indígena Piaçaguera, onde passou a viver na aldeia Tapirema. A área, que estava nas mãos de uma mineradora e sofria com a exploração e a devastação da natureza, foi retomada com cerca de 60 famílias, tornando-se, com o tempo, um território de referência para outras comunidades indígenas que passaram a ocupar a região. Reconhecida por diversas comunidades, Catarina foi nomeada cacica de Piaçaguera e assumiu a liderança em um contexto de muitos desafios, onde novamente a espiritualidade apareceu como guia. 

Descendente de diferentes troncos indígenas — com ascendência Tupinambá por parte da avó paterna, Guarani Kaiowá por parte da avó materna e Tupi-Guarani com Guarani Mbya por parte do avô materno — Catarina trazia em si a confluência de muitas memórias e linhagens. Ela dizia que aprendeu com a mãe que, independentemente da religião de cada pessoa, é preciso respeitar a forma como cada um se conecta com o sagrado.

Sua história e seus ensinamentos ficaram registrados, entre outros lugares, no capítulo dedicado a ela em Memórias Ancestrais, no qual narra como a espiritualidade se manifestou em sua família, o papel que assumiu na transmissão desses saberes e a força do sagrado nas passagens de seus pais. 

Em 2023, sua presença também marcou o ciclo Ayvu Pará, ao lado de Carlos Papá, em aulas-filme dedicadas às línguas indígenas, aos topônimos da Nhe’ëry e à visão de mundo Guarani. Nas conversas, os dois analisam nomes de cidades, rios, morros e territórios, assim como palavras de elementos da natureza e da vida cotidiana no território da Nhe’ëry, compartilhando seus significados na língua guarani e contextualizando aspectos da cultura a partir da língua.

Grande conhecedora das plantas medicinais, educadora comprometida e liderança fundamental na luta pela terra, Catarina viveu afirmando a continuidade de um modo de existir atravessado pela casa de reza, pelos sonhos, pela educação, pela retomada e pela transmissão de saberes. Sua passagem deixa, sobretudo, um caminho para o futuro.

Foto: Mariana Rotili, 2023