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UMA BIBLIOTECA NO “CORAÇÃO CANSADO”: Pingos Selvagem nas “Vivências Leitoras” da Baixada Fluminense

By 8 de junho de 2026No Comments
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UMA BIBLIOTECA NO “CORAÇÃO CANSADO”:
Pingos Selvagem nas “Vivências Leitoras” da Baixada Fluminense

08 de junho de 2026

 

No dia 9 de maio, o sábado de manhã começou com uma troca de histórias e de livros. Na Biblioteca Comunitária Nilo Sérgio, localizada no bairro de Jardim Pernambuco, em Nova Iguaçu, aconteceu mais um encontro do projeto “Vivências Leitoras”, que reuniu educadoras populares e professoras representantes das 17 bibliotecas comunitárias que integram a Rede Baixada Literária. O evento contou com a participação de Veronica Pinheiro, coordenadora do Laboratório de Aprendizagens Selvagem (LAS), convidada para conhecer a biblioteca e compartilhar formas de integrar o acervo, o espaço e a comunidade a partir de diálogos com os Pingos Selvagem.

O projeto “Vivências Leitoras” consiste em uma série de encontros com o objetivo de compartilhar formas de leitura e contação de histórias que aproximem as bibliotecas comunitárias de seus territórios. O convite para Veronica participar do projeto partiu de Nathalia Cabral, integrante da Baixada Literária, que a conheceu durante o curso de formação para líderes e coordenadores de bibliotecas comunitárias do estado do Rio de Janeiro no Instituto Tear, em 2025. 

Diante dos desafios impostos pela internet e pelas transformações nas formas de acesso a conhecimentos, Veronica apresentou uma proposta que busca reintroduzir a leitura em um lugar de beleza e de encanto a partir de diálogos com o Pingo 1 – “O Sol atravessa tudo” e o Pingo 2 – “Onde a vida se faz”. Pingo Selvagem é uma série de animação acompanhada por cadernos pedagógicos com propostas de atividades sensíveis, feitas para serem compartilhadas e circularem por diferentes idades e contextos. “O Pingo era a conversa inicial porque ele é um compartilhador de mundos e cosmologias”, contou Veronica. 

Junto dos Pingos, as obras compartilhadas por Veronica foram “Amália”, de Roberta Malta e Gohanna Tomé Souza, “Fora onde?”, de Tania Grillo, e “Ideias para adiar o fim do mundo”, de Ailton Krenak, livros que não se encerram nas palavras, mas fazem de imagens e imaginações formas de transbordamentos. Em “Amália”, os nomes de plantas e seus desenhos precisam ser lidos, assim como em “Fora onde?”, em que as figuras compõem novas camadas de sentido. Já “Ideias para adiar o fim do mundo”, mesmo só com palavras escritas, convoca repertórios íntimos e coletivos, fazendo emergir cenários em que imaginação e realidade se atravessam continuamente. 

“Quando você fala dos Pingos e traz o Sol pra falar da vida na Terra, automaticamente você está falando de plantas, que aparecem em ‘Amália’, e da relação com a vida, presente em ‘Fora onde?’, que questiona a ideia de que não há um lugar ‘fora’. No trecho do Pingo que fala com as mãos, se aponta a responsabilidade sobre o que fazemos, o que conversa com ‘Ideias para adiar o fim do mundo’, que é sobre esse mundo que chega no estágio que não consegue manter seus hábitos, em um ponto de não retorno, mas que mostra como podemos criar movimentos para que esse fim de mundo seja minimamente colorido e encantado para os seres que o habitam”, contou Veronica.

No Jardim Pernambuco, território que já abrigou o maior lixão do estado do Rio de Janeiro, a Biblioteca Comunitária Nilo Sérgio nasceu da força da própria comunidade e da relação afetiva construída em torno do campo do time local “Coração Cansado”. Ao lado do campo, um antigo bar foi transformado em espaço de leitura, acolhimento e convivência, onde as prateleiras antes ocupadas por garrafas passaram a ser habitadas por livros, o chão ganhou tapetes e almofadas e as paredes receberam novas cores. Tudo construído pelas próprias pessoas da comunidade, especialmente pelas mulheres. 

A biblioteca não só criou um novo ecossistema de relações entre crianças, jovens e adultos, mas passou a participar do próprio ecossistema ambiental. Localizada perto de rios que, devido à interferência de construções e pavimentações, passam por enchentes, a água entra na biblioteca, mas é protegida pelo campo de futebol que faz o movimento orgânico de drenar a água, como uma esponja. Assim, o campo naturalmente criou um lugar afetivo e seguro, onde agora brotam leituras, pensamentos e acolhimento.

Com exceção de “Ideias para adiar o fim do mundo”, que já constava nos acervos das bibliotecas, todos os livros, incluindo os cadernos Pingo, foram doados e agora integram as coleções das bibliotecas da Rede Baixada Literária. No final da atividade, todos os participantes almoçaram juntos e se emocionaram bastante com a força que é permanecer em coletivo, uma ideia que o Pingo traz de que a vida se faz em presença e em relação. 

Agora, o próximo passo é retornar com mais atividades sobre o Pingo e seguir reverberando a força deste encontro, que, a partir de um coração cansado, reuniu muitos corações dispostos a agir, criar e sonhar juntos.

Fotos: Veronica Pinheiro